“Os espanhóis, com o auxílio de monstruosidades sem exemplo, cobrindo-se de uma vergonha indelével, não conseguiram exterminar a raça índia, nem sequer impedi-la de partilhar os seus direitos. Os americanos dos Estados Unidos atingiram esse duplo resultado com uma maravilhosa facilidade, tranquilidade, legalmente, filantropicamente, sem efusão de sangue nem violação de um único dos grandes princípios da moral aos olhos do mundo. Seria impossível destruir os homens respeitando melhor as leis da humanidade.”
Alexis de Tocqueville
Este pequeno excerto, que Raymond Aron escolheu, entre outros, para ilustrar o pensamento de Tocqueville em “As Etapas do Pensamento Socológico”, estabelece, na sua fina ironia, uma crítica acutilante ao destino reservado para as nações índias nos EUA do século XIX. Mais do isso, demonstra como a admiração por certos traços de uma sociedade – e Tocqueville é sobretudo um admirador das sociedades anglo-americanas – pode e deve conviver com a crítica dura, sempre que esta se mostre justa. Nem admiração cega e incondicional, nem omissão das críticas adequadas.
Inseparável dos esforços de rigor e objectividade do filósofo e do cientista, a conduta de Tocqueville releva igualmente do mais puro exercício de pensamento livre que o Homem pode almejar. Liberdade esta que, paradoxalmente, tanto ao longo do século XX, como no início deste século XXI, foi e continua a ser cerceada pelos seus mais voluntariosos paladinos.
Friday, December 15, 2006
Wednesday, December 13, 2006
O presidente da FPF, Gilberto Madaíl, andou a dizer aos microfones da TSF que casos como o Apito Dourado eram maus para o futebol. Não são. O que é mau para o futebol é a corrupção e a deturpação da verdade desportiva. Casos como o Apito Dourado são a pequena centelha de esperança de que um dia as coisas venham a ser mais transparentes e justas.
Publicado por Miguel Silva às 23:43 |
Com alguma frequência, têm sido noticiadas intervenções das autoridades fiscais. Notícias destas, tal como quase todas as que focam aspectos criminais, funcionam como uma faca de dois gumes. Por um lado, criam a aparência de surtos de criminalidade. Por outro, criam a aparência de uma intervenção atenta e eficaz das autoridades. Obviamente, nenhuma destas duas aparências corresponde forçosamente à realidade. Antes, resultam mais das opções editoriais dos órgãos de comunicação social ou das agendas de grupos de interesse, com particular destaque para as partes envolvidas em cada assunto, desde as próprias autoridades aos diversos sectores de actividade económica.
Mas, no meio de todos estes véus que é preciso desvendar, resta saber um ponto muito importante, nem sempre acompanhado com igual mediatismo: saber o que se vai passar nos tribunais. Ou seja, de todo este aparato, quais são os resultados efectivos em sede de justiça? Sem uma conclusão dos processos, a noção de impunidade vai permanecer, se não sair mesmo reforçada.
Publicado por Miguel Silva às 12:01 |
Monday, December 11, 2006
Murió
As manifestações de celebração pela morte de alguém nunca são edificantes. Compreende-se que a morte possa estar associada a um sentimento de alívio – em diferentes acepções – mas a alegria parece sempre deslocada. Mesmo quando falamos de chefes de regimes tirânicos e sanguinários, há uma linha que não devemos ultrapassar sob pena de perdermos o que nos habilita a ser tão críticos com a desumanidade.
O que Pinochet fez ao Chile ultrapassa muito os resultados económicos e é por isso que querer conferir maior importância a estes do que eles realmente possuem é um exercício de utilidade duvidosa. Enquanto uma mão do regime dava rédea solta à economia, a outra asfixiava brutalmente as liberdades e os direitos cívicos. Os milhares de mortos e de torturados constituem um quadro suficientemente expressivo sobre o que foi o modus operandi da ditadura de Pinochet. Perante isto, o que se alcançou em termos económicos é não só uma pálida imagem, mas um aspecto de relevância perfeitamente marginal.
Mas para uma coisa servem as manifestações de ontem, as de pesar e as de celebração. Fica claro que os chilenos estão longe de concordar na apreciação do contributo de Pinochet para a sua História. O mito de um regime que trouxe largos benefícios para o Chile talvez nunca venha a desaparecer. Mas o mito de um Chile unânime, se alguma vez o tentaram erigir, acabou de cair por terra.
Publicado por Miguel Silva às 13:17 |
Monday, December 04, 2006
Talvez no último ano da sua vida, a par de outras obras intensas e desconcertantes, Caravaggio elege o seu auto-retrato para representar a cabeça decepada de Golias. Uma metáfora que se ultrapassa a si mesma: o sacrifício simbólico; a queda do gigante; a morte que ronda.
Publicado por Miguel Silva às 16:24 |
Friday, December 01, 2006
Para adeptos de futebol que apreciem um ou outro dos extremos da Segunda Circular, contando que não sintam uma particular simpatia pelo liliputiano marcador de penalties que alinha de águia ao peito:
O Merdinhas
Publicado por Miguel Silva às 02:45 |
Thursday, November 30, 2006
A propósito de se criar uma sala de chuto no Bairro do Charquinho, e por falar no CC Colombo, sinto uma certa curiosidade para saber o que pensam os seus responsáveis sobre o assunto.
Publicado por Miguel Silva às 15:22 |
A CML quer criar salas de chuto na cidade de Lisboa. Através do French Kissin’, venho a descobrir que pretendem instalar uma delas no Bairro do Charquinho, que se localiza em Benfica, paredes meias com o cemitério e a meio caminho do CC Colombo. O Bairro do Charquinho, como o JMF nota, é um bairro social, mas um bairro social antigo, com uma densidade populacional baixa, com uma população de idosos apreciável, com espaços verdes, com lugares de estacionamento (uma raridade em Benfica), com comércio e, acima de tudo, perfeitamente integrado nas vizinhanças da freguesia. O Bairro do Charquinho não é um gueto nem se encontra perdido no meio de uma colina, afastado dos lugares que se pretendem bem frequentados, como agora se constroem os bairros sociais. O Charquinho não era conhecido, e continua a não ser, por ser porto de abrigo de rufias, de criminalidade ou de tráfico de droga.
Quando se quer abrir uma sala de chuto tem que se chatear alguém. Quem tenha de ficar com ela à porta de casa provavelmente não vai simpatizar muito com a ideia. Mas o problema neste caso é que o Charquinho não tem qualquer relação com a realidade da toxicodependência. Em Lisboa, desde há muito tempo, a droga compra-se preferencialmente no Casal Ventoso e na Curraleira. Existe droga um pouco por toda a cidade, mas o grosso do tráfico tem lugar nesses dois sítios. Os concelhos limítrofes de Lisboa também possuem zonas onde o tráfico e consumo de drogas assume especial relevo. Mas, em ambos os casos, estamos a falar, sobretudo, de zonas degradadas onde grassa a exclusão social em quase todas as suas vertentes.
Sendo a freguesia de Benfica uma das que confina o concelho de Lisboa, acaba por conhecer bastante bem essa realidade. Mas o Charquinho e as suas zonas circundantes, apesar de geograficamente próximas, encontram-se, na verdade, relativamente fora destes circuitos. Colocar o Charquinho no circuito da toxicodependência é uma decisão desprovida de sensatez e, arrisco dizer, de conhecimento de causa. As salas de chuto fazem sentido e são necessárias onde existe consumo. Se são uma tentativa de criar uma ferramenta que facilite a reintegração dos toxicodependentes e que diminua os riscos associados ao consumo, precisam de estar perto daqueles que querem ajudar. E esse lugar não é o Bairro do Charquinho.
Publicado por Miguel Silva às 15:15 |
Wednesday, November 29, 2006
E se, em vez de quererem importar modelos de legislação laboral e de proteccção social da Dinamarca, nos exportassem a todos para lá? Assim como assim, beneficiávamos todos do know-how e da experiência que os dinamarqueses já possuem e poupavam-se aquelas pequenas chatices de não termos nem a mentalidade nem o dinheiro necessários para avançar com isto de uma forma séria.
Publicado por Miguel Silva às 11:35 |
Tuesday, November 28, 2006
Monday, November 27, 2006
No dia do seu 91º aniversário, Augusto Pinochet fez saber que os actos cometidos pelo seu regime ditatorial foram motivados pela lealdade ao seu país. Admitamos que sim. Afinal, já Adolf Hitler acreditava no mesmo. Este é o problema quando se colocam noções abstractas acima de tudo o resto. Enquanto Pinochet se preocupava com o Chile, preteriu os chilenos, assim como Hitler preteriu os alemães em função de um ideal de Alemanha.
No Chile de Pinochet e na Alemanha de Hitler privilegiou-se o conceito abstracto de Nação. Por outro lado, nos nossos dias, o conceito abstracto mais frequentemente idolatrado é a Economia. Nesta perspectiva, tudo se resume a números e a Economia e o desempenho económico acabam por ser um fim em si mesmos.
Evidentemente, tanto num caso como noutro, escapa-lhes o essencial: as pessoas.
Publicado por Miguel Silva às 17:50 |
Friday, November 24, 2006
No Blogo Existo, o talento inesgotável de Michelangelo Merisi da Caravaggio e o liberalismo tal como foi defendido por alguns dos seus mais influentes teóricos. Duas sequências a acompanhar atentamente.
Publicado por Miguel Silva às 16:19 |
A TV Cabo avançou com uma campanha publicitária um tanto ou quanto idiota para promover os seus serviços a um preço, supõe-se, muito apetecível. Neste momento, há quem se esteja a preocupar com a ameaça aos valores familiares que a campanha representa. É um facto que a publicidade tem o poder de influenciar estilos de vida, mas não me parece que seja este o caso. A ideia, em si, não é das melhores, mas percebe-se que funcione mais pelo ridículo da situação do que por outra coisa qualquer. Se quisermos, mesmo assim, tomá-la à letra e aceitarmos que, por exemplo, um casal se possa separar porque o marido não assina a TV Cabo, temos de reconhecer que este casal não é capaz de comunicar sobre os assuntos mais banais de uma existência em comum e talvez não deva estar junto de todo.
Mas existe um outro aspecto que não tem recolhido a atenção destas mentes tão preocupadas com a fragilidade das relações conjugais dos portugueses. A responsabilidade de assinar o serviço TV Cabo pertence exclusivamente ao marido porquê? A mulher não tem emprego? Não tem conta bancária? Não tem independência e autonomia financeira? Não é ouvida em casa? Não tem voto na matéria?
As campanhas publicitárias são desenvolvidas por agências, levadas a cabo por produtoras e aceites ou recusadas pelo cliente final. Ou seja, há muita gente envolvida. Esta em particular até está a merecer o destaque de ser alvo de críticas em alguns blogues. No meio de toda esta gente, ninguém se sentiu demasiado incomodado com a subalternização explícita do lugar da mulher nas decisões do casal, o que se revela um excelente indicador do tipo de mentalidade reinante. E não se trata de uma especulação sobre os efeitos sociais nefastos de um determinado anúncio; é a constatação de um traço cultural tão dominante que surge como natural e nem sequer é questionado.
Publicado por Miguel Silva às 12:51 |
Thursday, November 23, 2006
Tuesday, November 21, 2006
Regressou a chuva. Excelente. Já estava cheio de saudades das tardes escuras.
Publicado por Miguel Silva às 15:12 |
Monday, November 20, 2006
Lendo o que se vai escrevendo nos blogues, pergunto-me se alguém já terá alterado uma opinião formada sobre algum dos assuntos mais quentes que se vão ciclicamente discutindo após se ter envolvido numa troca de argumentos. De uma tal interrogação pode parecer que existe uma crítica implícita aos blogues como forma de discussão, mas não é tanto o caso. A blogosfera, ou o bloguismo, se se preferir, funciona como um meio de excelência para a comunicação. Porém, talvez a sua maior valia se encontre mais depressa nos debates reflectidos, moderados e tendencialmente mais lentos do que na vertigem das polémicas apetitosas e das respostas previamente formatadas. As audiências são sempre uma ameaça à elaboração dos conteúdos, independentemente do meio de que estejamos a falar.
Publicado por Miguel Silva às 14:38 |
Sunday, November 19, 2006
Fraca memória
Pacheco Pereira quer agora convencer os seus leitores que a subida ao poder de Santana Lopes foi aclamada por certas alas do PS. E pergunta se nos lembramos. Eu não me lembro, há mais quem não se lembre, mas Pacheco Pereira esclarece que se não nos lembramos é porque ninguém se quer lembrar. Estas ratoeiras retóricas merecem pouco apreço. Trata-se de manipulação de consciências de baixo nível e Pacheco Pereira já nos habituou a bastante melhor.
Lembrar, lembrar, lembro-me de quando o Abrupto publicava textos a desmascarar o estilo de argumentação de blogues como o Muito Mentiroso: uns pozinhos de verdade, para não se estranhar demasiado, e muita mentira à mistura.
Pedro Santana Lopes construiu carreira política no interior e com a complacência do PSD. Foi dirigente político pelo PSD, foi secretário de estado pelo PSD, foi autarca pelo PSD e foi primeiro-ministro pelo PSD. Foi aclamado em congresso pelo seu partido para que o PSD não corresse o risco de deixar o poder em eleições antecipadas. Se alguém serviu de suporte a Santana Lopes, esse alguém foi indiscutivelmente o PSD. Dizer que a entronização de Santana Lopes foi bem recebida pelo PS não só é falso, como constitui uma manobra deliberada de reconstrução do que aconteceu nesses dias.
Publicado por Miguel Silva às 12:25 |
Talvez tudo isto não parecesse tão mau se o Benfica não andasse a encaixar aos três golos de cada vez que perde.
Publicado por Miguel Silva às 11:56 |



