Friday, May 11, 2007

O sofrimento dos outros

Gerou-se aí algures, suportada pelas declarações do psicólogo Luís Villas-Boas, uma corrente de criticismo à actuação dos pais da menina inglesa desaparecida no Algarve. Escolher um momento destes para tecer juízos sobre o comportamento dos pais – juízos já de si de duvidosa validade empírica – revela sobretudo sede de notoriedade, uma tendência para a moralzinha e um certo prazer na repreensão de terceiros.
Não tenho muitas histórias destas, ou destas, para contar. Mas, a tê-las, publicá-las-ia sem hesitação. Neste momento de mistificação do que é a actuação parental torna-se importante oferecer exemplos concretos que desmontam essas perigosas imagens de pais-exemplo e de super-pais, que alguns pretendem fazer passar como verdadeiras e únicas merecedoras de sanção positiva.
Ainda assim, e por razões óbvias, não é o processo de mistificação em curso que mais choca. É, antes, a frieza desumana das declarações e a quase total desconsideração perante o sofrimento alheio.

Tuesday, May 08, 2007

Deixem a sociologia em paz

A violência voltou às ruas de França após as eleições presidenciais e era apenas uma questão de tempo até que alguém viesse colar as "explicações sociológicas" às posições da esquerda, como quase sempre acontece em casos semelhantes [Helena Matos no Público, sem link disponível]. Ora, a sociologia não justifica nada; analisa e explica, mas as justificações, essas, não se podem imputar à ciência social inaugurada por Auguste Comte. Quanto à esquerda, não se lhe pode propriamente apontar o dedo por tender a embrenhar-se um pouco mais na raiz dos problemas antes de partir para a adjectivação fácil. Compreender e justificar têm significados diferentes na linguagem científica, na linguagem política e na linguagem quotidiana, mas confundir as duas coisas é um recurso muito em voga na direita desde o 11 de Setembro.
Parece haver algumas pessoas que não simpatizam com a disciplina da sociologia e que não se coíbem de a desprezar com o fito de atacar os seus adversários políticos - como se uma ciência, com um objecto, um método e um corpo teórico definidos e autónomos, tivesse menos valor pelo tipo de problemas que elege estudar. Mas, enfim, a sociologia também explica estas formas de discussão política.

Sunday, May 06, 2007

Role model

As imagens das aglomerações espontâneas(?) de apoiantes de Carmona Rodrigues trazem à memória episódios semelhantes com outros autarcas como protagonistas. Se Carmona ainda tiver bons amigos, alguém tem o dever de lhe explicar que esta não é a melhor opção. Acreditar que as tácticas que resultam num ou noutro concelho do distrito do Porto se podem aplicar igualmente na maior cidade do país é um erro de palmatória.

Repetir baixinho até parecer tranquilizador

A Madeira é demasiado longe e já não é como se fosse realmente Portugal.

Friday, May 04, 2007

A essência

Carmona Rodrigues, nunca será demais relembrá-lo, foi o político que negociou nomeações para empresas municipais a troco de apoios eleitorais e que disse não perceber as críticas que lhe foram feitas à altura. Agora pretende assumir uma posição de força e não renunciar a um mandato após ter sido constituído arguido num processo directamente relacionado com a sua actuação como edil. Existe, pelo menos, uma certa coerência entre os dois casos.
Confesso que hesito entre pensar que ao ainda presidente da CML falta a capacidade de interiorizar os mecanismos mais básicos de ética democrática ou, por outro lado, presumir algo mais sinistro. Até prova em contrário, merece, como toda a gente, que nos fiquemos pela hipótese da mera falta de cultura democrática.
Carmona tem, contudo, razão numa coisa. O sistema político-partidário não convive bem com independentes. O seu problema é que não é isso que está aqui em causa. Trata-se de confiança, transparência e ética política e já não existem artifícios de retórica que possam convencer o eleitorado do contrário.

Tuesday, May 01, 2007

Defeitos

Qual é a (abundante) integridade moral da censura, das fraudes eleitorais, do Tarrafal, da PIDE/DGS e da guerra colonial?

Se o Alonso fosse capaz de explicar isto, o seu texto padeceria bastante menos do defeito de querer fazer de Salazar algo que ele não era. Defeito esse, de resto, que o Alonso, porventura correctamente, parece encontrar amiúde noutras pessoas.

Friday, April 27, 2007

Sr. Sousa

Não existe nenhum call center para onde se ligue e que não insista em tratar-nos pelo nosso nome. Diz nuns manuais que isso melhora a relação com o utente. Nem todos, mas adiante. Quando me perguntam com quem estão a falar eu respondo com os meus primeiro e último nomes: Miguel Silva. Com uma frequência assustadora, do outro lado a conversa costuma continuar: “Muito bem, senhor Miguel Sousa…”.
A quantidade de vezes que me trocam o Silva pelo Sousa é tão grande que já não me dou ao trabalho de tentar corrigir o engano. Para efeitos práticos, ao telefone chamo-me Sousa mais vezes do que Silva. Digamos que já se transformou no meu alter-ego telefónico.

Monday, April 23, 2007

Respeitinho

Podeis rir, mas com respeito. Porque, se um dia deixais de ser cuidadosos com o respeito, podeis perdê-lo a quem não o merece, do que resultariam enormes catástrofes sociais de que já vos falei amiúde nas minhas crónicas.

Friday, April 20, 2007

Muito à frente

Retiro da caixa de correio um aviso de entrega de uma encomenda que, explicam-me depois no balcão dos CTT, ainda não chegou.

A realidade é o que é

Conheço pessoalmente muita boa gente a ganhar pequenas fortunas sem nunca ter concluído o ensino superior. Alguns sem nunca o terem frequentado sequer. Tal como conheço muito boa gente com cursos superiores ou com frequência dos mesmos que ganha magros salários em funções para as quais não são necessárias quaisquer qualificações relevantes.
Isto não contraria o que se encontra na base da campanha das Novas Oportunidades. Apenas confirma que a estrutura do tecido produtivo nacional não valoriza convenientemente as qualificações como prova de competências adquiridas nem como instrumento de incorporação de mais-valia na actividade desenvolvida. Se pretendemos uma economia que algum dia queira ser competitiva à escala global, esta mentalidade que tem de ser alterada. Há vários passos a dar nesse caminho, mas algum terá de ser o primeiro.

A publicidade é o que é

Os cartazes alusivos à iniciativa governamental Novas Oportunidades têm suscitado alguma polémica. Serão simplistas, mas dificilmente a publicidade escapa a esse condicionalismo. Não são mais redutores, na forma como apresentam o seu tema, do que a esmagadora maioria do que se produz neste meio. Mais ainda, a publicidade não tem como função principal educar ou explicar, mas antes suscitar interesse, marcar presença, fazer-se notar.
Um quadro mais abrangente do tema, com dados concretos, como os que o Rui Pena Pires se deu ao trabalho de coligir, ajudaria a compreender melhor a questão. Mas, certamente, não funcionaria tão bem em outdoors publicitários.

Thursday, April 19, 2007

A Primavera

O Sol, o azul do céu, as temperaturas amenas, o voo rasante das andorinhas, a folhagem renascida das árvores, o desabrochar das flores, as lagartixas vivas que a gata trás para dentro de casa…

Wednesday, April 18, 2007

O inimigo interno

Os EUA conheceram, segunda-feira, o maior massacre de sempre num estabelecimento de ensino, do qual resultaram mais de 30 vítimas mortais, exactamente na mesma semana da publicação de um estudo sobre o controle da venda de jogos, DVD e música a menores. As restrições das autoridades nem sempre são cumpridas, mas, segundo o mesmo estudo, tem-se assistido a uma melhoria nesse sentido. Os jovens norte-americanos devem esperar cada vez mais dificuldades para aceder a conteúdos violentos. A outro nível, um controle cada vez maior é exercido sobre o tabaco e sobre os locais onde o fumo é permitido. As imagens de fumadores acantonados à porta dos edifícios onde trabalham, ou os exercícios de limpeza moralista, que vão desde as películas de Hollywood às bandas desenhadas, são disso um bom exemplo.

Há uns anos fui apresentado a um norte-americano, o qual, a meio da nossa amena conversa, decidiu mostrar-me as suas três cartas de condução. Uma era verdadeira e as outras duas, obviamente, eram falsificações que tinham como principal objectivo, através da alteração da data de nascimento, habilitá-lo a consumir álcool. Destas, segundo ele, uma delas estava superiormente conseguida, suscitando um inegável sorriso de orgulho.

Por mais que se queira, as pessoas encontram sempre uma forma de contornar as proibições. É impossível erradicar o crime das sociedades. Aliás, uma sociedade sem crime é uma utopia que talvez encerre mais perigos do que benefícios. Mas não deve ser por isso que se deve abdicar dessa luta. O próprio equilíbrio e coesão de um grupo social dependem do nível do seu sentimento de segurança e de aplicação da justiça.

Este tópico devolve-nos ao problema das armas num país como os EUA. Um dos fenómenos que os EUA parecem não conseguir controlar – e não querer consegui-lo – é o comércio de armas. Certamente, existem razões económicas e ideológicas por trás desta impossibilidade. Mas também não deve haver melhor definição do que é a influência de um grupo de pressão. A mesma sociedade que encara com tanto moralismo o conteúdo de filmes, músicas e jogos sanciona positivamente a posse de armas. Consegue mesmo a proeza de se alimentar da insegurança criada pela criminalidade violenta, associada às facilidades na aquisição de armas, para fomentar a compra por parte de indivíduos que, contra todas as probabilidades, pensam encontrar aí a melhor forma de se defenderem.

Sem dúvida, devemos questionar a génese e as consequências dos conteúdos violentos, especialmente junto dos mais novos. Mas ao focar a atenção quase exclusivamente nessa realidade, ignorando os perigos associados à facilidade com que se adquirem armas de fogo, falha-se clamorosamente o objectivo principal de impedir um maior número de crimes violentos. Em última análise, e isto é uma evidência tão grande que custa escrevê-lo, não são os jogos para consolas que matam; são as balas disparadas de revólveres e espingardas, tantas vezes comprados na mais perfeita legalidade.

Wednesday, April 11, 2007

O cidadão e a Segurança Social

Hoje precisava de uma informação da Segurança Social. Prevendo as dificuldades deste tipo de interacção com alguns departamentos públicos, pensei imediatamente em escrever um post e dar-lhe por título “O cidadão e a Segurança Social”. Contudo, dez minutos e três telefonemas depois, dispunha de todas as informações que necessitava. A coisa tinha-se resolvido bastante melhor do que eu esperava e o meu antecipado post de lamentação esvaziara-se.
Apesar da minha reduzida participação nos últimos tempos, a verdade é que não há praticamente nada de que não se possa espremer um post. Assim, gorada a lamentação, nasceu um post, exactamente com o mesmo título, sobre más expectativas no contacto com os serviços públicos, ainda que para admitir o erro desse cálculo.
Mas não se pode recriminar-me o pessimismo. Já uma vez passei cinco horas dentro de umas instalações da Segurança Social. É uma experiência que traumatiza para o resto da vida.

Tuesday, April 10, 2007

Correcção

Não fui eu que recordei o Patchouli (mesmo que tivesse sido, nunca o admitiria em público). Apenas disse que era inesquecível, e isso nem sempre deve ser interpretado como algo necessariamente bom.

Anda uma pessoa a construir cuidadosamente a sua imagem nos blogues, há não sei quanto tempo, para ser difamado assim, sem mais nem menos. Não há direito.

Monday, April 09, 2007

A Primavera é fauve


Henri Matisse, Canal du Midi, 1898

Wednesday, April 04, 2007

Classificados

Cavalheiro procura diário generalista de referência, que preze os princípios da objectividade, do rigor, da pertinência e do pluralismo, para relação de consumo séria.

Friday, March 30, 2007

O buraco

Um homem, quando se encontrava a passear, caiu num buraco do qual não conseguia sair. Ao ver passar por ele um médico, pediu ajuda. O médico passou uma receita, atirou-a para o buraco e seguiu o seu caminho. Mais tarde, passou um padre e o homem voltou a pedir ajuda. O padre escreveu uma oração, atirou-a para o buraco e seguiu o seu caminho. Por último, o homem viu passar um amigo e pediu que ele o ajudasse. O amigo, sem hesitar, saltou para dentro do buraco. O homem, espantado, disse-lhe: “És parvo, ou quê? Agora estamos aqui os dois.” E o amigo respondeu: “Sim, mas eu já cá estive e sei como se sai.”

Wednesday, March 28, 2007

As verdades são para se dizer

Salazar tinha aquele ar distante e austero que têm todas as pessoas com uma vida sexual miserável.

A reacção

Parece que Salazar reuniu 70.000 votos, o que é bastante diferente de dizer que votaram nele 70.000 pessoas. Nas condições em que se processava a votação, cada pessoa podia votar um número de vezes proporcional ao número de telefones que tivesse à mão. Assim não se mede nada. A validade é nula e nem vale a pena perder mais tempo com isso.

O maior interesse desta pequena questão está nas reacções. Há quem se tenha surpreendido, há quem se tenha indignado, há quem considere que se fez justiça e há quem acredite que estamos perante um sinal dado ao regime democrático que vigora. Esta última perspectiva, a dos críticos da III República, é a mais curiosa. Querem fazer crer, e já não é de agora, que o regime está podre, que é licencioso e desregrado. Que faz falta uma mão firme, que isto só lá vai com um espírito disciplinado e sério, que imponha respeito e decoro. O sebastianismo vive. Não faz falta D. Sebastião, como não faz falta Oliveira Salazar. O que faz falta é um Salazar. Isto é, não se trata tanto de um culto de determinada personalidade quanto do culto de um modelo de actuação.

Isto é muito salazarista e é muito português. De resto, a justaposição destas duas características é o maior triunfo da ditadura, ao conseguir, de forma tão indelével, forjar nas mentalidades portuguesas as atitudes sociais de que dependia para sobreviver. Os que criticam e clamam pelo fim deste regime não esperam o retorno de Salazar. O que esperam é que alguém ponha mão nisto. Esperam uma ordem diferente. Esperam que alguém tome a tarefa para si. Esperam, porque isso lhes permite demarcarem-se desta liberdade que não entendem e entregar nas mãos de um só um trabalho que é de todos. Em última análise, querem demitir a população das suas responsabilidades e abrir alas para uma espécie de salvador da pátria e nem sequer percebem que estão a demitir-se simultaneamente das suas responsabilidades e que nada garante que a ordem e a moral desse salvador venham a ser aquelas que advogam.

Não, o problema não está no regime democrático e nas suas liberdades. Está nas pessoas que não sabem viver nele.

A raiz do problema

Afinal, ganhou Salazar. O problema não é da democracia, da nossa democracia, como por aí se diz. O problema é do que as pessoas fazem, ou sabem fazer, com a nossa democracia. E esse problema deve-se, ninguém se iluda, a 48 anos de ditadura salazarista.

Tuesday, March 27, 2007

Cativo

Todos os aconchegos são prisões.

Monday, March 26, 2007

Perigo

Existe um sinal evidente de perigo quando as letras das canções pop das décadas de 80 e 90 começam a ganhar sentido.

Friday, March 23, 2007

Graus de importância

Entre Moçambique e Portugal existem ligações históricas, culturais, familiares, se quisermos passar para um nível mais pessoal, que não é o de menor importância neste caso, que tornam incompreensível o pouco destaque que é dado nos sites noticiosos à tragédia que ocorreu ontem à tarde em Maputo.

Igualdade - casos práticos

Na Alemanha há uma juíza que parece pensar que a doutrina religiosa deve prevalecer sobre as leis do país e que ser agredida pelo marido não constitui motivo para divórcio. Em Portugal, já se sabe, maus-tratos só quando se apanha do marido de forma “reiterada”. Se tiver acontecido, por exemplo, apenas uma ou duas vezes, nem vale a pena pensar nisso.

Thursday, March 22, 2007

Haja paciência

Mas depois, o que é mesmo mau para a democracia é a proibição de fumar em locais públicos.

Separação de poderes

Nos EUA, o Procurador-Geral Alberto Gonzales está a sofrer grande contestação, acusado de estar a levar a cabo despedimentos no sistema de Justiça norte-americano com base em critérios políticos. A ser verdade, não é preciso muito para compreender a seriedade do caso. Contudo, talvez o mais grave nem seja o caso em si, mas o facto de, sensivelmente sete anos depois de Bush e da ala política do partido Republicano que o apoia terem chegado à Casa Branca, notícias destas já não surpreenderem. Chocam, mas não surpreendem. De facto, perto do final de dois mandatos recheados de polémicas em torno do que deve ser o regular funcionamento de um Estado de Direito, é precisamente o género de notícia que se pode esperar.

Tuesday, March 20, 2007

O falso regresso

Tornou-se habitual ouvir dizer que Paulo Portas está de regresso à vida política activa. Trata-se de um equívoco. O regresso implica uma ausência e Portas nunca esteve realmente ausente do palco político. Paulo Portas não regressou, limitou-se a dar a cara. Deixou os bastidores e assumiu finalmente o papel que há muito reservou para si mesmo.

O CDS/PP é uma construção. Portas queria um partido e julgou mais conveniente, muito provavelmente com toda a razão, que isso seria mais facilmente alcançado apoiando-se numa estrutura já existente do que partindo do zero. Por aqui se percebe, por exemplo, toda a distância que o separa de Manuel Monteiro em termos de calculismo e de instrumentalização.

Monteiro foi a figura que testou o sistema e que serviu como ponto de aprendizagem e de afinação da estratégia. Quando a altura foi propícia, Portas tomou conta do projecto que era seu: um partido diferente, com um discurso renovado, preparado para cativar outro tipo de eleitores. Foi já quando a sua estratégia tinha esgotado a sua capacidade de expansão eleitoral que a hipótese de chegar à governação se atravessou à sua frente e que o CDS/PP se impingiu como alternativa para formar uma maioria parlamentar que apoiasse o novo governo.

Essa experiência terminou conforme se sabe e Portas percebeu-o rapidamente, encontrando na saída da liderança do partido a melhor forma de conter os danos pessoais que inevitavelmente se previam para o futuro próximo. Mas o CDS mais tradicional, que nunca simpatizou com Portas, nem com as suas estratégias, e que nunca se reviu no PP ainda se encontrava activo. Telmo Correia foi o escolhido para impedir o retorno desse CDS e falhou a sua missão. Contudo, através de um grupo parlamentar moldado à sua imagem e de toda uma nova geração de notáveis que deve muito da sua carreira política a Paulo Portas, a oposição interna à direcção de Ribeiro e Castro sempre foi uma realidade activa e nunca deu tréguas ao ressurgir do antigo CDS.

Dizer que Portas regressa é, por isso, um grande erro. O seu dedo esteve e está em quase tudo o que o CDS/PP tem passado nos últimos tempos. Simplesmente, agora chegou a altura da guarda avançada encarregue de preparar o terreno abrir alas para que o seu líder dispute o lugar que considera seu por direito natural.

Monday, March 19, 2007

Prognóstico

Ontem passei a manhã na praia a correr atrás de uma bola. Hoje sou uma colecção ambulante de dores musculares. Vá lá, não me doem os dedos das mãos. Talvez seja uma boa semana para o blogue.

Friday, March 16, 2007

Ser e não ser

Quanto mais restritas se tornam as condições de frequência de um determinado meio, menos pessoas se espera atrair. Isto é verdade em qualquer caso que se proponha. Sobem as exigências, desce o número de interessados. O papado de Bento XVI trilha inquestionavelmente esses caminhos.

O que mais surpreende nesta história, contudo, é um movimento intitulado “Nós Somos Igreja”. Surpreende não pelas suas reacções, mas pelo princípio de que parece partir, a julgar pelo nome que adoptam. As pessoas que compõem esse movimento serão fiéis, crentes, católicas, mas não são, definitivamente, Igreja. A Igreja é o Vaticano, a Cúria, as Conferências Episcopais, os Concílios, mas não foi, não é, nem será os fiéis. A estrutura e princípio funcional da ICAR, desde que ela se constituiu como tal, baseiam-se na hierarquização, no elitismo e, até, no despotismo iluminado. A ligação da Igreja aos seus fiéis não é um convite à participação livre e democrática. É um processo de conversão e coerção religiosa e moral.

Compreende-se que haja quem não se reveja nesta Igreja e compreende-se que haja quem pretenda modificá-la. Mesmo admitindo que podem alcançar alguma visibilidade para exporem os seus ideais, falta-lhes o essencial. Na realidade, não têm lugar nas assembleias onde se tomam as decisões relevantes para o futuro da ICAR, nem dominam os mecanismos que possibilitam ocupar esses lugares. Resta-lhes continuar a fazer pressão a partir do exterior, o que é legítimo e necessário, mas não suficiente.

Wednesday, March 14, 2007

Realidades paralelas

Passa uma pessoa meia manhã a ouvir o Fórum da TSF sobre blogues, as possibilidades de participação cívica, o incremento do debate político, a reflexão plural, comunicação social para aqui, produção de conteúdos para ali, o meio e a mensagem e mais não sei o quê… e, vai-se a ver, andamos a discutir a posição do tampo da sanita.

Tuesday, March 13, 2007

Comentários

Na impossibilidade de comentar os meus posts através do Blogger, alterei o sistema de comentários. Ao que parece, perderam-se os anteriores comentários do sistema Blogger, pelo que sinto dever um pedido de desculpas a todos os que aqui têm passado e contribuído para tornar este blogue mais interessante. Havendo possibilidade e capacidade para tal, hei-de recuperá-los para a página do blogue.

Friday, March 09, 2007

Responsabilidade e bom senso

Pode muito bem ser que por trás da proibição de fumo nos restaurantes possa estar “a imposição de um projecto de vida saudável e asséptica”. Não me custa reconhecê-lo e enquadro essa corrente na família de outras, também sobejamente conhecidas, como as vacas sagradas que são o novo, a juventude e a beleza. Mesmo assim, não deixa de me parecer absurdo que se pretenda consagrar o direito inalienável de encher de fumo ambientes fechados e de incomodar e prejudicar terceiros.
No fundo, esta parece ser uma questão que se poderia resumir ao bom senso e à acção responsável. O problema é que, apesar do bom senso e da boa educação levarem a que não se incomode outras pessoas com o fumo do nosso cigarro, quando este é apenas um entre dezenas ou centenas, o princípio da responsabilidade individual dilui-se. Nisso de assumir responsabilidades e de respeitar o outro, convenhamos, sobram exemplos que demonstram não ser este o nosso ponto forte enquanto sociedade. Resta a ideia do policiamento mútuo, a qual, quando associado à delação, se reveste de contornos claramente fascizantes. Mas não de duvide que os indivíduos se vigiam. Toda a ordem social assenta nessa realidade. O que não se pode é pedir que o indivíduo exceda a vigilância social e passe a exercer a função de fiscalização, demitindo-se as autoridades competentes dessa tarefa.

Think small

No jogo de ontem entre o PSG e o SLB, a dada altura, já com o resultado em 2-1, nenhuma das equipas parecia interessada em alterar o rumo dos acontecimentos. O SLB há-de ter pensado que basta marcar um golo no próximo jogo para passar a eliminatória e o PSG há-de ter pensado que basta empatar daqui a uma semana para estar nos quartos-de-final. Um deles vai descobrir que, ontem, devia ter trabalhado mais. O optimismo faz avançar muitos projectos, mas a ambição e a determinação também.

Problemas

De um dia para o outro, por razões que ainda desconheço, deixei de conseguir comentar os posts neste blogue e a própria publicação de textos tem-se mostrado uma tarefa desafiante. Estou a tentar contornar o problema, mas confesso que já tive mais paciência para isto.

Thursday, March 08, 2007

Os outros

Agora, depois da proibição do fumo em restaurantes, eu pergunto-me sobre o que leva os governos a não proibirem as cadeias de fast-food que são, manifestamente, prejudiciais à saúde?

Talvez porque o hambúrguer e a batata frita só fazem mal a quem os ingere e, ao contrário do fumo do tabaco, que se propaga pela atmosfera, não incomodam nem prejudicam mais ninguém.
Parece que é isso, afinal, que está em causa na proibição do fumo na restauração: não a saúde e bem-estar do próprio, mas a dos outros.

As buscas

As pessoas que ganham a vida a traduzir os nomes dos filmes estrangeiros que são exibidos nas salas deste país são conhecidas por disporem de uma margem de manobra muito larga no que toca à fidelidade ao título original. Não foi o caso de Em Busca da Felicidade – The Pursuit of Happyness. Exceptuando um pequeno trocadilho com a grafia do título, compreensivelmente difícil de adaptar, imperou o respeito pela opção dos autores do filme.

Na realidade, o filme poderia muito bem ter outro título. A personagem principal passa as duas horas que a película dura a tentar conseguir um emprego que lhe pague as contas ao fim do mês. Logo a partir do título original, mas também ao longo de diversos momentos no filme, percebe-se que existe uma sobreposição entre felicidade e dinheiro. A busca de um é a busca da outra. Não é necessário recorrer à sabedoria popular, a qual afirma que o dinheiro não traz felicidade, tal como não se deve incorrer em devaneios líricos que neguem a importância do dinheiro e do acesso ao consumo como formas de realização pessoal. Existem, evidentemente, pontos de contacto entre dinheiro e felicidade, mas como a complexidade da existência humana não se esgota nestes dois conceitos, não se pode estabelecer relações de implicação ou de equivalência que não pequem sempre por simplismo.

Apesar dos outros aspectos à volta dos quais o filme gira, o fio condutor principal é o dinheiro, algo que se torna ainda mais notório no epílogo. Ficamos a saber que a personagem principal abriu a sua própria empresa e acabou milionário. Sobre a sua vida pessoal, sobre o casamento, sobre o filho, nada nos é dito. Mas talvez não seja fundamental, porque o mais importante foi alcançado. Um negócio milionário que compensa e faz esquecer os dias a dormir na rua, o casamento arruinado, o infantário medíocre, as humilhações e as privações do dia-a-dia. Perdeu-se, talvez, um filme bastante melhor, mas ganhou-se um bom retrato da mentalidade do nosso tempo.

Wednesday, March 07, 2007

Horizonte


Mark Rothko, Sem título (Preto sobre Cinzento), 1969-70

Friday, March 02, 2007

Do passado e do futuro

As minhas, digamos assim, reservas em relação a Paulo Portas não surgem por ele ser de direita. Surgem porque me parece uma personagem falsa, arrivista e ameaçadora. Paradoxalmente, tudo isto são motivos que prometem muita animação para um blogue. Mas as promessas, já se sabe, são um conceito eminentemente político, sobretudo quando enfiadas na gaveta. Razão tinha o João Soares, que dizia que não fazia promessas - e depois perdeu a CML para Santana Lopes.

Thursday, March 01, 2007

Wednesday, February 28, 2007

Os novos descobridores

Diz-se que Helena de Constantinopola, mãe do imperador Constantino o Grande, foi a responsável pela descoberta dos locais onde Jesus Cristo foi crucificado e onde repousaram os seus restos mortais. Num documentário televisivo sobre este episódio, emitido há mais anos do que a minha memória consegue abranger com pormenor, ironizava-se que quando uma Imperatriz se propõe encontrar algo, acaba por encontrá-lo.
É bastante esclarecedor que nos nossos dias seja um hollywoodesco realizador de cinema a reivindicar feitos de semelhante calibre.

Tuesday, February 27, 2007

Entre proselitismo e ascetismo

Vinha há poucos dias nos jornais: uns senhores bem intencionados, reunidos sob a forma de Igreja Evangélica, montaram um stand num dos eventos de referência da indústria de produção de conteúdos para adultos. O princípio é simples e explica-se facilmente. Segundo os membros dessa Igreja, é preciso aumentar o número de fiéis e, tal como Cristo ensinou, é preciso ir à procura deles não no mundo dos convertidos mas no dos pecadores.
Ao ler a notícia, lembrei-me do documentário O Grande Silêncio, sobre a Ordem dos Cartuxos. Os religiosos que abraçam esta vida optam conscientemente por um dia-a-dia de recolhimento e oração. Procuram uma aproximação com o divino e não se duvide, independentemente das nossas convicções pessoais, que efectivamente a encontram.
Tenho pouca simpatia, a priori, pelo proselitismo militante e estou muito pouco convencido que não existam almas mais necessitadas, em todos os sentidos, do que as que frequentam as convenções da indústria pornográfica. Contudo, não posso deixar de pensar que, embora com um alvo discutível, a Igreja Evangélica XXXChurch procura igualmente, neste caso, seguir a obra de Jesus no mundo do Homem.
A Ordem da Cartuxa, pelo seu lado, opta por uma vida ascética. A sua proximidade de Deus parece depender de um irremediável afastamento do mundo. O cativante documentário de Philip Groning alude, em vários momentos, a passagens da Bíblia, sendo uma delas do Evangelho de São Lucas: “Quem não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Contudo, pode perguntar-se, esta renúncia implica um afastamento tão radical? Mais ainda: não está orientada a mensagem cristã sobretudo para o mundo e para o Homem?
Se o proselitismo me suscita reservas, não tenho quaisquer reparos à religiosidade enquanto opção individual, nem sequer ao ascetismo. Mas, do ponto de vista do cristianismo, compreendo melhor o proselitismo do que o ascetismo. Ou, dito de outra maneira, o primeiro parece-me mais fiel ao espírito do cristianismo que chegou até ao nosso tempo.

Monday, February 26, 2007

Aprender com as palavras

Há três boas razões para eu gostar de blogues: porque gosto de ler, porque gosto de escrever e porque gosto de aprender. Aprende-se muito na blogosfera. É apenas uma questão de ler os blogues certos, os quais, sem dúvida alguma, hão-de variar de leitor para leitor.
Dentro do capítulo da aprendizagem, a partir deste post da Susana Bês, que não é alheio a um outro que aqui publiquei, descobri a SEP, que promete leituras interessantes, assim haja tempo e paciência. Ainda estou, como se pode entender, a explorar as entradas sobre o feminismo
A propósito deste tema, das minhas críticas e da objecção levantada pela Susana, voltou a ocorrer-me a importância do vocabulário como auxiliar para a compreensão de certas realidades sociais. O machismo postula a superioridade do homem e do masculino sobre a mulher e o feminino. Que não seja óbvia uma palavra que descreva o sentido inverso desta visão preconceituosa é, já de si, bastante esclarecedor. Mas isso não quer dizer que esse sentido inverso não exista.
O post que deu origem a toda esta controvérsia não se inscreve, a meu ver, no feminismo, tal como o define a SEP, ou os bons dicionários para as ciências sociais. Inscreve-se naquilo que me continua a parecer uma visão tão preconceituosa como a do machismo, embora, obviamente, minoritária e muito menos divulgada do que aquele. Se havia dúvidas, fica o esclarecimento. Por esse motivo, compreendo a objecção da Susana e acredito, agora, que é injusto dizer que se trata de um post feminista no pior sentido da palavra, pela interpretação equívoca que pode induzir. O feminismo defende os direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades entre os sexos e não é isso, realmente, que eu julgo ler ali.

Reverso

Prostitutas que se dedicaram à escrita. Suponho que exista um trabalho interessante, à espera de ser feito, sobre escritores que se dedicaram à prostituição.

Sunday, February 25, 2007

Leituras

Daqui a umas três horas o mundo vai parecer bonito, colorido e muito alegre. Até lá, duas recomendações de leitura:

querida gi - no Glória Fácil

AEIO...U - n'Os Tempos Que Correm

Infelizmente, complementam-se muito bem.

Friday, February 23, 2007

O significado de humano (II)

Muito resumidamente, o que o post do Mundo Perfeito não reconhece é que qualquer ser humano, se levar uma vidinha normal, gosta que gostem dele. Por outro lado, esse post também parece não reconhecer que o homem é um ser humano. Pelo menos, não tão humano como as mulheres.

O significado de humano

Um post longo, mas interessante, no Mundo Perfeito, sobre os estímulos sexuais masculinos, já mereceu comentários no Womenage a Trois e no Quase em Português. Sobretudo no WaT, já foram apontadas várias falhas à ideia que preside a elaboração do texto. A Isabela tem o mérito de não ter medo de levar o seu raciocínio até ao fim, mas comete o erro de o basear em premissas equívocas e em relações de implicação que são pouco menos que exageradas.

Em primeiro lugar, é bastante arrojado descartar mais de um século de Psicologia e julgar compreender os estímulos sexuais masculinos tendo como suporte um documentário num canal da TV Cabo. O post da Isabela rapidamente parece passar dos japoneses que compram bonecas para todos os japoneses, e destes para os homens em geral, sem qualquer suporte que não seja a mera suposição. Diminui o desejo masculino a formas geométricas, as quais não são seguramente despiciendas, mas ignora totalmente todo o contexto de relacionamento que a Psicologia e a Sociologia já trataram amiúde. Ao contrário do que é postulado, o conteúdo do conceito de mulher não é, de todo, indiferente e não remete exclusivamente para o significado visual. O tipo de relação que se constrói com o outro, seja homem ou mulher, é um dos aspectos mais importantes nas regras da atracção. Mesmo que seja, uma boa parte das vezes, como forma de dominação numa relação de poder. Para além das protuberâncias e das concavidades, que desencadeiam estímulos tanto no homem como na mulher (não sejamos ingénuos), existe toda uma visão do outro, mais real ou mais idealizada, muito notória, por exemplo, no amor romântico, e a qual pode tender a perceber esse outro como um igual ou não. De qualquer forma, mesmo que essa visão não reconheça a igualdade perante o outro e o aproxime do objecto, trata-se de um objecto complexo, consciente, com vontade própria, mesmo que seja para a seduzir, ludibriar ou dominar. Aliás, paradoxalmente, a dominação masculina é um dos bons exemplos de como os homens procuram mais do que bonecas, seres inanimados, ou simples protuberâncias e orifícios. Algo parece não bater certo nessa teoria. Na realidade, por muita saída que as bonecas sexuais possam ter, o relacionamento afectivo, nas diversas formas que assume, ainda domina e parece estar para durar. E isso certamente não se deve apenas aos 5000 dólares que aquelas custam.

Por outro lado, o raciocínio subjacente ao post, ao reduzir a atracção sexual masculina ao estímulo geométrico passa ao lado de todo o processo de sedução e enamoramento, que está por trás da esmagadora maioria das relações sexuais dos nossos dias. Este processo, sobretudo quando conduzido numa perspectiva de reconhecimento e respeito pelo outro como um igual, contradiz factualmente, de forma avassaladora, a argumentação utilizada. Mais ainda, o ser humano é um animal social e cultural. O comportamento de homens e mulheres não corresponde a meros estímulos sensoriais. O behaviorismo está há muito ultrapassado como teoria explicativa do comportamento. O ser humano interpreta os estímulos, interage com os agentes emissores, conota com carga simbólica os comportamentos próprios e alheios. Dito de outra forma, a profundidade do decote diz mais ao homem do que o tamanho dos seios. Além disto, é inegável que as mentalidades, produto e produtoras de cultura por excelência, mudam com os tempos. A nossa época caracteriza-se, ainda, pela dominação masculina, mas a sociedade dá sinais de se estarem a alterar as mentalidades que a suportam, tanto nas mulheres como nos homens. A abordagem behaviorista das regras de atracção sexual masculina nega a perspectiva cultural e a mudança de mentalidades. Nega, essencialmente, a humanidade do homem.

O post da Isabela é feminista no pior sentido que a palavra pode ter. É feminista na forma como diminui o homem e o masculino. Responde ao machismo exactamente na mesma moeda, com preconceito e desconsideração. Nesse sentido, limita-se a perpetuar uma forma distorcida e redutora de ver e de se relacionar com o outro, contribuindo apenas com a inversão do sinal de negatividade. Demasiado esforço para um caminho que não leva, com toda a certeza, à dignificação e à justiça nas relações de género.

Thursday, February 22, 2007

Imputabilidade

O CDS/PP volta a pugnar pela imputabilidade a partir das 10 semanas, perdão, dos 14 anos. Mas continua a não querer mandar ninguém para a prisão. Pelo menos não os podem acusar de incoerência.

Quem sou, de onde venho, para onde vou

Estatisticamente, tenho mais de 45 anos de vida à minha frente. Estou bastante seguro de quem sou. Sei bem de onde venho. Não faço ideia para onde vou, mas sei perfeitamente para onde não quero ir. Para já, é suficiente.

Wednesday, February 21, 2007

O fenómeno

Os parâmetros pelos quais Alberto João Jardim se guia são muito seus. O paradoxo é que continua a ser tratado, deste lado da República, como qualquer outro interlocutor, como se os desrespeitos, as chantagens e o défice democrático não existissem. Sabe-se que quando Alberto João Jardim fala dos “madeirenses” não se está a referir a todos os madeirenses. Fala apenas para e dos que nele votaram. Fala dos compadrios, dos conluios, dos interesses, dos grupinhos, das clientelas e das influências. São esses os seus “madeirenses”. Os outros não interessam, quer estejam na Madeira quer não. Jardim não trabalha para o bem da Madeira e dos madeirenses; trabalha para o bem da sua Madeira e dos seus madeirenses. Essa é a sua marca mais distintiva, que tem apostado na promiscuidade entre o partido, o aparelho de Estado e a sociedade para cimentar dependências mútuas e tornar muito mais difícil a vida a quem se encontra excluído deste círculo viciado.

Jardim tem sido, até hoje, um fenómeno localizado. Mas há já alguns anos que corre o rumor que há-de tentar o salto político do cenário regional para o cenário nacional. Talvez seja difícil que o homem que tanto atacou o “continente” e as suas instituições de soberania se consiga impor como actor político precisamente nesse palco. Mais importante ainda, a sua esfera de influência esgota-se bastante no arquipélago onde é senhor absoluto há 30 anos. Fora dele não reúne os condicionalismos que construiu nestas três décadas e que lhe garantiram reeleições sucessivas.

Mas convém não menosprezar o poder da demagogia e do mito. Não são poucos os casos de políticos que estão longe de corresponder a modelos exemplares, mas que granjearam o apoio suficiente para assegurarem a sua eleição. De facto, esta é uma realidade desagradavelmente familiar e que já se repetiu demasiadas vezes para que possamos estar descansados.

Tuesday, February 20, 2007


Marc Chagall, A Dança e o Circo, 1950

Friday, February 16, 2007

Era uma vez... em Lisboa

Uma Câmara Municipal em que dois vereadores foram constituídos arguidos, por suspeitas relacionadas com a sua actividade no executivo, e cujo Presidente é aquele senhor que negociou lugares em empresas municipais a troco de apoio político de outras forças partidárias.
Se isto não dá lugar a eleições antecipadas, o que mais será preciso?

Thursday, February 15, 2007

Um afastamento

Gosto do Público. Sempre simpatizei com o diário e, confesso, apesar de actualmente não o comprar, apesar do seu director e das suas estratégias, continuo a gostar do Público. De tempos a tempos volto a folhear o jornal e procuro reavivar essa relação de leitura que já tivemos. O Público foi o diário que acompanhou a minha entrada na idade adulta, foi a companhia de férias de Verão a percorrer locais ermos deste país, foi o meio de informação preferido para acontecimentos nacionais e internacionais que não se esquecem. Não obstante este passado em comum, nenhuma tentativa de reaproximação tem sido bem sucedida e, até hoje, ainda não me tinha apercebido porquê. Foi preciso um texto do João Pinto e Castro para eu ganhar consciência da grande razão que me afasta do Público. A cumplicidade, por assim dizer, que existiu no passado desapareceu. Enquanto leitor, não me sinto bem-vindo nas páginas do jornal e nos seus princípios orientadores. Eu serei, afinal, um desses leitores que o Público deixou para trás. Assim seja, então. Pode sempre acontecer que um dia nos encontremos de novo.

Monday, February 12, 2007

Razões

Existem três factores que não podem ser esquecidos na forma como contribuíram para o resultado de ontem. Algumas pessoas perceberam o preço de ficar em casa. Algumas pessoas perceberam que a anterior vitória do “não” deixou tudo na mesma. Algumas pessoas perceberam que, para quem falava tanto em “vida” e “inocentes”, havia demasiado rancor e má vontade no discurso do “não”. Especialmente este último factor, numa campanha nem sempre intelectualmente honesta e nem sempre respeitosa, foi um dos piores inimigos do “não”. As comparações abusivas e o tom exaltado, por vezes apocalíptico, por vezes virulento, fizeram-se cobrar nas votações. Não há qualquer exagero ao afirmar que a derrota eleitoral do “não” passou muito por aqui.

Sunday, February 11, 2007

11 de Fevereiro

São raros os dias em que este país origina algo que transporte em si uma certa sensação de esperança.

Friday, February 09, 2007

Director

O Público vai proceder a uma mudança profunda da sua imagem depois deste fim-de-semana. Pessoalmente, não pedia tanto. Bastava que mudassem três palavrinhas, na primeira página, ali, logo a seguir a “Director:”. Não era preciso mais nada para eu os ver com outros olhos.

Wednesday, February 07, 2007

Respeito

Os ataques fantasiosos de Marques Mendes a José Sócrates, na sequência do compromisso assumido pelo primeiro-ministro de não mexer na lei do aborto se o “não” ganhar, resultam de um raciocínio falacioso e de muita hipocrisia política. Para quem há bem pouco tempo dizia que o aborto não devia ser um assunto partidarizado, este tipo de tentativa de aproveitamento político é do mais rasteiro que se pode assistir. Para além disso, atesta a facilidade com que alguns políticos distorcem intencionalmente as suas palavras e as dos seus opositores, ou os factos a que elas se referem, à medida daquilo que julgam ser conveniente. Por último, esta ânsia de transformar um “não” num “sim” revela ainda o pouco respeito do líder do PSD pelos resultados eleitorais e pela inteligência dos eleitores. Para quem ainda tivesse dúvidas, Marques Mendes está a deixar bem clara a fibra de que é feito.

Tuesday, February 06, 2007

100x2=50

Depois de ter decidido trocar de barbeiro, esta tarde fui cortar o cabelo a um sítio novo. A certa altura, perto da caixa, duas boas almas cavaqueavam animadamente sobre uns bonecos que uma delas pretendia comprar. Estavam essas boas pessoas, no meio da sua alegria vespertina, absolutamente convencidas que comprando 100 bonecos, a 2 euros cada um, pagariam apenas 50 euros. Repetiram-no várias vezes até que se esgotou a paciência do tipo que me estava a cortar o cabelo. Virou-se para a porta e disse:
“Duzentos euros! Se vão comprar 100 bonecos, e cada um custa 2 euros, vão pagar duzentos euros!”

Pela minha parte paguei mais quatro euros do que antigamente por um corte de cabelo. Há-de ter sido o preço de contactar com o país real.

Sim ou não

A pergunta do referendo não pode ser respondida numa escala de Likert. Não existe a opção de concordar ou discordar moderadamente do que nos é proposto. Só existem duas respostas admissíveis e são mutuamente exclusivas. Ou se concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez ou se discorda. Acima de tudo, se mais de metade dos eleitores decidirem votar, o resultado é vinculativo. Não se pode alterar, ou manter, a penalização ao arrepio da vontade expressa nas urnas. Mesmo que o resultado do referendo não seja vinculativo, não existe qualquer legitimidade democrática em legislar contra a vontade da maioria. Ninguém pode reclamar ser o fiel intérprete das nuances do “não” e do “sim”. Ninguém pode afirmar que a vitória do “não” ou a vitória do “sim” originam resultados diferentes do que, respectivamente, a penalização ou a despenalização das mulheres que abortam. O tema é complexo, mas a resposta que pede é bastante simples.

Eva e a maçã

Muito haveria para dizer sobre a entrevista do médico Daniel Serrão ao JN. Mas este post não é sobre a questão do aborto, centrando-se antes na visão da mulher que sobressai das palavras do especialista em ética da vida e conselheiro do Papa. O médico afirma encarar a mulher que aborta como uma vítima. Mas consegue dizer também, na mesma sequência de ideias, que deve ser definida uma punição, bastando que a mulher “pedisse desculpa à sociedade para arrumar o assunto”.

É verdadeiramente peregrino pensar que deve ser a vítima a pedir desculpa. A menos que, como parece ser o caso, se pense que esta não é realmente vítima. Um pedido de desculpa não é outra coisa senão um pedido de remissão da culpa. E a culpa não está do lado da vítima, mas sim do lado do infractor. A mulher parece ser, deste modo, simultaneamente vítima e delinquente, o que é um tanto ou quanto confuso.

A semana passada, Daniel Serrão contribuiu com um pequeno texto para o DN, onde explicava o seu “não” à pergunta do próximo dia 11. Escrevia ele que após o referendo estaria ao lado das jovens para as ajudar a ser mais responsáveis com a sua sexualidade. Não se sabe se Daniel Serrão se referia às jovens que exploram a sua sexualidade sozinhas ou às jovens que exploram a sua sexualidade com outras jovens, sendo que, em qualquer dos casos, não parece alguma delas corra sérios riscos de assim engravidar. Com efeito, se o médico se queria referir às jovens que devem ser mais responsáveis com a sua sexualidade porque podem engravidar, como estas não engravidam sozinhas, nem umas com as outras, é óbvio que se esqueceu de um elemento importante nesta equação e que são os jovens.

Por vezes, pequenos detalhes como este revelam toda uma forma de pensar o outro, que, neste caso, é a mulher. Esta boa vontade de estar ao lado das jovens e de encarar as mulheres que abortam como vítimas, que convive, aparentemente de forma harmoniosa, com a atribuição de um ónus de culpa, revela uma forma, tão cara à Igreja Católica, de ver a mulher como um agente do mal. Umas vezes perfidamente consciente desse papel; outras ingenuamente seduzida por algo que não consegue compreender bem. Mas, sem dúvida, um agente do mal.

Monday, February 05, 2007

Vermelho e preto


Mark Rothko, Vermelho Claro sobre Preto, 1957

Dicionário alternativo de sinónimos

Criminalizar é despenalizar.
Despenalizar é liberalizar.

Django

A primeira vez que me lembro de ouvir o nome de Django Reinhardt foi num filme de Woody Allen, em 1999 ou 2000. Mas só no ano passado, graças ao programa permanente de intercâmbio cultural que mantenho com o meu irmão, pude finalmente apreciar a música do guitarrista de jazz. E foi apenas este fim-de-semana que descobri que a mão esquerda de Django, aquela com que ele corria o braço da guitarra, tinha dois dedos paralisados.
Quem quer que já tenha acarinhado a veleidade de retirar de uma guitarra algo que se aproxime de uma melodia musical sabe bem as dificuldades que enfrenta. A guitarra é uma excelente forma de se descobrir que a nossa coordenação motora dos dedos, no momento de dominar as seis cordas, se revela de uma insipiência medíocre. Por seu lado, o que Django Reinhardt conseguia fazer continua a ser sublime e inebriante. Um talento que nem o acidente que sofreu nem o tempo conseguiram apagar.

Friday, February 02, 2007

A escola marcelista

Portanto, se a pergunta fosse “concorda com a despenalização da mulher que aborta num sítio todo badalhoco sem condições nenhumas?”, eles votavam que sim. Agora, num estabelecimento de saúde autorizado, não.

Direitos por linhas tortas

Em Setúbal, as crianças de quatro infantários serviram de canal de distribuição para a propaganda pelo “não”. O padre Miguel Alves, responsável pela direcção dos infantários, não compreende as críticas que lhe são feitas e a polémica que se gerou.
O padre Miguel Alves representa um certo tipo de pessoas que defendem a vida – o direito à vida. Certamente, ficam chocadas com os abortos e jamais pretendem ver despenalizada esta prática. Mas o direito das crianças, palavra que lhes enche a boca para falar de fetos de dez semanas, de não serem instrumentalizadas e transformadas em canal de distribuição de propaganda não lhes merece tanta atenção. O direito dos pais de não verem os seus filhos arregimentados para um acto de campanha passa-lhes inteiramente ao lado.
Para estas pessoas, as ideologias são mais importantes do que as pessoas. Os fins justificam os meios. A vida que eles defendem escreve-se com minúsculas e baseia-se apenas numa abstracção.

O Tempo dos Assassinos

Até à invenção da pólvora, com algumas excepções que confirmam a regra, dar a morte a uma pessoa pressupunha uma proximidade entre o homicida e a sua vítima. Nas estradas infestadas de salteadores, nos campos de batalha, no senado de Roma, o assassino e o seu ferro precisavam do contacto físico para levarem a cabo a sua tarefa.
A morte que desta forma tão próxima se oferece e se recebe torna-se muito emocional. Georges Simenon, para o seu comissário Maigret, escreveu sobre isso e os serial killers, mais uma vez, com algumas excepções que confirmam a regra, preferem a arma branca ou as próprias mãos à impessoalidade da arma de fogo. No fundo, o que a pólvora trouxe foi, sobretudo, distância.
No nosso tempo, a morte chega impessoal, cheia de fórmulas e de ciência. Vem da ponta distante de uma pistola ou de uma espingarda. Mas também dos ainda mais distantes desapego e indiferença assépticos.
O Tempo dos Assassinos conta, a partir de agora, com a Arma de Andy Warhol, de 1981, para nos recordar esta realidade.

Fim de mudanças

Salvo alguns retoques ao sabor da criatividade do momento, o novo aspecto do blogue vai passar a ser este.

Thursday, February 01, 2007

Mudanças

Empurrado pelo Blogger, o Tempo dos Assassinos migrou para a nova versão disponível. Os próximos tempos vão ser de experiências. Sinto-me como um míudo com um brinquedo novo.

Salários baixos vs. qualificações

A qualificação tem preço. O salário do trabalhador qualificado representa um custo mais alto do que o do trabalhador desqualificado. Em Portugal pouco se aposta na qualificação. Compreende-se: sai mais caro e implica uma reestruturação dos modelos de organização das empresas. É por isso que, entre outros motivos, tendo Portugal falta de profissionais qualificados, regista taxas altas de desemprego entre os licenciados.
Os salários baixos em Portugal são um facto. Nesse sentido, Manuel Pinho limitou-se a fazer notar o óbvio aos empresários chineses. Mas se os factos são neutros, a leitura política não o é. E entre o argumento dos baixos salários para atrair investimento invocado por Manuel Pinho e a aposta na qualificação dos portugueses, patente nas intenções do QREN, ou mesmo no exemplo do modelo finlandês, anteriormente apontado por José Sócrates, existe uma enorme contradição. Ou se pretende um país que atraia investimento pelos baixos salários praticados ou se pretende um país com níveis de qualificações elevados, as quais se fazem pagar na razão directa da sua excelência. As duas coisas, em simultâneo, é que não.
Contudo, as declarações do ministro, para além de politicamente inábeis, são estrategicamente desadequadas. Portugal até pode pagar dos salários mais baixos na Europa, mas dificilmente pode competir com os salários praticados, por exemplo, nalguns países asiáticos. Mais ainda, se o desígnio para Portugal é a convergência com a média da UE, o caminho não pode passar por atrair investimento com políticas de baixos salários. Pelo contrário, a solução mais viável é direccionar a economia para a criação de mais-valias significativas nos seus produtos e serviços, algo que se consegue com especialização e qualificação. E isto não sai barato.

Imigração

Uma das formas sobejamente conhecidas de aumentar a população e as taxas de natalidade é permitir o crescimento da imigração. Talvez alguém, com toda a calma, o pudesse explicar a Ribeiro e Castro. Mas é de esperar que, no CDS/PP, ninguém queira ouvir falar nisto.

Wednesday, January 31, 2007

Tem razão naquilo que pergunta

Há que reconhecer o sentido de cena de Marcelo Rebelo de Sousa. Neste vídeo, não só não se desmancha, como ainda consegue afirmar que a sua interlocutora “tem razão naquilo que pergunta”. Pergunta que, registe-se para a posteridade, consistiu no seguinte:
“As nossas conversas têm tido um impacto muito grande… de todos os lados. Por um lado, o “sim”… o “sim” diz que nunca assim, não é, e o não também parece dizer que assim não”.

(via Glória Fácil)

O brilhantismo

Ribeiro e Castro merece-me alguma simpatia por representar aquele CDS/PP que não é o dos Paulos Portas, Telmos Correias e Nunos Melos. Apesar disso, não deixa de representar o CDS/PP e, como tal, não se pode dizer que seja uma pessoa com a qual eu me encontre em sintonia, ideologicamente falando. O líder do CDS é contra o aborto e afirma que para esta sua tomada de posição contribui a vontade de aumentar a população portuguesa. Assim sendo, parece que Ribeiro e Castro defende que as políticas de incentivo ao aumento da taxa de natalidade devem passar pelo Código Penal. Não sei se é por aí que devemos avançar.
Além disto, ficamos ainda sem perceber a relação directa entre aumento da população e, presume-se, os eventuais benefícios que daí advêm para o país. Sem grande esforço, é possível relembrar uma mão cheia de indicadores, tais como a taxa de mortalidade infantil, a taxa de alfabetização, as estatísticas do trabalho infantil e os salários mínimo e médio praticados, para se compreender que a questão é muito mais complexa do que surge aos olhos de Ribeiro e Castro.
No fim das contas, o que fica por saber é se os líderes políticos têm estas brilhantes ideias sozinhos ou se recorrem à prestimosa ajuda dos seus batalhões de assessores e das comissões políticas dos seus partidos.

Tuesday, January 30, 2007

O filósofo Sócrates ficou célebre, não só pela sua condenação à morte, mas também por recrutar pessoas sonsas a quem fazia perguntas, assim demonstrando o enorme saber que aquelas possuíam. Marcelo Rebelo de Sousa, por seu lado, é célebre por recrutar pessoas sonsas para lhe fazerem perguntas, assim demonstrando o enorme saber que ele mesmo possui.
Por estes dias, Marcelo celebrizou-se também por uma das mais ambíguas e pouco coerentes posições sobre o referendo do aborto. Mas, por trás de toda esta ambiguidade, ressalta uma desconsideração pelo dilema da mulher grávida que pondera abortar e pela validade racional e afectiva da sua decisão. Quando MRS, tal como César das Neves ou Mário Pinto, avança com uma teoria da vulgarização do aborto sem motivo justo está a colocar em causa a competência e legitimidade do livre arbítrio da mulher grávida.
Em última instância, nenhuma pessoa se encontra a salvo de tomar decisões menos avisadas ou de não equacionar todas as alternativas que se apresentam. O erro, já os romanos o sabiam, é inerente à condição humana. Contudo, a crítica, que é uma actividade eticamente legítima, deve incidir sobre casos particulares e não sobre generalizações. É a diferença entre avaliar uma decisão concreta e avaliar, em abstracto, a capacidade das pessoas para tomarem decisões.

Monday, January 29, 2007

Saturação

A duas semanas da realização do referendo sobre a despenalização da IVG, confesso-me cansado da troca de acusações, dos juízos de valor e das muitas certezas apresentadas pelas duas campanhas. Imagino que não seja o único a ter atingido este estado de saturação. Parece haver um excesso de propaganda de parte a parte, sendo a blogosfera um bom exemplo disso.

O excesso de propaganda e o tom das campanhas, sejam elas a propósito da despenalização da IVG ou de qualquer eleição para cargos políticos, atinge um nível que se deve considerar preocupante em diferentes aspectos. Nomeadamente, porque facilitam a acção aos estrategas da demagogia e do populismo, apenas beneficiando o arrivismo político, porque abrem o flanco à argumentação dos extremistas, que vêem na democracia e na livre expressão sobretudo desregramento e vícios, e, finalmente, porque tendem a afastar das discussões públicas todos os que não se revêem nestes modelos exacerbados, contribuindo para enfraquecer a participação cívica dos indivíduos.

Há uns anos, Phillipe Breton propôs a recuperação da retórica, destituída da conotação depreciativa que entretanto lhe foi associada. A retórica recuperada com a essência que a viu nascer: uma arte de construir uma argumentação lógica, articulada e inteligível, que sirva para comunicar, para partilhar informações e opiniões e não para manipular consciências ou dissimular intenções.

As democracias precisam de inverter esta tendência em que o simplismo, os preconceitos e os extremismos encontram terreno fértil para crescer. Evidentemente, precisam também de personalidades, da política à sociedade civil, passando pela comunicação social, que saibam reconhecer a importância desta viragem e que estejam realmente interessadas nela.

Thursday, January 25, 2007


Paul Klee, Cão Uivando, 1928

Recomendação

Quem gosta de ler blogues com os horizontes abertos, quem gosta de encontrar posts bem pensados e bem escritos, quem acredita que há sempre mais num problema do que a meia dúzia de frases de propaganda do costume, quem não se importa de se deparar com perguntas incómodas, faça o favor de ler o post da Helena Araújo sobre o referendo de 11 de Fevereiro.

Wednesday, January 24, 2007

Carmona Rodrigues diz que deseja "que a cidade de Lisboa seja isenta deste véu de suspeitas". Há aqui uma pequena confusão. É o executivo camarário, e não a cidade, que está sob suspeita. Pode parecer um preciosismo, mas não é.

Saturday, January 20, 2007

south park - blame Canada

Friday, January 19, 2007

O economista João César das Neves voltou a fazer aquilo que o celebriza e que é lançar a confusão generalizada com o que escreve ou com o que diz. Já são vários os blogues que se referem às polémicas declarações de JCN, merecendo estas a atenção também do DN. Afirmou JCN que o aborto, com a vitória do “sim”, passará a ser “tão normal como um telemóvel”. A frase é de uma enormidade tão óbvia que requer poucos comentários. Ainda assim, JCN recorreu a algumas estatísticas que se prestam a uma certa contextualização.

Se o “sim” vencer em Fevereiro, é natural que as estatísticas oficiais do aborto aumentem. Na realidade, é isso que se espera quando se vota “sim”, pois esse aumento corresponderá a uma diminuição dos abortos que agora se praticam ilegalmente, verificando-se um crescendo do número daqueles a ser praticados em estabelecimentos de saúde autorizados e devidamente competentes para o efeito. Este é um primeiro aspecto quanto ao qual se deve ser bastante claro.

Em segundo lugar, se é verdade que se registaram aumentos nas taxas de aborto (o que é muito diferente de aumentos nas taxas de crescimento do aborto), pelo menos em países como os EUA, a Espanha e a Inglaterra (inclui dados relativos ao País de Gales) há sinais de alguma estabilização.

Contudo, as estatísticas são uma ferramenta de conhecimento da realidade social e carecem de interpretação. Os aumentos registados podem resultar da alteração das leis, mas, para uma compreensão mais correcta do fenómeno, outros factores devem igualmente ser considerados. Por exemplo, interessa saber como se comportaram outras variáveis tais como a estrutura demográfica e a estrutura económica das sociedades em questão.

Os fenómenos sociais carecem de um enquadramento contextual o mais completo possível e têm na sua origem uma série de causas, as quais concorrem para lhes dar forma. Reduzi-los a uma expressão forçadamente simples apenas contribui para a sua mistificação. Algo que é tanto mais grave quanto venha de pessoas com obrigação de conhecer estes pressupostos e de os respeitar de acordo com as suas habilitações académicas e profissionais. Mas, neste caso, vindo de quem parece acreditar que as portuguesas hão-de ir a correr fazer abortos como quem compra telemóveis, não surpreende assim tanto.

Blame Canada (II)

Times have changed
Our kids are getting worse
They won't obey their parents
They just want to fart and curse!
Should we blame the government?
Or blame society?
Or should we blame the images on TV?
No, blame Canada
Blame Canada
With all their beady little eyes
And flapping heads so full of lies
Blame Canada
Blame Canada
We need to form a full assault
It's Canada's fault!
Don't blame me
For my son Stan
He saw the damn cartoon
And now he's off to join the Klan!
And my boy Eric once
Had my picture on his shelf
But now when I see him he tells me to fuck myself!
Well, blame Canada
Blame Canada
It seems that everything's gone wrong
Since Canada came along
Blame Canada
Blame Canada
They're not even a real country anyway
My son could've been a doctor or a lawyer rich and true,
Instead he burned up like a piggy on a barbecue
Should we blame the matches?
Should we blame the fire?
Or the doctors who allowed him to expire?
Heck no!
Blame Canada
Blame Canada
With all their hockey hullabaloo
And that bitch Anne Murray too
Blame Canada
Shame on Canada
For...
The smut we must stop
The trash we must bash
The Laughter and fun
Must all be undone
We must blame them and cause a fuss
Before someone thinks of blaming us!

Thursday, January 18, 2007

Blame Canada

O tema Blame Canada faz parte do filme de animação baseado na série South Park, conhecida pelo seu humor corrosivo e impiedoso. O ponto fulcral que lhe subjaz é paralelo ao que se pode encontrar no documentário Bowling for Columbine, da autoria de Michael Moore, no qual se questiona a importância de tornar os jogos de computador ou a música que se ouve em arguidos principais de um massacre escolar, isto numa sociedade que enfrenta profundas divisões sócio-económicas, vive uma realidade de medo contínuo e recorre à posse e uso de armas como resposta para os seus problemas. Moore conclui que se pretendemos atribuir o grosso da fatia de responsabilidades aos jogos e à música, mais vale incluirmos também o salão de bowling frequentado pelos dois adolescentes que levaram a cabo o tiroteio.

A SIC noticia hoje um caso de agressões entre adolescentes que está a chocar os EUA. Os contornos das agressões podem não ser os mais originais, mas as imagens acabaram difundidas na Internet e esse facto colocou o episódio sob uma nova perspectiva. Tanto quanto parece, está relançado “o debate sobre os efeitos perversos da Internet, sobretudo a facilidade com que se coloca em linha o mais variado tipo de material”, não faltando especialistas que “alertam para o efeito multiplicador que daqui pode resultar”.

Não se pode recusar a pertinência da discussão sobre os abusos que se podem cometer na Internet. O potencial deste meio, de resto, como a maior parte das liberdades, tem como custo associado os eventuais excessos cometidos. A Internet, em si mesma, não é um meio perigoso. Como em tantas outras coisas, tem a fama que o bom e o mau uso lhe impõem. Focar a atenção no putativo excesso de liberdade da Internet acaba a ser uma versão simplista para um problema complexo e uma forma mais ou menos torpe de impedir que se procurem relações causais mais profundas. Como no caso de Blame Canada, trata-se de encontrar um alvo fácil para bode expiatório, fugindo assim ao desconfortável exercício de fazer uma autocrítica severa ao sistema social como um todo e às responsabilidades particulares de cada um. Pensar o lugar que a tolerância perante os actos de violência e perante o sofrimento alheio ocupa no seio das nossas sociedades dá muito mais trabalho e pode produzir respostas, essas sim, que constituem um perigo para as nossas auto-imagens.

A TV Cabo enviou-me um SMS no qual me informa que existirá uma interrupção no fornecimento de serviço de Internet num destes próximos dias. Esta atenção demonstrada pelo aviso é ainda mais apreciável devido ao facto de eu não ser cliente da Netcabo há mais de meio ano. E ainda dizem que esta é uma das empresas que mais reclamações recebe. Má vontade das pessoas, é o que é.

Wednesday, January 17, 2007

Grande em quê?

O concurso do momento, promovido pela RTP, é inconsequente por várias razões, não sendo a total ausência de critérios de escolha a menor delas. Outra é a ambiguidade do que representa ser um “Grande Português”. Grande no sentido de importante ou grande no sentido de reconhecido? Grande no sentido de melhor representar o espírito de uma nação ou grande no sentido de mais se afastar dele? E, neste caso, é indiferente a direcção em que se afasta? Podem coexistir pacificamente na mesma lista nomes como Aristides de Sousa Mendes, que se destacou por ter salvo a vida a milhares de judeus perseguidos pelo nazismo, e António de Oliveira Salazar, que mergulhou o país numa ditadura obscurantista e proibiu e puniu os esforços realizados em França pelo diplomata?
O DN, por exemplo, na iniciativa que promoveu junto dos seus colunistas, pareceu ter optado por entender grande num sentido de importante. Aí podemos mesmo ler Vasco Graça Moura defender que “Salazar teve uma compreensão do País muito mais sensata e realista” do que Mário Soares. Pode aceitar-se que Salazar compreendeu bem o país que governou durante 40 anos, mas quanto à sensatez de excluir Portugal da modernidade e do progresso e de o envolver em várias frentes de uma guerra colonial absurda, talvez tenhamos um dia destes a oportunidade de conhecer, pela pena do ex-governante do PSD, a bondade dessa opção. Porém, se Salazar é importante e se manifestou um entendimento dos condicionalismos sociais do seu país, o mesmo se pode dizer, seguramente, de Adolf Hitler e de Estaline. Não só compreenderam e exploraram em benefício dos seus próprios interesses as realidades sociais da Alemanha e da URSS, como é mesmo impossível passar ao lado dos seus nomes e compreender os acontecimentos do século XX.
Assim sendo, será muito demagógico perguntar quanta desta bem intencionada gente que corre a votar em Salazar estaria disposta, segundo os mesmos critérios, a incluir Hitler e Estaline no seu Top 10 de Grandes Europeus de todos os tempos?

Tuesday, January 16, 2007


Giacomo Balla, Dinamismo de um Cão com Trela, 1912

Monday, January 15, 2007

Passei o fim-de-semana a reflectir nos meus defeitos. Melhor dito, nem tanto a pensar nos defeitos, mas antes a discernir a parte do todo que lhes cabe, para concluir que não é pequena.
Até que esta manhã, por mero acaso, numas linhas que escrevia, não interessa a propósito de quê, me surgiu uma das obnubiladas qualidades. Tenho como projecto, até ao fim do dia, recordar-me de mais umas quantas.

Isto é um post.

Thursday, January 11, 2007

Há dias em que os blogues – escrever no meu, ler os outros – me provocam um sentimento de satisfação. Há dias em que não posso com eles. E há dias, como hoje, em que as duas coisas se embrenham estranhamente uma na outra. Não sei explicar. É simplesmente assim.

Isto é prestígio

Rui Cerdeira Branco, agora a adufar em http://adufe.net/

Brincar à política (III)

Entretanto, o país aguarda impacientemente o livro que Manuel Maria Carrilho irá lançar explicando como tinha um grande projecto para Lisboa, como as circunstâncias eram adversas, como foi injustamente atacado, como a culpa, afinal, é da comunicação social, dos inimigos políticos e de quem mais for necessário para que não tenha de reconhecer os erros próprios.

Brincar à política (II)

Não é realmente necessário perguntarmo-nos sobre as dificuldades de compatibilizar os mandatos de deputado e de vereador, ou melhor, sobre as dificuldades de perspectivar esse cenário no momento da aceitação em pertencer a essas duas listas como candidato. A resposta surge demasiado óbvia. Depois de uma campanha desastrada e da pouca expressão da oposição ao executivo de Carmona Rodrigues, não se pode dizer que Lisboa vá sentir a falta de Carrilho. Porém, continua a ser sofrível ver como os compromissos que se assumem nos momentos eleitorais são descartados na primeira oportunidade. Compreende-se que o parlamento seja uma plataforma simultaneamente mais confortável e mais mediática, bastante mais ao gosto do ex-ministro. O que não se compreende é como os lugares políticos podem ser impunemente instrumentalizados pelos seus ocupantes ao sabor dos seus interesses pessoais.

Brincar à política

A política continua a ser vista, entre os seus principais agentes, muito mais como a gestão de estratégias pessoais ou partidárias, tantas vezes mais das primeiras do que das segundas, do que como a gestão dos interesses da sociedade e a prossecução do bem público.

Tuesday, January 09, 2007

A TSF passou a manhã de ontem a afirmar que os maus-tratos a idosos aumentaram 60%, segundo a GNR, no último ano, algo que o JN repete hoje na sua edição. Com mais rigor, o que se pode afirmar é que a GNR registou mais 60% de casos, sendo muito difícil extrapolar daí um aumento de maus-tratos na população. Os aumentos das estatísticas provenientes das forças da autoridade são passíveis de diversas leituras, uma das quais, nada despicienda, é uma maior proximidade com as vítimas. Ou seja, factores como uma maior facilidade de acesso às forças da PSP e da GNR traduzem-se, logicamente, em aumentos de participações, sem que isso queira dizer que a criminalidade, em si mesma, tenha aumentado. Por outro lado, como a violência doméstica é um fenómeno cujos contornos o tornam muito propenso a estar sub-representado nas estatísticas oficiais, as dificuldades de interpretar esses números num sentido ou noutro é virtualmente impossível.

A velhice, contudo, é um tema que suscita menos debates do que aqueles que deveria gerar. Suscita muitos incómodos e silêncios envergonhados. Um estudo da Universidade do Minho concluiu que quase 75% dos idosos afirmam terem sido vítimas de alguma forma de abuso, sendo a negligencia o principal. Esta estatística surpreendeu os investigadores e surpreende quem quer que lhe dê atenção por ser extraordinariamente alta. A nossa sociedade manifesta, justamente, a sua indignação sempre que conhece casos de abusos e negligência sobre crianças. Talvez esteja na altura de começar a pensar da mesma forma sobre o lugar e a atenção que dispensamos aos idosos. Até porque, tudo aponta, o seu número está em franco crescimento. De vez em quando seria bom que se equacionasse o envelhecimento da população noutros termos que não apenas nas consequências para os cofres da Segurança Social.