Tuesday, March 20, 2007

O falso regresso

Tornou-se habitual ouvir dizer que Paulo Portas está de regresso à vida política activa. Trata-se de um equívoco. O regresso implica uma ausência e Portas nunca esteve realmente ausente do palco político. Paulo Portas não regressou, limitou-se a dar a cara. Deixou os bastidores e assumiu finalmente o papel que há muito reservou para si mesmo.

O CDS/PP é uma construção. Portas queria um partido e julgou mais conveniente, muito provavelmente com toda a razão, que isso seria mais facilmente alcançado apoiando-se numa estrutura já existente do que partindo do zero. Por aqui se percebe, por exemplo, toda a distância que o separa de Manuel Monteiro em termos de calculismo e de instrumentalização.

Monteiro foi a figura que testou o sistema e que serviu como ponto de aprendizagem e de afinação da estratégia. Quando a altura foi propícia, Portas tomou conta do projecto que era seu: um partido diferente, com um discurso renovado, preparado para cativar outro tipo de eleitores. Foi já quando a sua estratégia tinha esgotado a sua capacidade de expansão eleitoral que a hipótese de chegar à governação se atravessou à sua frente e que o CDS/PP se impingiu como alternativa para formar uma maioria parlamentar que apoiasse o novo governo.

Essa experiência terminou conforme se sabe e Portas percebeu-o rapidamente, encontrando na saída da liderança do partido a melhor forma de conter os danos pessoais que inevitavelmente se previam para o futuro próximo. Mas o CDS mais tradicional, que nunca simpatizou com Portas, nem com as suas estratégias, e que nunca se reviu no PP ainda se encontrava activo. Telmo Correia foi o escolhido para impedir o retorno desse CDS e falhou a sua missão. Contudo, através de um grupo parlamentar moldado à sua imagem e de toda uma nova geração de notáveis que deve muito da sua carreira política a Paulo Portas, a oposição interna à direcção de Ribeiro e Castro sempre foi uma realidade activa e nunca deu tréguas ao ressurgir do antigo CDS.

Dizer que Portas regressa é, por isso, um grande erro. O seu dedo esteve e está em quase tudo o que o CDS/PP tem passado nos últimos tempos. Simplesmente, agora chegou a altura da guarda avançada encarregue de preparar o terreno abrir alas para que o seu líder dispute o lugar que considera seu por direito natural.

Monday, March 19, 2007

Prognóstico

Ontem passei a manhã na praia a correr atrás de uma bola. Hoje sou uma colecção ambulante de dores musculares. Vá lá, não me doem os dedos das mãos. Talvez seja uma boa semana para o blogue.

Friday, March 16, 2007

Ser e não ser

Quanto mais restritas se tornam as condições de frequência de um determinado meio, menos pessoas se espera atrair. Isto é verdade em qualquer caso que se proponha. Sobem as exigências, desce o número de interessados. O papado de Bento XVI trilha inquestionavelmente esses caminhos.

O que mais surpreende nesta história, contudo, é um movimento intitulado “Nós Somos Igreja”. Surpreende não pelas suas reacções, mas pelo princípio de que parece partir, a julgar pelo nome que adoptam. As pessoas que compõem esse movimento serão fiéis, crentes, católicas, mas não são, definitivamente, Igreja. A Igreja é o Vaticano, a Cúria, as Conferências Episcopais, os Concílios, mas não foi, não é, nem será os fiéis. A estrutura e princípio funcional da ICAR, desde que ela se constituiu como tal, baseiam-se na hierarquização, no elitismo e, até, no despotismo iluminado. A ligação da Igreja aos seus fiéis não é um convite à participação livre e democrática. É um processo de conversão e coerção religiosa e moral.

Compreende-se que haja quem não se reveja nesta Igreja e compreende-se que haja quem pretenda modificá-la. Mesmo admitindo que podem alcançar alguma visibilidade para exporem os seus ideais, falta-lhes o essencial. Na realidade, não têm lugar nas assembleias onde se tomam as decisões relevantes para o futuro da ICAR, nem dominam os mecanismos que possibilitam ocupar esses lugares. Resta-lhes continuar a fazer pressão a partir do exterior, o que é legítimo e necessário, mas não suficiente.

Wednesday, March 14, 2007

Realidades paralelas

Passa uma pessoa meia manhã a ouvir o Fórum da TSF sobre blogues, as possibilidades de participação cívica, o incremento do debate político, a reflexão plural, comunicação social para aqui, produção de conteúdos para ali, o meio e a mensagem e mais não sei o quê… e, vai-se a ver, andamos a discutir a posição do tampo da sanita.

Tuesday, March 13, 2007

Comentários

Na impossibilidade de comentar os meus posts através do Blogger, alterei o sistema de comentários. Ao que parece, perderam-se os anteriores comentários do sistema Blogger, pelo que sinto dever um pedido de desculpas a todos os que aqui têm passado e contribuído para tornar este blogue mais interessante. Havendo possibilidade e capacidade para tal, hei-de recuperá-los para a página do blogue.

Friday, March 09, 2007

Responsabilidade e bom senso

Pode muito bem ser que por trás da proibição de fumo nos restaurantes possa estar “a imposição de um projecto de vida saudável e asséptica”. Não me custa reconhecê-lo e enquadro essa corrente na família de outras, também sobejamente conhecidas, como as vacas sagradas que são o novo, a juventude e a beleza. Mesmo assim, não deixa de me parecer absurdo que se pretenda consagrar o direito inalienável de encher de fumo ambientes fechados e de incomodar e prejudicar terceiros.
No fundo, esta parece ser uma questão que se poderia resumir ao bom senso e à acção responsável. O problema é que, apesar do bom senso e da boa educação levarem a que não se incomode outras pessoas com o fumo do nosso cigarro, quando este é apenas um entre dezenas ou centenas, o princípio da responsabilidade individual dilui-se. Nisso de assumir responsabilidades e de respeitar o outro, convenhamos, sobram exemplos que demonstram não ser este o nosso ponto forte enquanto sociedade. Resta a ideia do policiamento mútuo, a qual, quando associado à delação, se reveste de contornos claramente fascizantes. Mas não de duvide que os indivíduos se vigiam. Toda a ordem social assenta nessa realidade. O que não se pode é pedir que o indivíduo exceda a vigilância social e passe a exercer a função de fiscalização, demitindo-se as autoridades competentes dessa tarefa.

Think small

No jogo de ontem entre o PSG e o SLB, a dada altura, já com o resultado em 2-1, nenhuma das equipas parecia interessada em alterar o rumo dos acontecimentos. O SLB há-de ter pensado que basta marcar um golo no próximo jogo para passar a eliminatória e o PSG há-de ter pensado que basta empatar daqui a uma semana para estar nos quartos-de-final. Um deles vai descobrir que, ontem, devia ter trabalhado mais. O optimismo faz avançar muitos projectos, mas a ambição e a determinação também.

Problemas

De um dia para o outro, por razões que ainda desconheço, deixei de conseguir comentar os posts neste blogue e a própria publicação de textos tem-se mostrado uma tarefa desafiante. Estou a tentar contornar o problema, mas confesso que já tive mais paciência para isto.

Thursday, March 08, 2007

Os outros

Agora, depois da proibição do fumo em restaurantes, eu pergunto-me sobre o que leva os governos a não proibirem as cadeias de fast-food que são, manifestamente, prejudiciais à saúde?

Talvez porque o hambúrguer e a batata frita só fazem mal a quem os ingere e, ao contrário do fumo do tabaco, que se propaga pela atmosfera, não incomodam nem prejudicam mais ninguém.
Parece que é isso, afinal, que está em causa na proibição do fumo na restauração: não a saúde e bem-estar do próprio, mas a dos outros.

As buscas

As pessoas que ganham a vida a traduzir os nomes dos filmes estrangeiros que são exibidos nas salas deste país são conhecidas por disporem de uma margem de manobra muito larga no que toca à fidelidade ao título original. Não foi o caso de Em Busca da Felicidade – The Pursuit of Happyness. Exceptuando um pequeno trocadilho com a grafia do título, compreensivelmente difícil de adaptar, imperou o respeito pela opção dos autores do filme.

Na realidade, o filme poderia muito bem ter outro título. A personagem principal passa as duas horas que a película dura a tentar conseguir um emprego que lhe pague as contas ao fim do mês. Logo a partir do título original, mas também ao longo de diversos momentos no filme, percebe-se que existe uma sobreposição entre felicidade e dinheiro. A busca de um é a busca da outra. Não é necessário recorrer à sabedoria popular, a qual afirma que o dinheiro não traz felicidade, tal como não se deve incorrer em devaneios líricos que neguem a importância do dinheiro e do acesso ao consumo como formas de realização pessoal. Existem, evidentemente, pontos de contacto entre dinheiro e felicidade, mas como a complexidade da existência humana não se esgota nestes dois conceitos, não se pode estabelecer relações de implicação ou de equivalência que não pequem sempre por simplismo.

Apesar dos outros aspectos à volta dos quais o filme gira, o fio condutor principal é o dinheiro, algo que se torna ainda mais notório no epílogo. Ficamos a saber que a personagem principal abriu a sua própria empresa e acabou milionário. Sobre a sua vida pessoal, sobre o casamento, sobre o filho, nada nos é dito. Mas talvez não seja fundamental, porque o mais importante foi alcançado. Um negócio milionário que compensa e faz esquecer os dias a dormir na rua, o casamento arruinado, o infantário medíocre, as humilhações e as privações do dia-a-dia. Perdeu-se, talvez, um filme bastante melhor, mas ganhou-se um bom retrato da mentalidade do nosso tempo.

Wednesday, March 07, 2007

Horizonte


Mark Rothko, Sem título (Preto sobre Cinzento), 1969-70

Friday, March 02, 2007

Do passado e do futuro

As minhas, digamos assim, reservas em relação a Paulo Portas não surgem por ele ser de direita. Surgem porque me parece uma personagem falsa, arrivista e ameaçadora. Paradoxalmente, tudo isto são motivos que prometem muita animação para um blogue. Mas as promessas, já se sabe, são um conceito eminentemente político, sobretudo quando enfiadas na gaveta. Razão tinha o João Soares, que dizia que não fazia promessas - e depois perdeu a CML para Santana Lopes.

Thursday, March 01, 2007

Wednesday, February 28, 2007

Os novos descobridores

Diz-se que Helena de Constantinopola, mãe do imperador Constantino o Grande, foi a responsável pela descoberta dos locais onde Jesus Cristo foi crucificado e onde repousaram os seus restos mortais. Num documentário televisivo sobre este episódio, emitido há mais anos do que a minha memória consegue abranger com pormenor, ironizava-se que quando uma Imperatriz se propõe encontrar algo, acaba por encontrá-lo.
É bastante esclarecedor que nos nossos dias seja um hollywoodesco realizador de cinema a reivindicar feitos de semelhante calibre.

Tuesday, February 27, 2007

Entre proselitismo e ascetismo

Vinha há poucos dias nos jornais: uns senhores bem intencionados, reunidos sob a forma de Igreja Evangélica, montaram um stand num dos eventos de referência da indústria de produção de conteúdos para adultos. O princípio é simples e explica-se facilmente. Segundo os membros dessa Igreja, é preciso aumentar o número de fiéis e, tal como Cristo ensinou, é preciso ir à procura deles não no mundo dos convertidos mas no dos pecadores.
Ao ler a notícia, lembrei-me do documentário O Grande Silêncio, sobre a Ordem dos Cartuxos. Os religiosos que abraçam esta vida optam conscientemente por um dia-a-dia de recolhimento e oração. Procuram uma aproximação com o divino e não se duvide, independentemente das nossas convicções pessoais, que efectivamente a encontram.
Tenho pouca simpatia, a priori, pelo proselitismo militante e estou muito pouco convencido que não existam almas mais necessitadas, em todos os sentidos, do que as que frequentam as convenções da indústria pornográfica. Contudo, não posso deixar de pensar que, embora com um alvo discutível, a Igreja Evangélica XXXChurch procura igualmente, neste caso, seguir a obra de Jesus no mundo do Homem.
A Ordem da Cartuxa, pelo seu lado, opta por uma vida ascética. A sua proximidade de Deus parece depender de um irremediável afastamento do mundo. O cativante documentário de Philip Groning alude, em vários momentos, a passagens da Bíblia, sendo uma delas do Evangelho de São Lucas: “Quem não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Contudo, pode perguntar-se, esta renúncia implica um afastamento tão radical? Mais ainda: não está orientada a mensagem cristã sobretudo para o mundo e para o Homem?
Se o proselitismo me suscita reservas, não tenho quaisquer reparos à religiosidade enquanto opção individual, nem sequer ao ascetismo. Mas, do ponto de vista do cristianismo, compreendo melhor o proselitismo do que o ascetismo. Ou, dito de outra maneira, o primeiro parece-me mais fiel ao espírito do cristianismo que chegou até ao nosso tempo.

Monday, February 26, 2007

Aprender com as palavras

Há três boas razões para eu gostar de blogues: porque gosto de ler, porque gosto de escrever e porque gosto de aprender. Aprende-se muito na blogosfera. É apenas uma questão de ler os blogues certos, os quais, sem dúvida alguma, hão-de variar de leitor para leitor.
Dentro do capítulo da aprendizagem, a partir deste post da Susana Bês, que não é alheio a um outro que aqui publiquei, descobri a SEP, que promete leituras interessantes, assim haja tempo e paciência. Ainda estou, como se pode entender, a explorar as entradas sobre o feminismo
A propósito deste tema, das minhas críticas e da objecção levantada pela Susana, voltou a ocorrer-me a importância do vocabulário como auxiliar para a compreensão de certas realidades sociais. O machismo postula a superioridade do homem e do masculino sobre a mulher e o feminino. Que não seja óbvia uma palavra que descreva o sentido inverso desta visão preconceituosa é, já de si, bastante esclarecedor. Mas isso não quer dizer que esse sentido inverso não exista.
O post que deu origem a toda esta controvérsia não se inscreve, a meu ver, no feminismo, tal como o define a SEP, ou os bons dicionários para as ciências sociais. Inscreve-se naquilo que me continua a parecer uma visão tão preconceituosa como a do machismo, embora, obviamente, minoritária e muito menos divulgada do que aquele. Se havia dúvidas, fica o esclarecimento. Por esse motivo, compreendo a objecção da Susana e acredito, agora, que é injusto dizer que se trata de um post feminista no pior sentido da palavra, pela interpretação equívoca que pode induzir. O feminismo defende os direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades entre os sexos e não é isso, realmente, que eu julgo ler ali.

Reverso

Prostitutas que se dedicaram à escrita. Suponho que exista um trabalho interessante, à espera de ser feito, sobre escritores que se dedicaram à prostituição.

Sunday, February 25, 2007

Leituras

Daqui a umas três horas o mundo vai parecer bonito, colorido e muito alegre. Até lá, duas recomendações de leitura:

querida gi - no Glória Fácil

AEIO...U - n'Os Tempos Que Correm

Infelizmente, complementam-se muito bem.

Friday, February 23, 2007

O significado de humano (II)

Muito resumidamente, o que o post do Mundo Perfeito não reconhece é que qualquer ser humano, se levar uma vidinha normal, gosta que gostem dele. Por outro lado, esse post também parece não reconhecer que o homem é um ser humano. Pelo menos, não tão humano como as mulheres.