Há dias em que os blogues – escrever no meu, ler os outros – me provocam um sentimento de satisfação. Há dias em que não posso com eles. E há dias, como hoje, em que as duas coisas se embrenham estranhamente uma na outra. Não sei explicar. É simplesmente assim.
Thursday, January 11, 2007
Isto é prestígio
Rui Cerdeira Branco, agora a adufar em http://adufe.net/
Publicado por Miguel Silva às 09:45 |
Brincar à política (III)
Entretanto, o país aguarda impacientemente o livro que Manuel Maria Carrilho irá lançar explicando como tinha um grande projecto para Lisboa, como as circunstâncias eram adversas, como foi injustamente atacado, como a culpa, afinal, é da comunicação social, dos inimigos políticos e de quem mais for necessário para que não tenha de reconhecer os erros próprios.
Publicado por Miguel Silva às 09:41 |
Brincar à política (II)
Não é realmente necessário perguntarmo-nos sobre as dificuldades de compatibilizar os mandatos de deputado e de vereador, ou melhor, sobre as dificuldades de perspectivar esse cenário no momento da aceitação em pertencer a essas duas listas como candidato. A resposta surge demasiado óbvia. Depois de uma campanha desastrada e da pouca expressão da oposição ao executivo de Carmona Rodrigues, não se pode dizer que Lisboa vá sentir a falta de Carrilho. Porém, continua a ser sofrível ver como os compromissos que se assumem nos momentos eleitorais são descartados na primeira oportunidade. Compreende-se que o parlamento seja uma plataforma simultaneamente mais confortável e mais mediática, bastante mais ao gosto do ex-ministro. O que não se compreende é como os lugares políticos podem ser impunemente instrumentalizados pelos seus ocupantes ao sabor dos seus interesses pessoais.
Publicado por Miguel Silva às 09:38 |
Brincar à política
A política continua a ser vista, entre os seus principais agentes, muito mais como a gestão de estratégias pessoais ou partidárias, tantas vezes mais das primeiras do que das segundas, do que como a gestão dos interesses da sociedade e a prossecução do bem público.
Publicado por Miguel Silva às 09:20 |
Tuesday, January 09, 2007
A TSF passou a manhã de ontem a afirmar que os maus-tratos a idosos aumentaram 60%, segundo a GNR, no último ano, algo que o JN repete hoje na sua edição. Com mais rigor, o que se pode afirmar é que a GNR registou mais 60% de casos, sendo muito difícil extrapolar daí um aumento de maus-tratos na população. Os aumentos das estatísticas provenientes das forças da autoridade são passíveis de diversas leituras, uma das quais, nada despicienda, é uma maior proximidade com as vítimas. Ou seja, factores como uma maior facilidade de acesso às forças da PSP e da GNR traduzem-se, logicamente, em aumentos de participações, sem que isso queira dizer que a criminalidade, em si mesma, tenha aumentado. Por outro lado, como a violência doméstica é um fenómeno cujos contornos o tornam muito propenso a estar sub-representado nas estatísticas oficiais, as dificuldades de interpretar esses números num sentido ou noutro é virtualmente impossível.
A velhice, contudo, é um tema que suscita menos debates do que aqueles que deveria gerar. Suscita muitos incómodos e silêncios envergonhados. Um estudo da Universidade do Minho concluiu que quase 75% dos idosos afirmam terem sido vítimas de alguma forma de abuso, sendo a negligencia o principal. Esta estatística surpreendeu os investigadores e surpreende quem quer que lhe dê atenção por ser extraordinariamente alta. A nossa sociedade manifesta, justamente, a sua indignação sempre que conhece casos de abusos e negligência sobre crianças. Talvez esteja na altura de começar a pensar da mesma forma sobre o lugar e a atenção que dispensamos aos idosos. Até porque, tudo aponta, o seu número está em franco crescimento. De vez em quando seria bom que se equacionasse o envelhecimento da população noutros termos que não apenas nas consequências para os cofres da Segurança Social.
Publicado por Miguel Silva às 10:30 |
A anorexia nervosa não é uma doença que se possa simplesmente caracterizar por um “emagrecimento excessivo acompanhado por alterações repentinas de comportamento”. Trata-se de uma perturbação alimentar que se caracteriza, entre outros sintomas, por uma recusa em manter um peso normal para a idade e altura (situando-se aquele 15% abaixo do valor esperado), uma alteração da percepção da própria imagem corporal e influência desta na auto-avaliação, negação da seriedade do estado de emagrecimento, um medo intenso de ganhar peso e, nas mulheres, amenorreia (ausência de menstruação pelo menos 3 meses seguidos). Outros aspectos comuns costumam ser uma preocupação obsessiva com as quantidades calóricas dos alimentos e intensa actividade física. As mulheres constituem o principal grupo de vítimas desta perturbação. Aproximadamente, apenas um em cada dez pacientes é homem, embora já se tenham registado percentagens ligeiramente superiores.
Um valor de 18 na escala do Índice de Massa Corporal não é o valor recomendável, mas sim, quanto muito, o limiar mínimo do intervalo de valores considerado normal. Não é invulgar considerar o valor 20 como o limite mínimo normal aceitável. O IMC obtém-se dividindo o peso (em quilos) pelo quadrado da altura (em metros) e, por exemplo, um valor acima de 25 já representa excesso de peso. De qualquer forma, o IMC deve ser sempre ponderado com outras informações, como o historial de peso do indivíduo e a sua constituição física.
A palavra anorexia designa uma falta de apetite, o que não corresponde exactamente à situação que se verifica na AN. Nesta, existe um acto voluntário de privação de alimentos, no caso restritivo, ou a aplicação frequente de meios purgativos após ingestão de alimentos, a qual pode conhecer episódios de natureza compulsiva.
Analisar a AN apenas do ponto de vista da preocupação com a imagem corporal é um erro grosseiro e mistificador da doença. A AN é um problema de saúde sério e de difícil resolução. Qualquer pessoa com esta doença precisa de ajuda profissional qualificada para ultrapassar o seu problema. A percepção da imagem corporal surge distorcida como sintoma da doença e não como ideal de beleza, como muitas vezes se ouve dizer a este propósito. Muito embora as vertentes psiquiátrica e de endocrinologia sejam de extrema importância, os níveis psicológico e social são igualmente relevantes. Nessa medida, a AN relaciona-se com problemas de auto-estima e de insegurança. A fome voluntária e o emagrecimento prendem-se, sobretudo, com a necessidade obsessiva de controlo de uma área da vida.
A este respeito, proibir a participação em desfiles de modelos excessivamente magras, como se fez em Espanha, talvez seja uma medida eticamente correcta, mas que pouco pode fazer pelo estado de saúde das doentes e que, provavelmente, pouca influência terá no surgimento de novos casos. O enfoque mais acertado não é nos exemplos que se dá, mas nas pressões do meio envolvente e na capacidade do indivíduo para as gerir.
Publicado por Miguel Silva às 10:03 |
Friday, January 05, 2007
Estranho meio, este, em que nos inquietamos com pessoas que nunca vimos mas que queremos bem.
Publicado por Miguel Silva às 08:50 |
Thursday, January 04, 2007
A concentração na comunicação social - caso prático
Na apresentação do novo título, ontem em Lisboa, e mediante a pergunta do PÚBLICO sobre como ia conciliar a função de director do diário com a Bancada Central da TSF, Fernando Correia respondeu: “Fui despedido há duas horas da TSF”. Porquê? “Porque sou director do ‘Diário Desportivo’”. José Fragoso explicou que “não é compatível a direcção do jornal com as funções que Fernando Correia tinha na rádio” e que terá levantado a questão na TSF, rádio detida pela Controlinveste, a quem também pertence o desportivo “O Jogo”.
(via Adufe)
Publicado por Miguel Silva às 10:38 |
As listas
Para fazer listas do melhor e pior do ano são precisas duas coisas: um gosto pela elaboração das mesmas e uma memória razoável do que se viu, leu e ouviu nesse período de tempo. Ora, eu desconfio muito da primeira e tenho uma manifesta falta de vocação para a segunda.
Publicado por Miguel Silva às 10:31 |
Tuesday, January 02, 2007
O Sindicato dos Jogadores está a ver mal o recurso à greve. Esta tem efeitos negociais quando a eventual diminuição ou supressão de produtos e serviços prejudica gravemente o quotidiano económico e social. Se o futebol parar uma semana, ou duas, ou três, o país perde exactamente o quê?
Publicado por Miguel Silva às 16:19 |
A troca de argumentos entre o Paulo Gorjão e o João Pedro Henriques, a propósito das inexactidões de uma peça da autoria do segundo no DN, está a desenrolar-se em termos que, perdoe-se a sobranceria, me poupo de comentar por me parecerem incaracteristicamente inflamados. Porém, o substantivo da questão retém um interesse claro.
A comunicação social, hoje, é o meio por excelência de mediação da informação. É através dela que os cidadãos acedem aos acontecimentos da actualidade e elaboram as suas próprias leituras. Por esse motivo, e isto está longe de ser uma novidade, a comunicação social detém um poder e uma responsabilidade acrescidos pelo papel que desempenha. Os jornalistas devem ser os primeiros a reconhecê-lo, e costumam ser. Mas entre a teoria e a prática, neste caso, existem diferenças significativas.
O comportamento da comunicação social, obviamente, encontra-se limitado por diversas circunstâncias. Entre elas, a necessidade de actuar em tempo útil, o espaço e o tempo de relato reduzidos e a concorrência dos outros órgãos. Os trinta segundos de televisão ou meia página nos jornais não são suficientes para equacionar convenientemente as complexidades dos temas actuais, muito menos são espaço adequado para os explicar capazmente. O jornalismo vive muito da captação de atenção e do poder de síntese e de simplificação, o que, por vezes, resvala para sensacionalismo e simplismo. Existem, portanto, condições estruturais que colocam em risco a qualidade da prática jornalística, mas que não se esgotam apenas no que ficou dito anteriormente.
Uma análise mais incisiva deve levar-nos a perguntar em que condições se faz jornalismo em Portugal nos dias de hoje. Mais concretamente, quais as consequências do excesso de procura de emprego nesta área? Quais os vínculos laborais que se estabelecem? Quais são as políticas de contratação e de salários dos órgãos de comunicação social? Qual é a preparação que os futuros jornalistas recebem nos estabelecimentos de ensino superior que frequentam? Qual o nível de exigência? Qual é a cultura organizacional que lhes é incutida nas redacções?
Estas perguntas, já de si inconvenientes, têm por trás de si outras igualmente pertinentes que seria interessante ver esclarecidas. As faculdades estão minimamente preocupadas e pretendem adoptar alguma estratégia para debelar a fraca preparação dos novos candidatos a emprego nesta área? As políticas de salário baixo que se praticam aliadas ao excesso de oferta de mão-de-obra não têm como consequência uma perda de qualidade do trabalho jornalístico? Não existe uma preocupação excessiva de antecipação dos acontecimentos que coloca em risco a verificação dos factos e o cruzamento de informações? Os crescentes condicionalismos de tempo e de espaço não têm como principal consequência inviabilizar uma reflexão e um tratamento mais profundos?
Por tudo isto, é perfeitamente legítimo desconfiar das capacidades das redacções para monitorizarem convenientemente a qualidade do jornalismo que lá se pratica, assim como se pode desconfiar das capacidades de interpretação, de resistência à manipulação e de distanciamento das suas fontes de muitos jornalistas.
Isto são, enfim, problemas estruturais, interdependentes e que não se resolvem facilmente. Mas ao nível individual, ao nível das boas práticas, da ética, do zelo profissional, talvez seja possível fazer algo que assegure ou devolva a confiança dos leitores. Como, por exemplo, mesmo sem revelar nomes, dar a conhecer ao público a posição do jornalista perante uma fonte que se mostrou pouco fiável. Pelo menos, para que os leitores saibam se devem esperar deparar-se com muito mais notícias que tenham por origem a mesma fonte. Do que se pode pedir, parece ser o mínimo.
Publicado por Miguel Silva às 14:03 |
Thursday, December 28, 2006
Como não consigo ler o Glória Fácil, decidi dar um pulinho ao Blogue do Não. O Glória Fácil, por estes dias, é sobretudo a Fernanda Câncio. O Blogue do Não, já se sabe, é sobretudo um blogue contra a Fernanda Câncio. Lendo um, pensei eu, talvez conseguisse ficar com uma ideia do que se está a escrever no outro. Na realidade, contra as minhas esperanças, não resultou assim tão linearmente. A única certeza é que a caudalosidade e os tiques argumentativos dos autores do Blogue do Não conseguiram afugentar definitivamente o meu Christmas Spirit.
Publicado por Miguel Silva às 12:26 |
O meu computador decidiu, esta semana, que eu não tenho permissão para visualizar a página do Glória Fácil. Ainda não me tinha apercebido que tenho um PC pró-vida.
Publicado por Miguel Silva às 12:08 |
Wednesday, December 27, 2006
O Vaticano e a eutanásia (III de III)
Uma das bandeiras da Igreja Católica, nestes tempos de mudança de valores, tem sido a inviolabilidade da vida. Esta bandeira repercute-se, como tão bem sabemos, no tema do aborto e, mais distante da realidade nacional, no tema da eutanásia e da morte assistida. Quando se fala em eutanásia convém precisar aquilo a que nos referimos. Geralmente, sob a alçada do mesmo termo costumam confundir-se situações que diferem entre si nas suas características e nas suas implicações. As três denominações mais comuns são a eutanásia activa – na qual a morte do doente é deliberadamente provocada por outra pessoa –, a eutanásia passiva – que se caracteriza pela interrupção dos procedimentos que asseguram a manutenção da vida do doente – e o suicídio assistido – no qual é facultado auxílio ao doente para que este ponha, por si mesmo, termo à vida. Se os temas do aborto e da eutanásia aplicada a pessoas em estado de morte cerebral levantam questões complexas relacionadas com os momentos a partir dos quais se pode começar a falar ou se deve deixar de falar em ser humano, o suicídio assistido e a eutanásia aplicada a um doente consciente e na plena posse das suas faculdades mentais podem ser vistos a uma luz bastante diferente.
Assumindo que o indivíduo manifesta a intenção de pôr termo à vida na plena posse das suas faculdades, o problema apresenta-se sob uma óptica que se prende com a autonomia da escolha individual. Negar legitimidade a essa escolha é negar a liberdade de decisão do ser humano sobre o seu destino pessoal. A decisão de deixar de viver pode encontrar repercussões em terceiros, nomeadamente naqueles que são mais próximos da pessoa que o decide, mas, em última análise, é a manifestação de uma vontade com consequências directas apenas para o envolvido. Seria absurdo e desonesto não admitir que a morte de uma pessoa querida, mesmo que por sua vontade, não se repercute nos seus laços de família e amizade. Contudo, não se pode ignorar que existe um desejo manifestado por determinada pessoa e que este não é, em nenhum aspecto, mais egoísta do que o desejo de todos os que não querem ver-se privados do seu familiar ou amigo.
Quando a Igreja torna públicas as suas mais acesas críticas à eutanásia e ao suicídio assistido coloca-se do lado dos que, a pretexto da inviolabilidade da vida, violam a liberdade de escolha do indivíduo. A posição do Vaticano perante estas matérias representa uma forma de encarar o ser humano negando-lhe a sua individualidade. Colide frontalmente com o livre arbítrio e com a autonomia do indivíduo. No plano moral, a intransigência do Vaticano afasta-se das tendências cada vez mais consolidadas das sociedades modernas.
Mas nem só no plano moral se deve observar esta questão. Para o Vaticano, a morte é um assunto religioso. A moral que a Igreja prega é uma moral que assenta nas suas doutrinas de fé. Coloca-se aqui, portanto, um problema suplementar. A Igreja não pode substituir-se aos poderes legislativo, executivo e judicial. Tem de limitar-se, como todos os restantes grupos sociais, a contra-argumentar as suas razões em praça pública. Depois de séculos de hegemonia, tem agora de enfrentar oposição aberta, por vezes bastante activa e acutilante. Em todo o caso, nestes confrontos depara-se com um leque variado de interlocutores, desde interpretações católicas heterodoxas até concepções claramente anti-clericais. O Vaticano compete com outros grupos para manter ou fazer vingar a sua visão. Neste sentido, é razoável perguntar que legitimidade lhe assiste para querer impor essa visão a toda uma sociedade, incluindo os que não professam a sua fé, sobretudo quando essa visão pressupõe uma limitação da liberdade de escolha do indivíduo baseada numa moral de cariz religioso.
Se a violação da liberdade individual é um primeiro problema de desfasamento entre a Igreja e a sociedade moderna, o segundo é esta incapacidade para aceitar um lugar de menor destaque e de menor influência no seu seio. Não é certamente razoável pedir ao Vaticano que reconsidere as suas doutrinas e não cabe a outra entidade que não a própria Igreja definir se e quando o quer fazer. Mas é absolutamente justo que se exija da sua parte um maior respeito pelas diferentes formas de entender temas como a vida e a morte, os quais resultam exclusivamente de escolhas do foro pessoal.
Não se trata de suprimir a palavra da Igreja nem de negar-lhe um lugar na nossa sociedade. Acima de tudo, trata-se de defender o direito a escolher livremente sem constrangimentos impostos por um grupo específico. A Igreja tem todo o direito de achar que a vida é um dom de Deus inviolável. Qualquer pessoa tem igualmente o direito de discordar e de querer definir os limites da sua existência segundo os seus princípios pessoais de dignidade e de resistência ao sofrimento.
Publicado por Miguel Silva às 14:41 |
O Vaticano e a eutanásia (II de III)
Como a eutanásia tem cobertura legal em pouquíssimos países, sendo que Portugal e Itália não estão incluídos nessa lista, talvez faça sentido dizer que, em muitos casos, se levanta um problema jurídico. Mas as complicações não terminam aqui. A eutanásia é, antes de mais, um problema moral. Não surpreende, portanto, que as críticas mais violentas provenham ou do Vaticano ou de sectores da sociedade a ele ligados. O cristianismo católico, como, de resto, todas as grandes religiões, intersecta os seus princípios religiosos com princípios morais. O correcto relacionamento com Deus, para além da prática religiosa, depende igualmente da adopção de uma determinada linha de conduta moral.
A faceta doutrinária e dogmática da religião desemboca, com poucas excepções, numa generalização ilimitada dos seus princípios. A palavra católico significa, simplesmente, universal e remonta aos tempos em que os primeiros cristãos discutiam se a sua religião pertencia a todos ou se se destinava apenas a alguns eleitos. Por muitos diálogos ecuménicos que se tenham promovido no final do século XX, o Vaticano continua a considerar, essencialmente, que detém uma visão correcta, verdadeira e última de Deus, da religião e da humanidade. Nesse sentido, o proselitismo é-lhe intrinsecamente natural. Seria mesmo ingénuo admitir o contrário. Acontece que, se é certo que a influência judaico-cristã é a mais importante para o mundo ocidental, quer na sua duração quer nas mentalidades que forjou, também é verdade que a modernidade ocidental deve as suas bases ao secularismo, à separação entre a esfera da religião e as esferas do Estado, da Ciência e da Justiça e ao reforço da componente do livre arbítrio do indivíduo. Existe, pois, uma certa contradição entre aquilo que são os princípios que fundamentam a modernidade ocidental e os princípios que defende uma entidade como o Vaticano. A Igreja Católica criou, desde o início, uma estrutura profundamente dependente da autoridade hierárquica, a qual continua em vigor. É precisamente esta estrutura hierárquica e autoritária, da qual emanam as doutrinas, aliada à perda de influência junto da sociedade, que entra em rota de colisão com um indivíduo cada vez mais consciente da sua independência e do seu poder de decisão. Sem duvidar que todas as transformações sociais que a modernidade introduziu provocam muito mais dúvidas do que certezas e podem ser causa de um sentimento de perda de referências, não deixa de ser perfeitamente claro que o desfasamento actual entre o Vaticano e a realidade social dominante da modernidade ocidental constitui muito mais um factor de crise para o primeiro do que para a segunda.
Publicado por Miguel Silva às 14:40 |
O Vaticano e a eutanásia (I de III)
Na semana que antecedeu o Natal, Piergiorgio Welby, um italiano que padecia de uma doença degenerativa há décadas e se encontrava totalmente imobilizado, conseguiu fazer valer a sua vontade e ter ajuda para pôr termo à vida. O médico que o assistiu neste acto, ao contrário doutros casos semelhantes, veio a público defender a sua opção. Dessa decisão resultaram imediatamente críticas violentas de sectores profundamente hostis à eutanásia e ao suicídio assistido. Entre elas, pedidos para que o médico em questão seja julgado por homicídio. Consoante o posicionamento perante a eutanásia e o suicídio assistido, haver quem assuma a responsabilidade e as consequências de ter ajudado outra pessoa a morrer pode ser tido como um acto de uma desfaçatez sem medida ou de uma coragem exemplar. Pessoalmente, inclino-me para a segunda, o mais que não seja porque obriga a sociedade italiana, e as que lhe quiserem seguir o exemplo, a confrontar-se com um tema tão incómodo quanto actual.
Piergiorgio Welby, tal como Ramón Sampedro antes dele, tomou a decisão de morrer e pediu ajuda para esse efeito. Desde logo, podemos perguntar-nos se matar uma pessoa nestas condições pode ser considerado homicídio. Contribuir directa e voluntariamente para a morte de outras pessoas nem sempre é homicídio. Tal como tantas outras coisas nas nossas sociedades, a morte de outro ser humano é enquadrada no seu contexto para ser categorizada. Os militares que atiram sobre o inimigo numa guerra não são homicidas, os polícias que respondem a um tiroteio não são homicidas e, nos países onde ainda se pratica a pena de morte, a pessoa encarregue de accionar o dispositivo letal não é considerada homicida. As instituições que representam a sociedade dão a sua cobertura a cada um destes actos e alteram o significado de que se revestem. Contudo, o suporte de legitimidade legal comum a todos estes exemplos está inegavelmente ausente no caso Welby e isso vem contribuir seriamente para a complexidade das análises que se queiram fazer.
Publicado por Miguel Silva às 14:39 |
Saturday, December 23, 2006
Friday, December 22, 2006
Tuesday, December 19, 2006
O Lutz Bruckelmann e o Luís Januário debruçaram-se igualmente sobre o tratamento que tem sido reservado para Carolina Salgado. Reconheço facilmente, como o Lutz, que essas duas categorias – a traidora e a alternadeira – se reforçam mutuamente no imaginário dos seus críticos. Mas tendo a concordar sobretudo com a leitura do Luís Januário e a conferir maior peso à segunda do que à primeira. Para isto, basta que imaginemos que as denúncias eram feitas por outra pessoa, por exemplo, com um estatuto amplamente reconhecido. Muito dificilmente concedo que o tratamento fosse igual.
O principal problema moral, aqui, é que Carolina Salgado veio do bar de alterne, do submundo. É a sua condição social que preside às críticas que lhe lançam. Estas pessoas que agora dão largas ao seu desprezo só se deram ao trabalho de dissimular o seu asco enquanto ela teve um suporte para a sua ascensão social – a relação com Pinto da Costa. Assim que ele desaparece, volta a ser a mera alternadeira, que não tem o direito de nos aborrecer fora dos bares, muito menos relatar as inconfidências que ouviu. A delação não é bem vista, sobretudo quando põe em causa os poderes estabelecidos, mas o que chateia esta gente, acima de tudo, é que esta surja pela boca de uma alternadeira.
Publicado por Miguel Silva às 12:25 |

