Cativo
Todos os aconchegos são prisões.
"Aliás, são sempre os outros que morrem." - Marcel Duchamp
Entre Moçambique e Portugal existem ligações históricas, culturais, familiares, se quisermos passar para um nível mais pessoal, que não é o de menor importância neste caso, que tornam incompreensível o pouco destaque que é dado nos sites noticiosos à tragédia que ocorreu ontem à tarde em Maputo.
Publicado por Miguel Silva às 10:05 |
Na Alemanha há uma juíza que parece pensar que a doutrina religiosa deve prevalecer sobre as leis do país e que ser agredida pelo marido não constitui motivo para divórcio. Em Portugal, já se sabe, maus-tratos só quando se apanha do marido de forma “reiterada”. Se tiver acontecido, por exemplo, apenas uma ou duas vezes, nem vale a pena pensar nisso.
Publicado por Miguel Silva às 09:32 |
Mas depois, o que é mesmo mau para a democracia é a proibição de fumar em locais públicos.
Publicado por Miguel Silva às 09:29 |
Nos EUA, o Procurador-Geral Alberto Gonzales está a sofrer grande contestação, acusado de estar a levar a cabo despedimentos no sistema de Justiça norte-americano com base em critérios políticos. A ser verdade, não é preciso muito para compreender a seriedade do caso. Contudo, talvez o mais grave nem seja o caso em si, mas o facto de, sensivelmente sete anos depois de Bush e da ala política do partido Republicano que o apoia terem chegado à Casa Branca, notícias destas já não surpreenderem. Chocam, mas não surpreendem. De facto, perto do final de dois mandatos recheados de polémicas em torno do que deve ser o regular funcionamento de um Estado de Direito, é precisamente o género de notícia que se pode esperar.
Publicado por Miguel Silva às 09:27 |
Tornou-se habitual ouvir dizer que Paulo Portas está de regresso à vida política activa. Trata-se de um equívoco. O regresso implica uma ausência e Portas nunca esteve realmente ausente do palco político. Paulo Portas não regressou, limitou-se a dar a cara. Deixou os bastidores e assumiu finalmente o papel que há muito reservou para si mesmo.
O CDS/PP é uma construção. Portas queria um partido e julgou mais conveniente, muito provavelmente com toda a razão, que isso seria mais facilmente alcançado apoiando-se numa estrutura já existente do que partindo do zero. Por aqui se percebe, por exemplo, toda a distância que o separa de Manuel Monteiro em termos de calculismo e de instrumentalização.
Monteiro foi a figura que testou o sistema e que serviu como ponto de aprendizagem e de afinação da estratégia. Quando a altura foi propícia, Portas tomou conta do projecto que era seu: um partido diferente, com um discurso renovado, preparado para cativar outro tipo de eleitores. Foi já quando a sua estratégia tinha esgotado a sua capacidade de expansão eleitoral que a hipótese de chegar à governação se atravessou à sua frente e que o CDS/PP se impingiu como alternativa para formar uma maioria parlamentar que apoiasse o novo governo.
Essa experiência terminou conforme se sabe e Portas percebeu-o rapidamente, encontrando na saída da liderança do partido a melhor forma de conter os danos pessoais que inevitavelmente se previam para o futuro próximo. Mas o CDS mais tradicional, que nunca simpatizou com Portas, nem com as suas estratégias, e que nunca se reviu no PP ainda se encontrava activo. Telmo Correia foi o escolhido para impedir o retorno desse CDS e falhou a sua missão. Contudo, através de um grupo parlamentar moldado à sua imagem e de toda uma nova geração de notáveis que deve muito da sua carreira política a Paulo Portas, a oposição interna à direcção de Ribeiro e Castro sempre foi uma realidade activa e nunca deu tréguas ao ressurgir do antigo CDS.
Dizer que Portas regressa é, por isso, um grande erro. O seu dedo esteve e está em quase tudo o que o CDS/PP tem passado nos últimos tempos. Simplesmente, agora chegou a altura da guarda avançada encarregue de preparar o terreno abrir alas para que o seu líder dispute o lugar que considera seu por direito natural.
Publicado por Miguel Silva às 13:19 |
Ontem passei a manhã na praia a correr atrás de uma bola. Hoje sou uma colecção ambulante de dores musculares. Vá lá, não me doem os dedos das mãos. Talvez seja uma boa semana para o blogue.
Publicado por Miguel Silva às 09:18 |
Quanto mais restritas se tornam as condições de frequência de um determinado meio, menos pessoas se espera atrair. Isto é verdade em qualquer caso que se proponha. Sobem as exigências, desce o número de interessados. O papado de Bento XVI trilha inquestionavelmente esses caminhos.
O que mais surpreende nesta história, contudo, é um movimento intitulado “Nós Somos Igreja”. Surpreende não pelas suas reacções, mas pelo princípio de que parece partir, a julgar pelo nome que adoptam. As pessoas que compõem esse movimento serão fiéis, crentes, católicas, mas não são, definitivamente, Igreja. A Igreja é o Vaticano, a Cúria, as Conferências Episcopais, os Concílios, mas não foi, não é, nem será os fiéis. A estrutura e princípio funcional da ICAR, desde que ela se constituiu como tal, baseiam-se na hierarquização, no elitismo e, até, no despotismo iluminado. A ligação da Igreja aos seus fiéis não é um convite à participação livre e democrática. É um processo de conversão e coerção religiosa e moral.
Compreende-se que haja quem não se reveja nesta Igreja e compreende-se que haja quem pretenda modificá-la. Mesmo admitindo que podem alcançar alguma visibilidade para exporem os seus ideais, falta-lhes o essencial. Na realidade, não têm lugar nas assembleias onde se tomam as decisões relevantes para o futuro da ICAR, nem dominam os mecanismos que possibilitam ocupar esses lugares. Resta-lhes continuar a fazer pressão a partir do exterior, o que é legítimo e necessário, mas não suficiente.
Publicado por Miguel Silva às 13:47 |
Passa uma pessoa meia manhã a ouvir o Fórum da TSF sobre blogues, as possibilidades de participação cívica, o incremento do debate político, a reflexão plural, comunicação social para aqui, produção de conteúdos para ali, o meio e a mensagem e mais não sei o quê… e, vai-se a ver, andamos a discutir a posição do tampo da sanita.
Publicado por Miguel Silva às 12:51 |
Na impossibilidade de comentar os meus posts através do Blogger, alterei o sistema de comentários. Ao que parece, perderam-se os anteriores comentários do sistema Blogger, pelo que sinto dever um pedido de desculpas a todos os que aqui têm passado e contribuído para tornar este blogue mais interessante. Havendo possibilidade e capacidade para tal, hei-de recuperá-los para a página do blogue.
Publicado por Miguel Silva às 11:39 |
Pode muito bem ser que por trás da proibição de fumo nos restaurantes possa estar “a imposição de um projecto de vida saudável e asséptica”. Não me custa reconhecê-lo e enquadro essa corrente na família de outras, também sobejamente conhecidas, como as vacas sagradas que são o novo, a juventude e a beleza. Mesmo assim, não deixa de me parecer absurdo que se pretenda consagrar o direito inalienável de encher de fumo ambientes fechados e de incomodar e prejudicar terceiros.
No fundo, esta parece ser uma questão que se poderia resumir ao bom senso e à acção responsável. O problema é que, apesar do bom senso e da boa educação levarem a que não se incomode outras pessoas com o fumo do nosso cigarro, quando este é apenas um entre dezenas ou centenas, o princípio da responsabilidade individual dilui-se. Nisso de assumir responsabilidades e de respeitar o outro, convenhamos, sobram exemplos que demonstram não ser este o nosso ponto forte enquanto sociedade. Resta a ideia do policiamento mútuo, a qual, quando associado à delação, se reveste de contornos claramente fascizantes. Mas não de duvide que os indivíduos se vigiam. Toda a ordem social assenta nessa realidade. O que não se pode é pedir que o indivíduo exceda a vigilância social e passe a exercer a função de fiscalização, demitindo-se as autoridades competentes dessa tarefa.
Publicado por Miguel Silva às 13:15 |
No jogo de ontem entre o PSG e o SLB, a dada altura, já com o resultado em 2-1, nenhuma das equipas parecia interessada em alterar o rumo dos acontecimentos. O SLB há-de ter pensado que basta marcar um golo no próximo jogo para passar a eliminatória e o PSG há-de ter pensado que basta empatar daqui a uma semana para estar nos quartos-de-final. Um deles vai descobrir que, ontem, devia ter trabalhado mais. O optimismo faz avançar muitos projectos, mas a ambição e a determinação também.
Publicado por Miguel Silva às 12:11 |
De um dia para o outro, por razões que ainda desconheço, deixei de conseguir comentar os posts neste blogue e a própria publicação de textos tem-se mostrado uma tarefa desafiante. Estou a tentar contornar o problema, mas confesso que já tive mais paciência para isto.
Publicado por Miguel Silva às 10:15 |
Agora, depois da proibição do fumo em restaurantes, eu pergunto-me sobre o que leva os governos a não proibirem as cadeias de fast-food que são, manifestamente, prejudiciais à saúde?
Talvez porque o hambúrguer e a batata frita só fazem mal a quem os ingere e, ao contrário do fumo do tabaco, que se propaga pela atmosfera, não incomodam nem prejudicam mais ninguém.
Parece que é isso, afinal, que está em causa na proibição do fumo na restauração: não a saúde e bem-estar do próprio, mas a dos outros.
Publicado por Miguel Silva às 11:23 |
As pessoas que ganham a vida a traduzir os nomes dos filmes estrangeiros que são exibidos nas salas deste país são conhecidas por disporem de uma margem de manobra muito larga no que toca à fidelidade ao título original. Não foi o caso de Em Busca da Felicidade – The Pursuit of Happyness. Exceptuando um pequeno trocadilho com a grafia do título, compreensivelmente difícil de adaptar, imperou o respeito pela opção dos autores do filme.
Na realidade, o filme poderia muito bem ter outro título. A personagem principal passa as duas horas que a película dura a tentar conseguir um emprego que lhe pague as contas ao fim do mês. Logo a partir do título original, mas também ao longo de diversos momentos no filme, percebe-se que existe uma sobreposição entre felicidade e dinheiro. A busca de um é a busca da outra. Não é necessário recorrer à sabedoria popular, a qual afirma que o dinheiro não traz felicidade, tal como não se deve incorrer em devaneios líricos que neguem a importância do dinheiro e do acesso ao consumo como formas de realização pessoal. Existem, evidentemente, pontos de contacto entre dinheiro e felicidade, mas como a complexidade da existência humana não se esgota nestes dois conceitos, não se pode estabelecer relações de implicação ou de equivalência que não pequem sempre por simplismo.
Apesar dos outros aspectos à volta dos quais o filme gira, o fio condutor principal é o dinheiro, algo que se torna ainda mais notório no epílogo. Ficamos a saber que a personagem principal abriu a sua própria empresa e acabou milionário. Sobre a sua vida pessoal, sobre o casamento, sobre o filho, nada nos é dito. Mas talvez não seja fundamental, porque o mais importante foi alcançado. Um negócio milionário que compensa e faz esquecer os dias a dormir na rua, o casamento arruinado, o infantário medíocre, as humilhações e as privações do dia-a-dia. Perdeu-se, talvez, um filme bastante melhor, mas ganhou-se um bom retrato da mentalidade do nosso tempo.
Publicado por Miguel Silva às 10:09 |
As minhas, digamos assim, reservas em relação a Paulo Portas não surgem por ele ser de direita. Surgem porque me parece uma personagem falsa, arrivista e ameaçadora. Paradoxalmente, tudo isto são motivos que prometem muita animação para um blogue. Mas as promessas, já se sabe, são um conceito eminentemente político, sobretudo quando enfiadas na gaveta. Razão tinha o João Soares, que dizia que não fazia promessas - e depois perdeu a CML para Santana Lopes.
Publicado por Miguel Silva às 11:30 |
Pedro Arroja a concorrer ao prémio de Louis de Bonald português.
(via Quase em Português)
Publicado por Miguel Silva às 14:42 |