Friday, February 02, 2007

O Tempo dos Assassinos

Até à invenção da pólvora, com algumas excepções que confirmam a regra, dar a morte a uma pessoa pressupunha uma proximidade entre o homicida e a sua vítima. Nas estradas infestadas de salteadores, nos campos de batalha, no senado de Roma, o assassino e o seu ferro precisavam do contacto físico para levarem a cabo a sua tarefa.
A morte que desta forma tão próxima se oferece e se recebe torna-se muito emocional. Georges Simenon, para o seu comissário Maigret, escreveu sobre isso e os serial killers, mais uma vez, com algumas excepções que confirmam a regra, preferem a arma branca ou as próprias mãos à impessoalidade da arma de fogo. No fundo, o que a pólvora trouxe foi, sobretudo, distância.
No nosso tempo, a morte chega impessoal, cheia de fórmulas e de ciência. Vem da ponta distante de uma pistola ou de uma espingarda. Mas também dos ainda mais distantes desapego e indiferença assépticos.
O Tempo dos Assassinos conta, a partir de agora, com a Arma de Andy Warhol, de 1981, para nos recordar esta realidade.

Fim de mudanças

Salvo alguns retoques ao sabor da criatividade do momento, o novo aspecto do blogue vai passar a ser este.

Thursday, February 01, 2007

Mudanças

Empurrado pelo Blogger, o Tempo dos Assassinos migrou para a nova versão disponível. Os próximos tempos vão ser de experiências. Sinto-me como um míudo com um brinquedo novo.

Salários baixos vs. qualificações

A qualificação tem preço. O salário do trabalhador qualificado representa um custo mais alto do que o do trabalhador desqualificado. Em Portugal pouco se aposta na qualificação. Compreende-se: sai mais caro e implica uma reestruturação dos modelos de organização das empresas. É por isso que, entre outros motivos, tendo Portugal falta de profissionais qualificados, regista taxas altas de desemprego entre os licenciados.
Os salários baixos em Portugal são um facto. Nesse sentido, Manuel Pinho limitou-se a fazer notar o óbvio aos empresários chineses. Mas se os factos são neutros, a leitura política não o é. E entre o argumento dos baixos salários para atrair investimento invocado por Manuel Pinho e a aposta na qualificação dos portugueses, patente nas intenções do QREN, ou mesmo no exemplo do modelo finlandês, anteriormente apontado por José Sócrates, existe uma enorme contradição. Ou se pretende um país que atraia investimento pelos baixos salários praticados ou se pretende um país com níveis de qualificações elevados, as quais se fazem pagar na razão directa da sua excelência. As duas coisas, em simultâneo, é que não.
Contudo, as declarações do ministro, para além de politicamente inábeis, são estrategicamente desadequadas. Portugal até pode pagar dos salários mais baixos na Europa, mas dificilmente pode competir com os salários praticados, por exemplo, nalguns países asiáticos. Mais ainda, se o desígnio para Portugal é a convergência com a média da UE, o caminho não pode passar por atrair investimento com políticas de baixos salários. Pelo contrário, a solução mais viável é direccionar a economia para a criação de mais-valias significativas nos seus produtos e serviços, algo que se consegue com especialização e qualificação. E isto não sai barato.

Imigração

Uma das formas sobejamente conhecidas de aumentar a população e as taxas de natalidade é permitir o crescimento da imigração. Talvez alguém, com toda a calma, o pudesse explicar a Ribeiro e Castro. Mas é de esperar que, no CDS/PP, ninguém queira ouvir falar nisto.

Wednesday, January 31, 2007

Tem razão naquilo que pergunta

Há que reconhecer o sentido de cena de Marcelo Rebelo de Sousa. Neste vídeo, não só não se desmancha, como ainda consegue afirmar que a sua interlocutora “tem razão naquilo que pergunta”. Pergunta que, registe-se para a posteridade, consistiu no seguinte:
“As nossas conversas têm tido um impacto muito grande… de todos os lados. Por um lado, o “sim”… o “sim” diz que nunca assim, não é, e o não também parece dizer que assim não”.

(via Glória Fácil)

O brilhantismo

Ribeiro e Castro merece-me alguma simpatia por representar aquele CDS/PP que não é o dos Paulos Portas, Telmos Correias e Nunos Melos. Apesar disso, não deixa de representar o CDS/PP e, como tal, não se pode dizer que seja uma pessoa com a qual eu me encontre em sintonia, ideologicamente falando. O líder do CDS é contra o aborto e afirma que para esta sua tomada de posição contribui a vontade de aumentar a população portuguesa. Assim sendo, parece que Ribeiro e Castro defende que as políticas de incentivo ao aumento da taxa de natalidade devem passar pelo Código Penal. Não sei se é por aí que devemos avançar.
Além disto, ficamos ainda sem perceber a relação directa entre aumento da população e, presume-se, os eventuais benefícios que daí advêm para o país. Sem grande esforço, é possível relembrar uma mão cheia de indicadores, tais como a taxa de mortalidade infantil, a taxa de alfabetização, as estatísticas do trabalho infantil e os salários mínimo e médio praticados, para se compreender que a questão é muito mais complexa do que surge aos olhos de Ribeiro e Castro.
No fim das contas, o que fica por saber é se os líderes políticos têm estas brilhantes ideias sozinhos ou se recorrem à prestimosa ajuda dos seus batalhões de assessores e das comissões políticas dos seus partidos.

Tuesday, January 30, 2007

O filósofo Sócrates ficou célebre, não só pela sua condenação à morte, mas também por recrutar pessoas sonsas a quem fazia perguntas, assim demonstrando o enorme saber que aquelas possuíam. Marcelo Rebelo de Sousa, por seu lado, é célebre por recrutar pessoas sonsas para lhe fazerem perguntas, assim demonstrando o enorme saber que ele mesmo possui.
Por estes dias, Marcelo celebrizou-se também por uma das mais ambíguas e pouco coerentes posições sobre o referendo do aborto. Mas, por trás de toda esta ambiguidade, ressalta uma desconsideração pelo dilema da mulher grávida que pondera abortar e pela validade racional e afectiva da sua decisão. Quando MRS, tal como César das Neves ou Mário Pinto, avança com uma teoria da vulgarização do aborto sem motivo justo está a colocar em causa a competência e legitimidade do livre arbítrio da mulher grávida.
Em última instância, nenhuma pessoa se encontra a salvo de tomar decisões menos avisadas ou de não equacionar todas as alternativas que se apresentam. O erro, já os romanos o sabiam, é inerente à condição humana. Contudo, a crítica, que é uma actividade eticamente legítima, deve incidir sobre casos particulares e não sobre generalizações. É a diferença entre avaliar uma decisão concreta e avaliar, em abstracto, a capacidade das pessoas para tomarem decisões.

Monday, January 29, 2007

Saturação

A duas semanas da realização do referendo sobre a despenalização da IVG, confesso-me cansado da troca de acusações, dos juízos de valor e das muitas certezas apresentadas pelas duas campanhas. Imagino que não seja o único a ter atingido este estado de saturação. Parece haver um excesso de propaganda de parte a parte, sendo a blogosfera um bom exemplo disso.

O excesso de propaganda e o tom das campanhas, sejam elas a propósito da despenalização da IVG ou de qualquer eleição para cargos políticos, atinge um nível que se deve considerar preocupante em diferentes aspectos. Nomeadamente, porque facilitam a acção aos estrategas da demagogia e do populismo, apenas beneficiando o arrivismo político, porque abrem o flanco à argumentação dos extremistas, que vêem na democracia e na livre expressão sobretudo desregramento e vícios, e, finalmente, porque tendem a afastar das discussões públicas todos os que não se revêem nestes modelos exacerbados, contribuindo para enfraquecer a participação cívica dos indivíduos.

Há uns anos, Phillipe Breton propôs a recuperação da retórica, destituída da conotação depreciativa que entretanto lhe foi associada. A retórica recuperada com a essência que a viu nascer: uma arte de construir uma argumentação lógica, articulada e inteligível, que sirva para comunicar, para partilhar informações e opiniões e não para manipular consciências ou dissimular intenções.

As democracias precisam de inverter esta tendência em que o simplismo, os preconceitos e os extremismos encontram terreno fértil para crescer. Evidentemente, precisam também de personalidades, da política à sociedade civil, passando pela comunicação social, que saibam reconhecer a importância desta viragem e que estejam realmente interessadas nela.

Thursday, January 25, 2007


Paul Klee, Cão Uivando, 1928

Recomendação

Quem gosta de ler blogues com os horizontes abertos, quem gosta de encontrar posts bem pensados e bem escritos, quem acredita que há sempre mais num problema do que a meia dúzia de frases de propaganda do costume, quem não se importa de se deparar com perguntas incómodas, faça o favor de ler o post da Helena Araújo sobre o referendo de 11 de Fevereiro.

Wednesday, January 24, 2007

Carmona Rodrigues diz que deseja "que a cidade de Lisboa seja isenta deste véu de suspeitas". Há aqui uma pequena confusão. É o executivo camarário, e não a cidade, que está sob suspeita. Pode parecer um preciosismo, mas não é.

Saturday, January 20, 2007

south park - blame Canada

Friday, January 19, 2007

O economista João César das Neves voltou a fazer aquilo que o celebriza e que é lançar a confusão generalizada com o que escreve ou com o que diz. Já são vários os blogues que se referem às polémicas declarações de JCN, merecendo estas a atenção também do DN. Afirmou JCN que o aborto, com a vitória do “sim”, passará a ser “tão normal como um telemóvel”. A frase é de uma enormidade tão óbvia que requer poucos comentários. Ainda assim, JCN recorreu a algumas estatísticas que se prestam a uma certa contextualização.

Se o “sim” vencer em Fevereiro, é natural que as estatísticas oficiais do aborto aumentem. Na realidade, é isso que se espera quando se vota “sim”, pois esse aumento corresponderá a uma diminuição dos abortos que agora se praticam ilegalmente, verificando-se um crescendo do número daqueles a ser praticados em estabelecimentos de saúde autorizados e devidamente competentes para o efeito. Este é um primeiro aspecto quanto ao qual se deve ser bastante claro.

Em segundo lugar, se é verdade que se registaram aumentos nas taxas de aborto (o que é muito diferente de aumentos nas taxas de crescimento do aborto), pelo menos em países como os EUA, a Espanha e a Inglaterra (inclui dados relativos ao País de Gales) há sinais de alguma estabilização.

Contudo, as estatísticas são uma ferramenta de conhecimento da realidade social e carecem de interpretação. Os aumentos registados podem resultar da alteração das leis, mas, para uma compreensão mais correcta do fenómeno, outros factores devem igualmente ser considerados. Por exemplo, interessa saber como se comportaram outras variáveis tais como a estrutura demográfica e a estrutura económica das sociedades em questão.

Os fenómenos sociais carecem de um enquadramento contextual o mais completo possível e têm na sua origem uma série de causas, as quais concorrem para lhes dar forma. Reduzi-los a uma expressão forçadamente simples apenas contribui para a sua mistificação. Algo que é tanto mais grave quanto venha de pessoas com obrigação de conhecer estes pressupostos e de os respeitar de acordo com as suas habilitações académicas e profissionais. Mas, neste caso, vindo de quem parece acreditar que as portuguesas hão-de ir a correr fazer abortos como quem compra telemóveis, não surpreende assim tanto.

Blame Canada (II)

Times have changed
Our kids are getting worse
They won't obey their parents
They just want to fart and curse!
Should we blame the government?
Or blame society?
Or should we blame the images on TV?
No, blame Canada
Blame Canada
With all their beady little eyes
And flapping heads so full of lies
Blame Canada
Blame Canada
We need to form a full assault
It's Canada's fault!
Don't blame me
For my son Stan
He saw the damn cartoon
And now he's off to join the Klan!
And my boy Eric once
Had my picture on his shelf
But now when I see him he tells me to fuck myself!
Well, blame Canada
Blame Canada
It seems that everything's gone wrong
Since Canada came along
Blame Canada
Blame Canada
They're not even a real country anyway
My son could've been a doctor or a lawyer rich and true,
Instead he burned up like a piggy on a barbecue
Should we blame the matches?
Should we blame the fire?
Or the doctors who allowed him to expire?
Heck no!
Blame Canada
Blame Canada
With all their hockey hullabaloo
And that bitch Anne Murray too
Blame Canada
Shame on Canada
For...
The smut we must stop
The trash we must bash
The Laughter and fun
Must all be undone
We must blame them and cause a fuss
Before someone thinks of blaming us!

Thursday, January 18, 2007

Blame Canada

O tema Blame Canada faz parte do filme de animação baseado na série South Park, conhecida pelo seu humor corrosivo e impiedoso. O ponto fulcral que lhe subjaz é paralelo ao que se pode encontrar no documentário Bowling for Columbine, da autoria de Michael Moore, no qual se questiona a importância de tornar os jogos de computador ou a música que se ouve em arguidos principais de um massacre escolar, isto numa sociedade que enfrenta profundas divisões sócio-económicas, vive uma realidade de medo contínuo e recorre à posse e uso de armas como resposta para os seus problemas. Moore conclui que se pretendemos atribuir o grosso da fatia de responsabilidades aos jogos e à música, mais vale incluirmos também o salão de bowling frequentado pelos dois adolescentes que levaram a cabo o tiroteio.

A SIC noticia hoje um caso de agressões entre adolescentes que está a chocar os EUA. Os contornos das agressões podem não ser os mais originais, mas as imagens acabaram difundidas na Internet e esse facto colocou o episódio sob uma nova perspectiva. Tanto quanto parece, está relançado “o debate sobre os efeitos perversos da Internet, sobretudo a facilidade com que se coloca em linha o mais variado tipo de material”, não faltando especialistas que “alertam para o efeito multiplicador que daqui pode resultar”.

Não se pode recusar a pertinência da discussão sobre os abusos que se podem cometer na Internet. O potencial deste meio, de resto, como a maior parte das liberdades, tem como custo associado os eventuais excessos cometidos. A Internet, em si mesma, não é um meio perigoso. Como em tantas outras coisas, tem a fama que o bom e o mau uso lhe impõem. Focar a atenção no putativo excesso de liberdade da Internet acaba a ser uma versão simplista para um problema complexo e uma forma mais ou menos torpe de impedir que se procurem relações causais mais profundas. Como no caso de Blame Canada, trata-se de encontrar um alvo fácil para bode expiatório, fugindo assim ao desconfortável exercício de fazer uma autocrítica severa ao sistema social como um todo e às responsabilidades particulares de cada um. Pensar o lugar que a tolerância perante os actos de violência e perante o sofrimento alheio ocupa no seio das nossas sociedades dá muito mais trabalho e pode produzir respostas, essas sim, que constituem um perigo para as nossas auto-imagens.

A TV Cabo enviou-me um SMS no qual me informa que existirá uma interrupção no fornecimento de serviço de Internet num destes próximos dias. Esta atenção demonstrada pelo aviso é ainda mais apreciável devido ao facto de eu não ser cliente da Netcabo há mais de meio ano. E ainda dizem que esta é uma das empresas que mais reclamações recebe. Má vontade das pessoas, é o que é.

Wednesday, January 17, 2007

Grande em quê?

O concurso do momento, promovido pela RTP, é inconsequente por várias razões, não sendo a total ausência de critérios de escolha a menor delas. Outra é a ambiguidade do que representa ser um “Grande Português”. Grande no sentido de importante ou grande no sentido de reconhecido? Grande no sentido de melhor representar o espírito de uma nação ou grande no sentido de mais se afastar dele? E, neste caso, é indiferente a direcção em que se afasta? Podem coexistir pacificamente na mesma lista nomes como Aristides de Sousa Mendes, que se destacou por ter salvo a vida a milhares de judeus perseguidos pelo nazismo, e António de Oliveira Salazar, que mergulhou o país numa ditadura obscurantista e proibiu e puniu os esforços realizados em França pelo diplomata?
O DN, por exemplo, na iniciativa que promoveu junto dos seus colunistas, pareceu ter optado por entender grande num sentido de importante. Aí podemos mesmo ler Vasco Graça Moura defender que “Salazar teve uma compreensão do País muito mais sensata e realista” do que Mário Soares. Pode aceitar-se que Salazar compreendeu bem o país que governou durante 40 anos, mas quanto à sensatez de excluir Portugal da modernidade e do progresso e de o envolver em várias frentes de uma guerra colonial absurda, talvez tenhamos um dia destes a oportunidade de conhecer, pela pena do ex-governante do PSD, a bondade dessa opção. Porém, se Salazar é importante e se manifestou um entendimento dos condicionalismos sociais do seu país, o mesmo se pode dizer, seguramente, de Adolf Hitler e de Estaline. Não só compreenderam e exploraram em benefício dos seus próprios interesses as realidades sociais da Alemanha e da URSS, como é mesmo impossível passar ao lado dos seus nomes e compreender os acontecimentos do século XX.
Assim sendo, será muito demagógico perguntar quanta desta bem intencionada gente que corre a votar em Salazar estaria disposta, segundo os mesmos critérios, a incluir Hitler e Estaline no seu Top 10 de Grandes Europeus de todos os tempos?

Tuesday, January 16, 2007


Giacomo Balla, Dinamismo de um Cão com Trela, 1912

Monday, January 15, 2007

Passei o fim-de-semana a reflectir nos meus defeitos. Melhor dito, nem tanto a pensar nos defeitos, mas antes a discernir a parte do todo que lhes cabe, para concluir que não é pequena.
Até que esta manhã, por mero acaso, numas linhas que escrevia, não interessa a propósito de quê, me surgiu uma das obnubiladas qualidades. Tenho como projecto, até ao fim do dia, recordar-me de mais umas quantas.