Friday, March 09, 2007

Think small

No jogo de ontem entre o PSG e o SLB, a dada altura, já com o resultado em 2-1, nenhuma das equipas parecia interessada em alterar o rumo dos acontecimentos. O SLB há-de ter pensado que basta marcar um golo no próximo jogo para passar a eliminatória e o PSG há-de ter pensado que basta empatar daqui a uma semana para estar nos quartos-de-final. Um deles vai descobrir que, ontem, devia ter trabalhado mais. O optimismo faz avançar muitos projectos, mas a ambição e a determinação também.

Problemas

De um dia para o outro, por razões que ainda desconheço, deixei de conseguir comentar os posts neste blogue e a própria publicação de textos tem-se mostrado uma tarefa desafiante. Estou a tentar contornar o problema, mas confesso que já tive mais paciência para isto.

Thursday, March 08, 2007

Os outros

Agora, depois da proibição do fumo em restaurantes, eu pergunto-me sobre o que leva os governos a não proibirem as cadeias de fast-food que são, manifestamente, prejudiciais à saúde?

Talvez porque o hambúrguer e a batata frita só fazem mal a quem os ingere e, ao contrário do fumo do tabaco, que se propaga pela atmosfera, não incomodam nem prejudicam mais ninguém.
Parece que é isso, afinal, que está em causa na proibição do fumo na restauração: não a saúde e bem-estar do próprio, mas a dos outros.

As buscas

As pessoas que ganham a vida a traduzir os nomes dos filmes estrangeiros que são exibidos nas salas deste país são conhecidas por disporem de uma margem de manobra muito larga no que toca à fidelidade ao título original. Não foi o caso de Em Busca da Felicidade – The Pursuit of Happyness. Exceptuando um pequeno trocadilho com a grafia do título, compreensivelmente difícil de adaptar, imperou o respeito pela opção dos autores do filme.

Na realidade, o filme poderia muito bem ter outro título. A personagem principal passa as duas horas que a película dura a tentar conseguir um emprego que lhe pague as contas ao fim do mês. Logo a partir do título original, mas também ao longo de diversos momentos no filme, percebe-se que existe uma sobreposição entre felicidade e dinheiro. A busca de um é a busca da outra. Não é necessário recorrer à sabedoria popular, a qual afirma que o dinheiro não traz felicidade, tal como não se deve incorrer em devaneios líricos que neguem a importância do dinheiro e do acesso ao consumo como formas de realização pessoal. Existem, evidentemente, pontos de contacto entre dinheiro e felicidade, mas como a complexidade da existência humana não se esgota nestes dois conceitos, não se pode estabelecer relações de implicação ou de equivalência que não pequem sempre por simplismo.

Apesar dos outros aspectos à volta dos quais o filme gira, o fio condutor principal é o dinheiro, algo que se torna ainda mais notório no epílogo. Ficamos a saber que a personagem principal abriu a sua própria empresa e acabou milionário. Sobre a sua vida pessoal, sobre o casamento, sobre o filho, nada nos é dito. Mas talvez não seja fundamental, porque o mais importante foi alcançado. Um negócio milionário que compensa e faz esquecer os dias a dormir na rua, o casamento arruinado, o infantário medíocre, as humilhações e as privações do dia-a-dia. Perdeu-se, talvez, um filme bastante melhor, mas ganhou-se um bom retrato da mentalidade do nosso tempo.

Wednesday, March 07, 2007

Horizonte


Mark Rothko, Sem título (Preto sobre Cinzento), 1969-70

Friday, March 02, 2007

Do passado e do futuro

As minhas, digamos assim, reservas em relação a Paulo Portas não surgem por ele ser de direita. Surgem porque me parece uma personagem falsa, arrivista e ameaçadora. Paradoxalmente, tudo isto são motivos que prometem muita animação para um blogue. Mas as promessas, já se sabe, são um conceito eminentemente político, sobretudo quando enfiadas na gaveta. Razão tinha o João Soares, que dizia que não fazia promessas - e depois perdeu a CML para Santana Lopes.

Thursday, March 01, 2007

Wednesday, February 28, 2007

Os novos descobridores

Diz-se que Helena de Constantinopola, mãe do imperador Constantino o Grande, foi a responsável pela descoberta dos locais onde Jesus Cristo foi crucificado e onde repousaram os seus restos mortais. Num documentário televisivo sobre este episódio, emitido há mais anos do que a minha memória consegue abranger com pormenor, ironizava-se que quando uma Imperatriz se propõe encontrar algo, acaba por encontrá-lo.
É bastante esclarecedor que nos nossos dias seja um hollywoodesco realizador de cinema a reivindicar feitos de semelhante calibre.

Tuesday, February 27, 2007

Entre proselitismo e ascetismo

Vinha há poucos dias nos jornais: uns senhores bem intencionados, reunidos sob a forma de Igreja Evangélica, montaram um stand num dos eventos de referência da indústria de produção de conteúdos para adultos. O princípio é simples e explica-se facilmente. Segundo os membros dessa Igreja, é preciso aumentar o número de fiéis e, tal como Cristo ensinou, é preciso ir à procura deles não no mundo dos convertidos mas no dos pecadores.
Ao ler a notícia, lembrei-me do documentário O Grande Silêncio, sobre a Ordem dos Cartuxos. Os religiosos que abraçam esta vida optam conscientemente por um dia-a-dia de recolhimento e oração. Procuram uma aproximação com o divino e não se duvide, independentemente das nossas convicções pessoais, que efectivamente a encontram.
Tenho pouca simpatia, a priori, pelo proselitismo militante e estou muito pouco convencido que não existam almas mais necessitadas, em todos os sentidos, do que as que frequentam as convenções da indústria pornográfica. Contudo, não posso deixar de pensar que, embora com um alvo discutível, a Igreja Evangélica XXXChurch procura igualmente, neste caso, seguir a obra de Jesus no mundo do Homem.
A Ordem da Cartuxa, pelo seu lado, opta por uma vida ascética. A sua proximidade de Deus parece depender de um irremediável afastamento do mundo. O cativante documentário de Philip Groning alude, em vários momentos, a passagens da Bíblia, sendo uma delas do Evangelho de São Lucas: “Quem não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). Contudo, pode perguntar-se, esta renúncia implica um afastamento tão radical? Mais ainda: não está orientada a mensagem cristã sobretudo para o mundo e para o Homem?
Se o proselitismo me suscita reservas, não tenho quaisquer reparos à religiosidade enquanto opção individual, nem sequer ao ascetismo. Mas, do ponto de vista do cristianismo, compreendo melhor o proselitismo do que o ascetismo. Ou, dito de outra maneira, o primeiro parece-me mais fiel ao espírito do cristianismo que chegou até ao nosso tempo.

Monday, February 26, 2007

Aprender com as palavras

Há três boas razões para eu gostar de blogues: porque gosto de ler, porque gosto de escrever e porque gosto de aprender. Aprende-se muito na blogosfera. É apenas uma questão de ler os blogues certos, os quais, sem dúvida alguma, hão-de variar de leitor para leitor.
Dentro do capítulo da aprendizagem, a partir deste post da Susana Bês, que não é alheio a um outro que aqui publiquei, descobri a SEP, que promete leituras interessantes, assim haja tempo e paciência. Ainda estou, como se pode entender, a explorar as entradas sobre o feminismo
A propósito deste tema, das minhas críticas e da objecção levantada pela Susana, voltou a ocorrer-me a importância do vocabulário como auxiliar para a compreensão de certas realidades sociais. O machismo postula a superioridade do homem e do masculino sobre a mulher e o feminino. Que não seja óbvia uma palavra que descreva o sentido inverso desta visão preconceituosa é, já de si, bastante esclarecedor. Mas isso não quer dizer que esse sentido inverso não exista.
O post que deu origem a toda esta controvérsia não se inscreve, a meu ver, no feminismo, tal como o define a SEP, ou os bons dicionários para as ciências sociais. Inscreve-se naquilo que me continua a parecer uma visão tão preconceituosa como a do machismo, embora, obviamente, minoritária e muito menos divulgada do que aquele. Se havia dúvidas, fica o esclarecimento. Por esse motivo, compreendo a objecção da Susana e acredito, agora, que é injusto dizer que se trata de um post feminista no pior sentido da palavra, pela interpretação equívoca que pode induzir. O feminismo defende os direitos das mulheres e a igualdade de oportunidades entre os sexos e não é isso, realmente, que eu julgo ler ali.

Reverso

Prostitutas que se dedicaram à escrita. Suponho que exista um trabalho interessante, à espera de ser feito, sobre escritores que se dedicaram à prostituição.

Sunday, February 25, 2007

Leituras

Daqui a umas três horas o mundo vai parecer bonito, colorido e muito alegre. Até lá, duas recomendações de leitura:

querida gi - no Glória Fácil

AEIO...U - n'Os Tempos Que Correm

Infelizmente, complementam-se muito bem.

Friday, February 23, 2007

O significado de humano (II)

Muito resumidamente, o que o post do Mundo Perfeito não reconhece é que qualquer ser humano, se levar uma vidinha normal, gosta que gostem dele. Por outro lado, esse post também parece não reconhecer que o homem é um ser humano. Pelo menos, não tão humano como as mulheres.

O significado de humano

Um post longo, mas interessante, no Mundo Perfeito, sobre os estímulos sexuais masculinos, já mereceu comentários no Womenage a Trois e no Quase em Português. Sobretudo no WaT, já foram apontadas várias falhas à ideia que preside a elaboração do texto. A Isabela tem o mérito de não ter medo de levar o seu raciocínio até ao fim, mas comete o erro de o basear em premissas equívocas e em relações de implicação que são pouco menos que exageradas.

Em primeiro lugar, é bastante arrojado descartar mais de um século de Psicologia e julgar compreender os estímulos sexuais masculinos tendo como suporte um documentário num canal da TV Cabo. O post da Isabela rapidamente parece passar dos japoneses que compram bonecas para todos os japoneses, e destes para os homens em geral, sem qualquer suporte que não seja a mera suposição. Diminui o desejo masculino a formas geométricas, as quais não são seguramente despiciendas, mas ignora totalmente todo o contexto de relacionamento que a Psicologia e a Sociologia já trataram amiúde. Ao contrário do que é postulado, o conteúdo do conceito de mulher não é, de todo, indiferente e não remete exclusivamente para o significado visual. O tipo de relação que se constrói com o outro, seja homem ou mulher, é um dos aspectos mais importantes nas regras da atracção. Mesmo que seja, uma boa parte das vezes, como forma de dominação numa relação de poder. Para além das protuberâncias e das concavidades, que desencadeiam estímulos tanto no homem como na mulher (não sejamos ingénuos), existe toda uma visão do outro, mais real ou mais idealizada, muito notória, por exemplo, no amor romântico, e a qual pode tender a perceber esse outro como um igual ou não. De qualquer forma, mesmo que essa visão não reconheça a igualdade perante o outro e o aproxime do objecto, trata-se de um objecto complexo, consciente, com vontade própria, mesmo que seja para a seduzir, ludibriar ou dominar. Aliás, paradoxalmente, a dominação masculina é um dos bons exemplos de como os homens procuram mais do que bonecas, seres inanimados, ou simples protuberâncias e orifícios. Algo parece não bater certo nessa teoria. Na realidade, por muita saída que as bonecas sexuais possam ter, o relacionamento afectivo, nas diversas formas que assume, ainda domina e parece estar para durar. E isso certamente não se deve apenas aos 5000 dólares que aquelas custam.

Por outro lado, o raciocínio subjacente ao post, ao reduzir a atracção sexual masculina ao estímulo geométrico passa ao lado de todo o processo de sedução e enamoramento, que está por trás da esmagadora maioria das relações sexuais dos nossos dias. Este processo, sobretudo quando conduzido numa perspectiva de reconhecimento e respeito pelo outro como um igual, contradiz factualmente, de forma avassaladora, a argumentação utilizada. Mais ainda, o ser humano é um animal social e cultural. O comportamento de homens e mulheres não corresponde a meros estímulos sensoriais. O behaviorismo está há muito ultrapassado como teoria explicativa do comportamento. O ser humano interpreta os estímulos, interage com os agentes emissores, conota com carga simbólica os comportamentos próprios e alheios. Dito de outra forma, a profundidade do decote diz mais ao homem do que o tamanho dos seios. Além disto, é inegável que as mentalidades, produto e produtoras de cultura por excelência, mudam com os tempos. A nossa época caracteriza-se, ainda, pela dominação masculina, mas a sociedade dá sinais de se estarem a alterar as mentalidades que a suportam, tanto nas mulheres como nos homens. A abordagem behaviorista das regras de atracção sexual masculina nega a perspectiva cultural e a mudança de mentalidades. Nega, essencialmente, a humanidade do homem.

O post da Isabela é feminista no pior sentido que a palavra pode ter. É feminista na forma como diminui o homem e o masculino. Responde ao machismo exactamente na mesma moeda, com preconceito e desconsideração. Nesse sentido, limita-se a perpetuar uma forma distorcida e redutora de ver e de se relacionar com o outro, contribuindo apenas com a inversão do sinal de negatividade. Demasiado esforço para um caminho que não leva, com toda a certeza, à dignificação e à justiça nas relações de género.

Thursday, February 22, 2007

Imputabilidade

O CDS/PP volta a pugnar pela imputabilidade a partir das 10 semanas, perdão, dos 14 anos. Mas continua a não querer mandar ninguém para a prisão. Pelo menos não os podem acusar de incoerência.

Quem sou, de onde venho, para onde vou

Estatisticamente, tenho mais de 45 anos de vida à minha frente. Estou bastante seguro de quem sou. Sei bem de onde venho. Não faço ideia para onde vou, mas sei perfeitamente para onde não quero ir. Para já, é suficiente.

Wednesday, February 21, 2007

O fenómeno

Os parâmetros pelos quais Alberto João Jardim se guia são muito seus. O paradoxo é que continua a ser tratado, deste lado da República, como qualquer outro interlocutor, como se os desrespeitos, as chantagens e o défice democrático não existissem. Sabe-se que quando Alberto João Jardim fala dos “madeirenses” não se está a referir a todos os madeirenses. Fala apenas para e dos que nele votaram. Fala dos compadrios, dos conluios, dos interesses, dos grupinhos, das clientelas e das influências. São esses os seus “madeirenses”. Os outros não interessam, quer estejam na Madeira quer não. Jardim não trabalha para o bem da Madeira e dos madeirenses; trabalha para o bem da sua Madeira e dos seus madeirenses. Essa é a sua marca mais distintiva, que tem apostado na promiscuidade entre o partido, o aparelho de Estado e a sociedade para cimentar dependências mútuas e tornar muito mais difícil a vida a quem se encontra excluído deste círculo viciado.

Jardim tem sido, até hoje, um fenómeno localizado. Mas há já alguns anos que corre o rumor que há-de tentar o salto político do cenário regional para o cenário nacional. Talvez seja difícil que o homem que tanto atacou o “continente” e as suas instituições de soberania se consiga impor como actor político precisamente nesse palco. Mais importante ainda, a sua esfera de influência esgota-se bastante no arquipélago onde é senhor absoluto há 30 anos. Fora dele não reúne os condicionalismos que construiu nestas três décadas e que lhe garantiram reeleições sucessivas.

Mas convém não menosprezar o poder da demagogia e do mito. Não são poucos os casos de políticos que estão longe de corresponder a modelos exemplares, mas que granjearam o apoio suficiente para assegurarem a sua eleição. De facto, esta é uma realidade desagradavelmente familiar e que já se repetiu demasiadas vezes para que possamos estar descansados.

Tuesday, February 20, 2007


Marc Chagall, A Dança e o Circo, 1950

Friday, February 16, 2007

Era uma vez... em Lisboa

Uma Câmara Municipal em que dois vereadores foram constituídos arguidos, por suspeitas relacionadas com a sua actividade no executivo, e cujo Presidente é aquele senhor que negociou lugares em empresas municipais a troco de apoio político de outras forças partidárias.
Se isto não dá lugar a eleições antecipadas, o que mais será preciso?

Thursday, February 15, 2007

Um afastamento

Gosto do Público. Sempre simpatizei com o diário e, confesso, apesar de actualmente não o comprar, apesar do seu director e das suas estratégias, continuo a gostar do Público. De tempos a tempos volto a folhear o jornal e procuro reavivar essa relação de leitura que já tivemos. O Público foi o diário que acompanhou a minha entrada na idade adulta, foi a companhia de férias de Verão a percorrer locais ermos deste país, foi o meio de informação preferido para acontecimentos nacionais e internacionais que não se esquecem. Não obstante este passado em comum, nenhuma tentativa de reaproximação tem sido bem sucedida e, até hoje, ainda não me tinha apercebido porquê. Foi preciso um texto do João Pinto e Castro para eu ganhar consciência da grande razão que me afasta do Público. A cumplicidade, por assim dizer, que existiu no passado desapareceu. Enquanto leitor, não me sinto bem-vindo nas páginas do jornal e nos seus princípios orientadores. Eu serei, afinal, um desses leitores que o Público deixou para trás. Assim seja, então. Pode sempre acontecer que um dia nos encontremos de novo.