Sangue e suor
Um grupo de investigadores desenvolveu uma pilha que funciona com sangue e suor humano. Curiosamente, estava convencido que algo semelhante já existia pelo menos desde a revolução industrial e que se chamava assalariado.
"Aliás, são sempre os outros que morrem." - Marcel Duchamp
Um grupo de investigadores desenvolveu uma pilha que funciona com sangue e suor humano. Curiosamente, estava convencido que algo semelhante já existia pelo menos desde a revolução industrial e que se chamava assalariado.
Publicado por Miguel Silva às 09:34 |
Caricaturalmente, costuma dizer-se que existem três tipos de mentiras: mentiras, malditas mentiras e estatísticas. A estatística, que tem vindo a ganhar popularidade como ferramenta essencial das ciências sociais, pertence, de facto, ao ramo de conhecimento das matemáticas. Como não existe a tradição de apelidar de mentirosa a disciplina da matemática, deve entender-se que a desconfiança perante a estatística advém sobretudo da má fama das ciências sociais e que estas duas decorrem do desconhecimento geral sobre os fundamentos quer da primeira quer das segundas.
O governo divulgou recentemente os tempos de espera na Saúde. No Zero de Conduta, o Pedro Sales notou não só que existe uma diferença entre falar de tempo médio de espera e tempo mediano de espera, mas também que o cálculo do segundo tem sido claramente favorável ao Ministério da Saúde.
A média é talvez o conceito estatístico mais divulgado. Contudo, a média é um indicador muito sensível a valores aberrantes. Por esse motivo, sempre que se detectem esses casos, é aconselhável trabalhar com a média aparada a 5%, da qual se excluem os valores superiores e inferiores, trabalhando-se exclusivamente os restantes. É importante perceber que a média, tal como a mediana, é uma medida de tendência central, sendo essa a razão pela qual se reduz a distorção introduzida pelos valores extremos no cálculo da média recorrendo à média aparada.
Por seu lado, a mediana é o valor da sucessão que tem tantas observações à sua esquerda como à sua direita. A mediana ignora, de facto, o peso dos valores aberrantes e pode servir como uma medida de tendência central mais rigorosa do que a média.
Mas, se em termos estatísticos isto é verdade, em termos políticos, técnicos e humanos existe uma outra vertente a ser considerada. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de tempos de espera no acesso a um cuidado de saúde. Os valores aberrantes, que podem ser tempos de espera muito longos ou muito curtos, são, nesta óptica, muito relevantes. Neste caso, o tempo de espera muito curto deveria ser o objectivo do sistema, pelo que são os tempos de espera muito longos que assumem maior importância, pois correspondem a casos clínicos concretos, a utentes do SNS, pessoas com um nome, uma família e um problema de saúde por resolver.
A estatística não devia ser uma arma de arremesso em guerras políticas, nem um meio de tornar mais opaca a realidade – ao arrepio da sua primordial função que é dá-la a conhecer da forma mais transparente possível. Num mundo ideal, existiria uma ética na divulgação deste tipo de dados, fornecendo a maior informação possível e deixando que a discussão pública decorra a partir de bases firmes. E o governo sempre se poupava às acusações de andar a escolher os indicadores que lhe são mais convenientes.
Publicado por Miguel Silva às 13:47 |
...ou Grandes momentos da imprensa nacional
Na edição de hoje do DN:
Pág 4 e 5 – PJ aperta o cerco à Praia da Luz e reforça buscas
Pág. 12 – “El Solitario” queixa-se de abusos sexuais na cadeia; Rapazes eram assediados sexualmente pela Net e SMS; Minstério Púlico de Lisboa está a receber menos crimes
Pág. 13 – Acidente mata família de emigrantes em França
Pág 18 – Assaltadas duas agências bancárias em Cerveira e Vizela; Bombeiro morreu em estrada de alto risco; Carro incendeia-se na A4; Homem colhido por comboio; Incêndio destrói armazém; Trio armado assalta loja; Assaltou bomba de gasolina
Pág. 19 – PJ atenta aos assaltos a McDonald’s do Norte; Centenas de amigos na despedida de Joel
Pág. 20 – GNR desconfia de organização nos assaltos a autarquias locais; Tinha plantação de droga num anexo da casa da mãe; Detido homem que “fabricava” armas ilegais; Discussão leva polícia a disparar sobre condutor
Pág. 21 – Atiram carro contra porta do Almada Forum; Cinco encapuzados assaltam posto dos CTT; Detido por violar prisão domiciliária; Homem preso com quase 200 munições; Bombeiro ferido em combate a fogo
Publicado por Miguel Silva às 19:54 |
O presidente é o antigo primeiro-ministro. O primeiro-ministro é o antigo presidente - com o pormenor de não ter ganho as eleições. A estabilidade é muito bonita. O respeito pela vontade dos eleitores pode ficar para mais tarde.
Publicado por Miguel Silva às 11:09 |
Na sequência dos posts que o Lutz Bruckelmann dedicou ao Museu de Berlim, ao lado dos comentadores mais habituais no Quase em Português surgiram uma série de outros comentários que se afastam radicalmente do nível habitual para aqueles lados. Esses comentários oscilavam entre o proselitismo e o ressentimento, tendo em comum a recusa dos números geralmente avançados na sinistra contabilidade dos mortos no Holocausto.
A questão dos números, embora não seja, de todo, a mais importante, não pode ser simplesmente ignorada. Costuma dizer-se que um morto é uma tragédia, cem mil mortos são uma estatística. A substância contida nesta sentença é a de que uma vida pode ser sempre reconduzida à sua história, aos que lhe são próximos, ao que deixa para trás. Mas um exercício desta natureza é virtualmente impossível quando o número de vítimas aumenta exponencialmente. Existe, de facto, uma dupla impossibilidade. Em primeiro lugar, porque é absolutamente impossível reter na memória a história de vida de cem mil pessoas. Em segundo lugar, porque, se o fosse, o sofrimento associado à memória das vítimas, das suas vidas destruídas, das suas famílias desfeitas, da sua obliterada dignidade, seria humanamente insuportável.
A mecanização das fábricas de morte que caracteriza os campos de extermínio surge não tanto pelo apego nazi à ordem – apego, já de si, bastante sobrevalorizado – mas antes pela ameaça que os fuzilamentos dos esquadrões de morte representavam para o moral dos homens neles envolvidos. Ao encarar de frente os olhos das vítimas sobressai a vida, a individualidade, eclipsando-se o número e a abstracção.
Focar a atenção, quando se fala nas mortes associadas ao nazismo, nos números e na confiança que eles merecem é falhar o que é mais importante nesse período negro da história mundial. Apurar os números correctos é tarefa para historiadores sérios e empenhados. Mas existe uma visão mais abrangente do que os números, que ultrapassa a disciplina da história e pertence, acima de tudo, aos domínios da filosofia e da moral. Os números assumem uma importância secundária quando comparados com o aspecto que constitui a essência do terror nazi: o processo.
O processo de actuação nazi, fundamentado na sua fantasiosa ideologia racial, caracterizou-se sempre pela exclusão. Foram excluídos os judeus, os ciganos, os eslavos, os comunistas, os homossexuais, os deficientes e os doentes mentais. Se o resultado da guerra tivesse sido favorável aos nazis, a seguir preparavam-se para excluir todas as pessoas com insuficiências cardíacas e pulmonares. A essência do totalitarismo é o perpétuo movimento. É necessário que o processo de exclusão nunca esteja concluído, que exista sempre um novo alvo, definido ao sabor das necessidades do momento.
Em conclusão, saber se morreram exactamente seis milhões de judeus nos campos de concentração nazis não é tão importante quanto é a noção de que todos estamos incluídos no rol de potenciais vítimas de um regime desta natureza. É o processo que é fundamental – a necessidade de matar, de excluir social e biologicamente, para continuar a afirmação do regime.
Publicado por Miguel Silva às 11:15 |
Às 8:30 da manhã, a TSF abriu o seu noticiário com uma reportagem sobre a previsão do tempo para hoje.
Publicado por Miguel Silva às 18:38 |
Um líder com medo de perder e uma oposição interna com medo de ganhar.
Publicado por Miguel Silva às 18:37 |
No Brasil, cuja população ascende a quase 200 milhões de habitantes, 130 mil pessoas representam mais de metade do PIB do país. Às vezes convém relembrar estas realidades quando se fala de desempenho económico.
Publicado por Miguel Silva às 11:09 |
O PSD e o PP perdem em toda a linha. O PSD perde por ter apoiado um candidato que mais tarde se viu não merecer confiança. Perde por ter tardado em retirar-lhe a confiança política. Perde por ter registado o pior resultado eleitoral de sempre em Lisboa. Perde por ter passado a terceira força política. E perde por ter à sua frente, em segundo lugar, precisamente a lista que de Carmona Rodrigues. Não há milagre que salve Marques Mendes. Mais do que a derrota de Fernando Negrão, esta foi a derrota da liderança social-democrata em Lisboa.
Por seu lado, o PP paga o preço da estratégia de poder partidário de Paulo Portas e dos seus acólitos, assim como o afastamento de Maria José Nogueira Pinto, que, concorde-se ou não com o seu posicionamento político, é tida por pessoa séria e responsável. O PP encontra-se, assim, numa posição muito ingrata. Se os resultados de Lisboa levarem a um novo congresso, é impossível não ver nisso uma derrota claríssima de Portas e um desfasamento muito grande entre o seu estilo e a sensibilidade do eleitorado. Se a direcção optar por se manter em funções, arrisca-se a continuar a registar derrotas inéditas e a depauperar a sua base eleitoral, tanto ao nível local, como ao nível nacional.
Mas se a história política recente nos ensina alguma coisa em relação ao PP de Portas é que não existe cenário que o populismo e a sede de protagonismo desta liderança não consigam distorcer à sua medida. Se nada em Marques Mendes pode mantê-lo na liderança do PSD por muito mais tempo, Portas já mostrou que a sua criatividade e desrespeito pelo bom senso e inteligência do eleitorado conhecem outros limites.
Publicado por Miguel Silva às 10:39 |
“A culpa não é minha”, disse a senhora da caixa registadora quanto pediu 9,30€ por duas meias de leite e duas sandes mistas.
Publicado por Miguel Silva às 11:14 |
Eu sabia que comprar aquela guitarra eléctrica havia de mudar a minha vida.
Publicado por Miguel Silva às 17:37 |
Intolerantes são os outros. Nós somos muito abertos a brincadeiras com os nossos símbolos religiosos.
Publicado por Miguel Silva às 13:49 |
"António Costa foi ontem forçado, pela primeira vez na campanha eleitoral para a Câmara de Lisboa, a "descer" ao terreno do combate político puro e duro, dedicando o essencial de um discurso, feito perante idosos no Mercado da Ribeira, a responder a ataques dos adversários a personalidades da sua candidatura."
O combate político puro e duro não é, nem nunca foi, responder a ataques pessoais, tal como não passa por ser responsável por esses mesmos ataques. Isso, quanto muito, é a politiquice. A política pura e dura são os assuntos do Estado, antigamente a cidade-estado, hoje mais o Estado-Nação. As raízes da política encontram-se no poder e no seu exercício, na governação afinal de contas, assim como no discurso, nos argumentos usados com vista a alcançar o exercício do poder ou a justificar as opções defendidas.
O ataque pessoal, baseado em suposições ao invés de se apoiar em factos, não tem como finalidade convencer mas criar dúvidas. Que num jornal de referência se julgue que a política pura e dura é a dos ataques pessoais e respectivas respostas revela muito sobre a nossa imprensa e sobre o que podemos esperar dela.
Publicado por Miguel Silva às 13:23 |
No Estado Civil, um testemunho de Maria Emília Correia sobre a difícil relação entre o envelhecimento e as dificuldades acrescidas no mercado de trabalho. Maria Emília Correia fala da profissão de actor, mas as suas palavras não se esgotam neste meio. Depois dos 40, arranjar emprego em qualquer área é uma tarefa dura e ingrata.
O problema da nossa sociedade não é um problema de obsessão com os novos, e sim um problema de obsessão com o novo. Vivemos um tempo que está sempre disposto a glorificar a next big thing, mas que tende a prestar infinitamente menos atenção às actuais big things. Isto acontece nas artes, no desporto, no mundo empresarial e até na política. A expectativa e a promessa futura têm um peso social muito maior do que o valor seguro e confirmado.
Eventualmente, nos campos com pretensões de retratar a realidade, como é o caso (embora, claro, nem sempre) do teatro e do cinema, existe a tendência de reproduzir os vícios da sociedade. Assim, se a sociedade é machista e hipervaloriza o novo, uma representação fiel há-de reproduzir estas estruturas sociais. Se os actores e actrizes encontram dificuldades acrescidas de empregabilidade em função da idade, isso não reflecte uma particularidade do seu meio profissional, mas uma característica generalizada das sociedades actuais.
A questão ambiental e a pobreza representam dois dos problemas mais importantes nesta transição de milénio. Mas a par delas, o outro grande desafio dos nossos dias é o lugar que reservamos aos mais velhos. Uma questão que, se não for por outra razão, por motivos demográficos, não pode ser ignorada muito mais tempo.
Publicado por Miguel Silva às 11:28 |
Não sei se compreendo o dever que temos de não contribuir para desfechos nos quais somos vítimas de homicídio.
Publicado por Miguel Silva às 11:48 |
Não vi o debate. Mas o principal aspecto a reter, pelo que se vai lendo, parece ter sido a prestação de Fátima Campos Ferreira. Não tendo visto o debate e não tendo posto os olhos nas moderações de Fátima Campos Ferreira há uns bons tempos, consigo, ainda assim, imaginar perfeitamente o nível da prestação. E isto, pessoalmente, diz-me bastante sobre a marca indelével dos maus desempenhos da moderadora da moda. Na RTP ninguém nota, o que, a médio prazo, é irrelevante. As modas custam enquanto duram, mas todas passam.
Publicado por Miguel Silva às 10:49 |
Afirmar que as pessoas estão fartas de política é um recurso demagógico muito frequente. O ruído da vida política nacional é algo diferente e é razoável acreditar que as pessoas estejam realmente fartas dele. O ruído da vida política é tudo o que não é política, mas que consegue bastante tempo em jornais e televisões, presume-se, porque ajuda a vender.
O ruído é da responsabilidade dos seus autores, nomeadamente dos políticos que vêem no circo que gira em torno da política, mas que não é política, um meio legítimo de divulgação. Acaba por ser um expediente muito eficaz quando se precisa de notoriedade, mas as ideias e as propostas para o futuro, ou o registo do passado, não são definitivamente o melhor caminho para o conseguir.
Contudo, a divulgação do ruído e o destaque que lhe é reservado, em detrimento de outros assuntos bastante mais importantes para o país e para os eleitores, é da responsabilidade dos agentes da comunicação social. Como sempre, no final, os balanços serão críticos e não faltarão vozes com autoridade para mudar o rumo das coberturas a reconhecer os exageros. Como alguns políticos, que esperam que a memória dos eleitores seja suficientemente curta para obliterar os desvios, também essas vozes esperam que o consumidor esqueça o que não foi feito quando era necessário.
Publicado por Miguel Silva às 16:42 |