No centro histórico de Zamora, onde se assinou o Tratado homónimo que reconheceu a independência de Portugal, situa-se uma rua que dá pelo nome de Calle del Magistral Error. Ainda não consegui confirmar se uma coisa tem a ver com a outra, mas, até que me provem o contrário, vou continuar a pensar que sim.
Thursday, October 05, 2006
Dizer que Correia de Campos tem maior "tendência para falar de mais e para se colocar em apuros" do que, por exemplo, Manuel Pinho, é perfeitamente peregrino.
Publicado por Miguel Silva às 11:27 |
Este post do Bloguítica tem uma dose de ingenuidade considerável e bastante invulgar no Paulo Gorjão. Pode não se concordar com as ideias de Correia de Campos para a Saúde, mas não se pode negar que o actual Ministro é um dos maiores conhecedores desse sector no país. Não se poderá dizer exactamente o mesmo sobre Jorge Coelho. Aliás, Jorge Coelho é, e tem sido desde há muito tempo, o homem do aparelho, a eminência (pouco) parda do PS.
Encerrar serviços nunca é uma medida capaz de gerar muitas simpatias junto das populações mais directamente afectadas por esse encerramento. Os autarcas sabem interpretar esse sentimento. Mais, sabem que os seus municípios não perdem apenas simpatias políticas. Perdem capacidade de atracção ou de manutenção de habitantes. É natural que estes factos gerem desagrado e a pessoa ideal a quem o manifestar, dentro do PS, é Jorge Coelho.
Publicado por Miguel Silva às 11:25 |
Encontra-se em discussão pública uma proposta para alterar o Serviço de Urgências. Segundo os critérios da comissão encarregue de elaborar a proposta, o novo modelo racionaliza os recursos existentes e estabelece valores de tempo de acesso a um ponto do Serviço de Urgência mais baixos, aproximando-se dos valores de referência internacionais.
Contudo, as quase 40 páginas da proposta conseguem não referir uma única vez os tempos de espera médios em cada Serviço de Urgência. Ou seja, prevê-se quanto tempo levam os doentes a chegar ao serviço, mas não se menciona quanto tempo esperam para ser efectivamente atendidos. Como é bom de ver, prestar atenção a uns e não a outros é completamente desprovido do mais básico bom senso.
Por outro lado, ao afirmar-se a racionalização dos recursos como um dos objectivos prioritários, parece estranho, no mínimo, que não se refiram as implicações económico-financeiras desta proposta. De facto, parece existir uma preocupação em depurar a proposta de tudo o que a possa apresentar como uma medida de carácter economicista. A ausência destas referências é tão notória que acaba por suscitar maior curiosidade, e dúvida, do que se elas lá constassem.
Publicado por Miguel Silva às 10:49 |
Monday, October 02, 2006
À espera
Após quase duas horas sem a médica aparecer, a sala de espera do Centro de Saúde começou a impacientar-se. Os comentários do costume subiram de tom progressivamente: “que era inadmissível, que era uma falta de respeito, que é sempre a mesma coisa, que a culpa é dos sindicatos, que é do governo, etc.”. Pelo meio não faltou quem assegurasse que o atraso se devia ao facto de os utentes do Centro de Saúde estarem, naquele preciso momento, a ser preteridos pelos utentes do consultório particular que a senhora doutora mantinha a poucos quarteirões de distância. Foi nesse momento que uma das pacientes mais críticas desabafou: “Se fossemos nós fazíamos o mesmo, não é?”.
Se a médica estava atrasada por se encontrar no consultório particular quando devia estar no Centro de Saúde ou se houve algum lamentável imprevisto não se sabe ao certo. Se foi pelo primeiro motivo, o seu profissionalismo está muito aquém do que é de esperar, sobretudo num profissional de saúde, devido às inerências específicas deste meio. Se for este o caso, para além do mau profissionalismo demonstrado, fica por saber que tipo de consequências acarreta este comportamento, se é que acarreta alguma consequência. Fica por saber, portanto, que mecanismos de responsabilização existem e se são efectivamente postos em prática, ou se tudo passa impune.
Mas o que é, talvez, o ponto mais interessante deste pequeno episódio é aquele incrível comentário feito por uma das utentes na sala de espera. Um comentário daqueles muda completamento a perspectiva para compreender o que se passou naquela tarde. A falta perante um compromisso de trabalho é mais do que a ausência de escrúpulos de uma pessoa e é mais do que a incapacidade de punir devidamente esses actos. Este caso mostra que a irresponsabilidade e a desresponsabilização alastram a todos os vértices do sistema, incluindo os seus utentes.
Maus profissionais há um pouco por todo o lado, em todas as profissões. Há-de continuar a ser assim, embora se possa desejar, com toda a legitimidade, que essa realidade venha a diminuir. Mas aqui há mais do que maus profissionais. Há, sobretudo, um problema generalizado de cultura cívica. A mulher da sala de espera é um exemplo de uma forma de estar que compactua com o estado das coisas, com o desrespeito pelos direitos dos outros e com os aproveitamentos ilícitos. Este tipo de pessoas não se indigna quando estão a ser cometidas injustiças. Indigna-se quando estas os afectam directamente. E, no seu íntimo, lamentam não ter a oportunidade de poder fazer o mesmo.
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Houve também quem tenha dito que se toda a gente reclamasse, as coisas não se passariam assim. O livro de reclamações, que todos os serviços públicos estão obrigados a disponibilizar, continha, até àquela data, apenas três reclamações. Depois daquela tarde passou a contar com mais uma, mas não graças a nenhuma das pessoas que se mostravam aparentemente tão indignadas. Nem mesmo àquela que achava que se todos reclamassem, as coisas seriam diferentes.
Publicado por Miguel Silva às 22:10 |
Sunday, October 01, 2006
Existe a identidade social desacreditável e existe a identidade social desacreditada. E, depois, existe o tapar o Sol com a peneira.
Publicado por Miguel Silva às 14:37 |
Saturday, September 30, 2006
Juízos de facto iguais. Juízos de valor diferentes
Os escravos viviam melhor que os trabalhadores livres.
vs.
Os trabalhadores livres viviam pior que os escravos.
Em termos académicos, estas duas afirmações equivalem-se e têm um peso neutro. Em termos políticos, têm conotações muito diferentes e encontram-se muito longe de qualquer resto de neutralidade que tenha existido.
Publicado por Miguel Silva às 12:45 |
As comparações têm muito que se lhe diga. Robert Fogel não era defensor da escravatura, limitou-se a tentar demonstrar que as condições materiais dos escravos do Sul dos EUA eram melhores que as dos trabalhadores industriais do Norte. Com o artigo da Wikipedia, que João Miranda usa para defender Pedro Arroja, como ponto de referência, pode ainda ler-se o seguinte:
"In fact, Fogel objected to slavery on moral grounds; he thought that on purely economic grounds, slavery was not unprofitable or inefficient as previous historians had argued, such as Ulrich B. Phillips. A survey of economic historians concludes that 48 % "agreed" and another 24 % "agreed with provisos" with Fogel and Engerman's argument that "slave agriculture was efficient compared with free agriculture." In addition, 23 % "agreed" and 35 % "agreed with provisos" with their argument that "the material (rather than psychological) conditions of the lives of slaves compared favorably with those of free industrial workers in the decades before the Civil War.""
Isto é bastante diferente do que Pedro Arroja afirmou na sua entrevista:
"O homem que ganhou o prémio Nobel, este ano, Robert Fogel, provou que se o sistema da escravatura era politicamente inaceitável, em termos económicos, para os negros, era um sistema muito eficaz."
Recorrendo à dicotomia que o próprio João Miranda propôs, resulta que a afirmação do Pedro Arroja é um juízo de valor e não um juízo de facto. Juízo de facto será afirmar que os trabalhadores escravos viviam com melhores condições materiais do que os trabalhadores industriais. Falta dizer, claro, que um juízo de facto carece de confirmação ou infirmação.
Contudo, dizer que um sistema é "muito eficaz" já comporta uma componente valorativa, uma vez que é necessário definir, subjectivamente, a partir de que ponto se aceita a categorização "muito". Se Fogel realizou bem o seu estudo, pode aceitar-se que os escravos, em termos estritamente económicos, viviam melhor que os trabalhadores livres. Mas talvez seja mais difícil concluir que vivessem bem. Muito provavelmente, se quisermos reverter o juízo de valor, este facto indica, antes, um nível de vida perfeitamente miserável para os assalariados. Coisa que, de resto, não é propriamente uma grande novidade.
Publicado por Miguel Silva às 00:57 |
Thursday, September 28, 2006
Cumprem-se hoje 28 anos após a morte do Papa João Paulo I, Albino Luciani, em circunstâncias, digamos assim, no mínimo estranhas. Uma página da História que não se vê visitada muitas vezes.
Para uma pequena introdução às estranhas circunstâncias que rodearam a morte de João Paulo I podem consultar-se, inevitavelmente, as páginas da Wikipedia:
em português – para uma maior atenção às teorias de assassinato desenvolvidas por David Yallop
em inglês – para uma maior atenção às teorias de morte natural desenvolvidas por John Cornwell
Teorias da conspiração à parte, que têm o condão de ser muito interessantes para ocupar a mente mas que podem facilmente desviar-nos do essencial, vale a pena consultar também a página da Wikipedia dedicada a Paul Marcinkus, presidente do Banco do Vaticano entre 1971 e 1989 e falecido a 20 de Fevereiro deste ano. Nomeadamente, vale a pena conhecer as nobres personagens que gravitavam em torno deste clérigo. Material de qualidade muito superior aos romances de John Grisham.
Publicado por Miguel Silva às 15:47 |
Wednesday, September 27, 2006
Sem alterar a sua posição, a Igreja parece disposta a mudar a sua estratégia numa repetição do referendo do aborto. Com um PS livre das dúvidas existenciais de Guterres, o espaço para o 'sim' aumenta significativamente. Desde que alguém se empenhe em fazer uma campanha séria nesse sentido. Mesmo que a Igreja, oficialmente, adopte uma postura de segunda linha, não é de crer que venham a ser apenas os "leigos, os pais de família e os médicos a liderar a campanha do 'não'", como deseja D. José Policarpo.
Publicado por Miguel Silva às 23:00 |
O mundo ao contrário
A 12 de Junho de 2000, o Rio de Janeiro assistiu ao que se tornaria um dos sequestros mais documentados de sempre, o qual terminaria de forma trágica, com a morte de uma das reféns e do próprio sequestrador, este às mãos da polícia, dentro de um carro de transporte, quando era já encaminhado para a esquadra. Dois anos mais tarde, as intermináveis horas de directo que as televisões emitiram naquele dia foram enriquecidas com um lote de entrevistas a pessoas directa ou indirectamente relacionadas com os acontecimentos e com a vida do sequestrador, dando origem ao documentário Onibus 174, da autoria de José Padilha.
Padilha não se limita a descrever exaustivamente os acontecimentos de 12 de Junho. Mais do que isso, estabelece uma biografia de Sandro Nascimento – o sequestrador – e um retrato amplo do que são o sistema policial, o sistema judicial, o sistema prisional e o sistema social do Brasil, em geral, e do Rio de Janeiro, em particular, para enquadrar o tema da violência urbana nos países em desenvolvimento. Este retrato resulta muito crítico e evidencia algumas questões incontornáveis. Alguns especialistas entrevistados referem o fenómeno da violência urbana e da marginalidade como fruto de uma estratégia de visibilidade desenvolvida pelos excluídos. Numa sociedade que se recusa a conceder-lhes espaço, que se recusa a encará-los e que chega a agradecer o trabalho sujo desempenhado pelos esquadrões da morte, como o que actuou no massacre da Candelária (do qual Sandro Nascimento foi um dos sobreviventes), a violência é a forma que as crianças e os adolescentes sem-abrigo encontram para ganhar reconhecimento. Trata-se de uma estratégia de afirmação puramente negativa, destinada a funcionar pelo choque que não pode deixar de causar. Mas o aspecto porventura mais interessante que o documentário de Padilha revela é uma igualmente brutal ausência de esperança para os excluídos. Não só não têm lugar, não só não têm visibilidade, como enfrentam forças policiais, tribunais e sistemas prisionais que atingem uma desumanidade atroz. O destino de muitos condenados são celas de prisão com menos de 20 m2, onde se chegam a amontoar mais de 50 presos, em espaços quase desprovidos de luz natural e onde a temperatura ambiente ultrapassa quase sempre os 40º. As instituições de reinserção, para onde são enviados os menores, são locais de violência generalizada, quer seja entre os jovens, quer seja pelos abusos sobre eles cometidos pelos profissionais que lá trabalham. Estas instituições não só não têm qualquer vocação de reinserção como funcionam como escolas de criminalidade e de marginalidade. O nível de corrupção e de violência gratuita das forças policiais é assustador e os tribunais incorporam muito menos o espírito de justiça do que os preconceitos sociais vigentes. Entrar neste sistema significa nunca mais sair dele. O túnel não tem nenhuma luz ao fundo e o caminho é sempre a descer.
O documentário de José Padilha tem ainda o mérito de conceder uma identidade ao sequestrador, resgatando-o dos preconceitos e dos juízos pré-formatados. Existe uma vida, uma biografia, por detrás da adjectivação rápida. Sandro Nascimento – o sequestrador, o criminoso, o toxicodependente, o marginal – é, antes de uma colecção de epítetos, um ser humano com uma história, com um trajecto, com um meio envolvente onde cresceu, sem o qual qualquer análise deixa de fazer sentido. O último dia de vida de Sandro Nascimento não é o resultado simples das acções de um louco ou de um drogado. É a soma de um conjunto de circunstâncias e de acções de diversos protagonistas.
A vida e morte de Sandro Nascimento são objecto de problematizações e de teorias, mas não são, em si mesmas, uma problematização nem uma teoria. Dos muitos disparates que Pedro Arroja lançou naquela entrevista publicada há mais de uma década, uma boa parte deles tem o mesmo fio condutor, que é redução da realidade social a uma teoria. A visão de Pedro Arroja sobre o mundo e o Homem ilustra uma forma de observar a realidade como se através de um prisma, decompondo-a sem nunca voltar a juntar as suas diversas partes constitutivas. Tudo se resume ao livre arbítrio do indivíduo e a uma teórica igualdade de circunstâncias. O social surge, nesta forma de o encarar, como desprovido de interdependência entre os seus membros, como se as acções de uns não fossem relevantes para a conduta de outros, como se as oportunidades fossem iguais para todos, como se o jogo não estivesse viciado, aliás, como se o jogo não fosse, sequer, passível de ser viciado.
Mais ainda, esta forma de encarar o mundo revela um princípio moral que coloca a teoria num patamar infinitamente superior àquele em que coloca as pessoas. O que acontece efectivamente às pessoas, as condições objectivas de existência que possuem, não têm qualquer relevo perante a importância concedida à teoria. A miséria e a ausência de dignidade humana são danos colaterais aceitáveis, desde que, globalmente, a economia, por exemplo, tenha um bom desempenho. O que este raciocínio não reconhece – e o que acaba por ser o seu maior sofisma – é que as teorias, ao contrário das pessoas, são meros exercícios de raciocínio abstracto, totalmente intangíveis. Não são as pessoas que devem trabalhar e sacrificar-se para o bom funcionamento da economia. É o bom funcionamento da economia que deve trabalhar para o bem-estar dos indivíduos. A Humanidade não é uma soma de indicadores e a dignidade do ser humano nunca poderá deixar de ser um factor absolutamente prioritário.
Publicado por Miguel Silva às 16:59 |
Tuesday, September 26, 2006
Barrigadas de riso, ou um guia de bolso para a indigência mental. Em qualquer dos casos: imperdível, do princípio ao fim.
Publicado por Miguel Silva às 15:24 |
Em duas semanas, o novo semanário Sol conseguiu ganhar o mesmo espaço nos meus hábitos de leitura que reservo ao Expresso. Todos os sábados lhes leio a primeira página na banca de jornais enquanto compro o DN.
Publicado por Miguel Silva às 13:02 |
Monday, September 25, 2006
O perigo de estar muito tempo longe dos blogues é que se descobre que é possível estar muito tempo longe dos blogues. Que até é fácil. Que até é bom.
Publicado por Miguel Silva às 17:09 |
Friday, September 22, 2006
Menos que os outros
"Tens que te baptizar, filho, porque tu não és menos que os outros.", disse a anciã.
Publicado por Miguel Silva às 22:56 |
Wednesday, September 20, 2006
Interrompo esta pequena interrupção para atender ao pedido da equipa do Blogame Mucho e dar notícia que, por razões alheias à sua vontade, esta pode actualmente ser encontrada no seguinte endereço:
www.chumo.blogspot.com
Para os mais desatentos ou desinformados, o Blogame Mucho celebrou o terceiro aniversário em Agosto (ao qual eu lamentavelmente faltei) e é um dos melhores blogues na nossa praça. Em tudo. Quem disse? Digo eu. Agora ide e confirmai por vós mesmos.
Publicado por Miguel Silva às 12:02 |
Wednesday, September 13, 2006
O Verão acabou. Menos pela falta de Sol do que pelo cheiro a Outono que já paira no ar.
Publicado por Miguel Silva às 13:06 |
Sunday, September 10, 2006
Micro-causa
Deixem sair o Rui Costa em Dezembro. O homem não merece passar pelas desgraças que esperam o resto da equipa esta época.
Publicado por Miguel Silva às 15:06 |
Thursday, September 07, 2006
In a little while
This hurt will hurt no more
U2, In A Little While
Publicado por Miguel Silva às 22:13 |
Cavaco está a cumprir seis meses de mandato. Quer dizer que restam quatros anos e meio. Não é animador, mas já foi pior.
Publicado por Miguel Silva às 19:35 |
O cristianismo gnóstico característico dos primeiros séculos da nossa era caracterizou-se por uma forte componente de diversidade e complexidade. Dos diferentes mitos de criação do mundo que os gnósticos professavam, alguns deles descreviam a criação do universo como um erro cósmico que teria tido origem nas acções de uma entidade divina – a Sabedoria – subordinada ao verdadeiro Deus.
Por seu lado, o livro do Génesis, adoptado como escritura sagrada pelo judaísmo e pelo cristianismo, relata um mito com algumas semelhanças. A desgraça de Adão e Eva dá-se após Deus descobrir que provaram o fruto da árvore da ciência do bem e do mal; e é por possuírem esse conhecimento que são castigados com a expulsão do paraíso.
As religiões cumprem, entre outras, a importante função de criar um conjunto pré-ordenado de imperativos morais. Isto pode ser bastante útil, uma vez que é bastante mais fácil cumprir e fazer cumprir um mandamento emanado por Deus do que gastar tempos indeterminados a fundamentar a sua justiça.
Por muito que se possa discordar das visões do mundo que as religiões têm para oferecer ou do seu proselitismo, a liberdade religiosa é hoje, justamente, um direito inquestionável. Mas, apesar disso, não deixa de ser conveniente desconfiar de credos que parecem guardar tantas reservas contra os caminhos autónomos para o conhecimento.
Publicado por Miguel Silva às 19:33 |
O Gil Vicente quer contestar nos tribunais o alegado interesse público do campeonato nacional de futebol invocado pela FPF. Assim de repente, não me ocorre melhor exemplo de algo que não tem absolutamente nenhum interesse público do que o nosso campeonato de futebol. Qualquer estagiário há-de conseguir provar isso sem sequer ter de se aplicar a sério.
Publicado por Miguel Silva às 17:59 |
Monday, September 04, 2006
Revigorado é um manifesto exagero. Com outra disposição, digamos assim. Mas também isso muda. Tudo muda.
Publicado por Miguel Silva às 15:16 |
Sunday, September 03, 2006
O que importa reter no amor é a noção da sua mortalidade. "Grandes amores" existem muitos ao longo de uma vida. O trabalhoso empenho que os faz perdurar é que se mostra extraordinário.
O mal que os ideais românticos trouxeram ao amor ainda não foi devidamente denunciado, muito menos expurgado, como é necessário e imprescindível que se venha a fazer.
Publicado por Miguel Silva às 17:30 |
Saturday, September 02, 2006
A posição da FIFA pode, até, ser entendida como um acto radical de chantagem para atingir os seus propósitos mais imediatos que passam pela manutenção do actual equilíbrio de poder que lhe é tão favorável. Compreende-se que as pessoas ligadas aos organismos que tutelam o futebol assumam um discurso que legitime essas pretensões. Afinal, fazem parte do mesmo sistema. Mas já se entende menos essa postura em jornalistas e comentadores que não pertencem a esses circuitos. O que se tem ouvido com frequência é uma defesa das normas da FIFA por serem normas e não por serem legítimas ou justas. Pode dizer-se que qualquer clube envolvido nestas competições tem por obrigação conhecer os regulamentos, mas isso é uma questão secundária. O tema principal, o cerne de todo este imbróglio, é o jogo de relações de poder e a legitimidade dos organismos e dos seus regulamentos. As análises sérias e consequentes deviam estar a centrar-se nestes aspectos e não no circo que os envolve e que ilude o essencial.
Publicado por Miguel Silva às 12:45 |
Se a FIFA decidir suspender a selecção nacional das competições em que se encontra envolvida, sempre nos vai poupando à tristeza de assistir a derrotas com qualquer conjunto de onze cepos louros com pernas que nos defrontem. Apesar disto, escapa a qualquer lógica de justiça, pelo menos na forma como esta é entendida nos últimos 200 ou 300 anos, que se castigue uma pessoa ou entidade por uma prevaricação cometida por outrem. A decisão do Gil Vicente de recorrer aos tribunais é da exclusiva responsabilidade do clube e apenas a ele assiste o direito e capacidade de a inverter. Assim, castigar qualquer outra entidade que não o Gil Vicente assume contornos draconianos que não têm correspondência com o entendimento da aplicação da justiça moderna.
A FIFA parece exigir da FPF um castigo exemplar para o clube de Barcelos. É de crer que Blatter tenha explicado a Gilberto Madaíl o que entende por isso, embora os critérios específicos não tenham transpirado para a comunicação social. Para os leigos e para os menos sintonizados com as sensibilidades destes organismos, um castigo exemplar pode assumir diversas formas, desde despromoções de divisão até à irradiação definitiva de todas as competições sob a alçada da FPF, pelo que seria interessante que alguém pudesse avançar com mais alguns pormenores para se saber o que está em causa.
Importa ainda, e talvez seja este o aspecto não desportivo mais relevante deste caso, saber onde se situam as fronteiras de competências entre os organismos que tutelam o desporto e o sistema judicial de um país. Para isso, é fundamental definir rigorosamente o âmbito das questões a apreciar. Interessa, acima de tudo, definir com o maior grau de precisão possível o que são as situações que, no actual sistema regulamentar, apenas dizem respeito aos organismos desportivos e as que são passíveis de recurso para o sistema judicial. Tal como é fundamental aferir se o sistema regulamentar em vigor possui legitimidade ou se contém obrigações abusivas que extravasam largamente os direitos, liberdades e garantias que estão consagrados na maioria das legislações democráticas.
E importa definir os termos destes procedimentos porque, se por um lado ninguém está interessado em ver os tribunais levarem 3 anos a decidir se um cartão amarelo foi bem mostrado ou se um jogador se encontrava em fora de jogo quando marcou um golo, por outro lado o acesso à justiça é um direito reconhecido e inalienável, o qual não pode ser posto em causa por um conjunto de regulamentos emanados por um organismo sem qualquer poder para decidir nessas áreas.
A posição da FIFA entende-se, pois muito se encontra em risco para esse organismo. Se o Gil Vicente percorrer todo o caminho dos tribunais, podemos estar perante uma nova situação em que um tribunal europeu venha a decidir contra os regulamentos da FIFA. O curioso desta situação é que, tal como a FIFA pretende, se a FPF vier a castigar exemplarmente o Gil Vicente, quanto maior o castigo, maiores as probabilidades de o clube continuar o percurso que iniciou no sistema judicial. Como é bom de ver, quanto menos ligações uma entidade mantiver com um sistema, quanto mais afastada ou excluída, maior o grau de liberdade para agir sem quaisquer constrangimentos. Em última análise, quer estejamos a falar de pessoas ou de organizações que partilham um sistema de interacção privilegiada, a vida em comum funciona porque existe um conjunto de direitos e obrigações, muitas vezes tácitos, aos quais os membros se sujeitam porque é legítima a expectativa que os outros também os respeitem. A partir do momento em que se quebre este elo, a escalada no extremar de posições é um cenário muito real.
Publicado por Miguel Silva às 12:20 |
Thursday, August 31, 2006
A força retórica de um argumento não deve ser confundida com as realidades práticas que comprometem a sua lógica
"Dentro de los círculos proto-ortodoxos empezó a hacerse cada vez más énfasis en la necesidad de una estricta jerarquía de autoridad, en la cual el obispo supervisaba el trabajo de presbíteros y diáconos (…), y en lo importante que era garantizar que sólo se permitiera el acceso a esta dignidad a aquellos que entendieran la fe de la manera adecuada. Las habilidades administrativas eran muy valiosas, pero un correcto entendimiento de la Verdad era una condición sine qua non. En el curso de esta evolución, Ireneo, Tertuliano y sus sucesores emplearon el argumento de la «sucesión apostólica» para responder a cualquier afirmación de los gnósticos u otros a propósito de la verdad: nadie excepto los obispos nombrados por los herederos de Cristo podía tener razón sobre las preciosas verdades de la fe.
El argumento sobrevivió incluso al incómodo hecho de que para los siglos II y III ya existían obispos – incluidos obispos romanos – que habían sido declarados herejes por teólogos proto-ortodoxos bienintencionados (y con frecuencia ambiciosos). Pero como cualquiera que esté familiarizado con los debates políticos contemporáneos sabe bastante bien, la fuerza retórica de un argumento no debe ser confundida con las realidades prácticas que comprometen su lógica."
Bart D. Ehrman, Cristianismos Perdidos, Ares y Mares, 2004
Publicado por Miguel Silva às 21:31 |
Tuesday, August 29, 2006
Segundo o Jornal de Notícias (via Bloguítica), a GNR e a PSP utilizam uma tabela de conversão para apurar o grau de álcool no sangue dos condutores. Levantou-se, assim, uma dúvida sobre o valor efectivo a partir do qual um condutor se encontra a infringir a lei, o que acaba por ser uma polémica desprovida de sentido.
Um aparelho de medição, seja ele analógico ou digital, tem sempre um erro de medição associado. Este não resulta do seu mau funcionamento, ou da falta de homologação (a qual garante que o aparelho cumpre as normas e os requisitos definidos previamente), mas da sua natureza enquanto aparelho medidor. Não há medições perfeitas, por isso torna-se fundamental aferir uma margem de erro, algo que se aprende a fazer no primeiro ano de muitos cursos de engenharia.
O único aspecto aqui que merece ser notícia é o estado dos aparelhos de medição e a confiança que eles oferecem às autoridades. No seguimento do que o JN publicou, seria interessante apurar estas informações, ouvindo o MAI, a DGV e os elementos da PSP e GNR que trabalham com estes aparelhos. De qualquer forma, em caso de dúvida, existem sempre a solução dos testes sanguíneos, não porque estes possuam uma base científica superior à que suporta os aparelhos das brigadas, mas, certamente, porque a maior confiança que oferecem advém de serem realizados com aparelhos que possuem margens de erro bastante menores, às quais não são imunes.
Publicado por Miguel Silva às 16:42 |
As multidões cabem onde quer que se crie espaço para as acolher. Compreensivelmente, não se pode perder a dor da vítima, não se lhe pode ficar sequer indiferente. Apesar disso, não se conhece a dor da vítima em toda a sua profundidade enquanto não se conhece o que a motivou. E, sobretudo, não se pode dizer que quando se observa um dos lados desta balança se perde irremediavelmente o outro. Nem se trata de uma questão de menosprezar a humanidade da vítima ou do criminoso, mas de não renunciar à nossa.
Agora, pode sempre não se seguir este caminho. Até é mais fácil não o fazer. Quando temos as nossas categorias bem delimitadas e hermeticamente fechadas o mundo encaixa muito melhor.
Publicado por Miguel Silva às 15:26 |
A UE está preocupada, e bem, com a igualdade de oportunidades. Por isso, prepara-se para implementar uma campanha de sensibilização apostada em salientar a riqueza da diversidade, a qual deverá ser ainda suportada por uma cimeira europeia.
Uma das vertentes desta preocupação passa pela não discriminação em função da idade. O problema da discriminação etária não se resume ao mundo do trabalho. A discriminação etária é transversal aos mais variados campos das sociedades modernas. Talvez potenciada pela intensidade do ciclo de obsolescência e renovação das tecnologias, é bastante reconhecível uma atenção especial dedicada não só às novidades, mas também ao que é novo. A este facto não fica alheio o capital humano. De uma forma geral, as sociedades modernas não sabem como integrar os seus idosos, nem são capazes de elaborar estratégias de participação activa dos idosos no quotidiano. Não se trata apenas de uma exclusão ao nível laboral e de uma exclusão ao nível económico, mas antes de uma exclusão social alargada, de um afastamento dos circuitos de participação e de convivência social.
Há todo um paradigma que precisa de sofrer uma profunda alteração. Para um problema que assume estas proporções, uma campanha de sensibilização é muito pouco. Sobretudo se não se traduzir, e a experiência não nos leva a crer que o faça, em medidas concretas. O que se torna premente são estratégias vinculativas de inclusão, quer passem pelo fim da discriminação no local de trabalho, quer passem pela reconversão de equipamentos de apoio que funcionam como guetos sociais, quer passe pela simples obrigatoriedade de se equacionar os problemas de mobilidade que tantas vezes constituem uma barreira física e social para os idosos.
Há muito para fazer. A UE decidiu começar pela publicidade. Talvez pudesse ter começado melhor.
Publicado por Miguel Silva às 15:11 |
Sunday, August 27, 2006
Não sei se tenho jeito para levar a minha avante. Sei que tenho uma certa dose de paciência para aguardar uma ocasião mais oportuna. Ao contrário do que possa parecer, isso nem sempre é bom.
Publicado por Miguel Silva às 10:33 |
Early morning god damn it
Espero que a blogosfera não passe ao lado do facto de eu hoje ter acordado mais cedo que o Pacheco Pereira.
Publicado por Miguel Silva às 07:46 |
Saturday, August 26, 2006
No fim-de-semana em que começa o campeonato de futebol, ainda não se sabe a lista completa de equipas que o vão integrar. Isto não será muito importante quando comparado com todos os outros problemas que assolam o país, mas é bastante sintomático.
Publicado por Miguel Silva às 15:54 |
"Há língua-da-sogra! Quem quer a língua daquela malvada?", disse o vendedor ambulante.
Publicado por Miguel Silva às 15:10 |
Thursday, August 24, 2006
Guerra ao terror reforçou posição do Irão enquanto potência regional
Mais uma profecia no bom caminho.
Publicado por Miguel Silva às 17:01 |
Perante o abismo, um passo em frente
Como provocação barata e de muito mau gosto, houve quem tenha chegado a dizer que alguma esquerda se congratulava com o terrorismo fundamentalista que eclodiu no seio dos EUA e da Europa. Embora seja perigoso deixar a paranóia com rédea solta, pois corre-se o risco de passar a tomá-la pela realidade, tais disparates não mereceram nem merecem grandes considerações. De certa forma, ceder a este tipo de provocação seria reconhecer-lhe um estatuto de argumentação válida, o qual, manifestamente, lhe falta.
Hoje, mais do que logo após o 11 de Setembro, ou o 11 de Março, ou o 7 de Julho (curiosamente, os atentados diários no Iraque e as centenas de mortos na Índia e na Indonésia, por exemplo, ficam quase sempre fora destas contas), perante um coro crescente de críticas à guerra no Iraque e à putativa melhoria da segurança mundial, os apologistas da intervenção militar parecem clamar por mais uma desgraça de proporções desumanas para justificar a sua visão ultra-securitária. Não lhes interessa que tudo o que têm defendido desde que os EUA mostraram a ânsia de entrar no Iraque se tenha desmoronado com estrondo. A única teoria do dominó que tem funcionado tem sido a dos erros grosseiros e dos falhanços sucessivos nos quais a guerra no Iraque e a política externa dos EUA têm sido prolíficas.
Contra a mais pequena centelha de bom senso, as vozes do costume gritam por mais do mesmo. Compreende-se: está em curso uma das maiores self-fulfilling prophecies de sempre. Apostados em perseverar na sua estratégia, que apenas tem mostrado provocar maior instabilidade e insegurança, hão-de colher o amargo fruto que tantas vezes previram nas suas análises.
Entretanto, jogam com as vidas dos civis envolvidos nos seus jogos de poder e jogam com a vida dos militares que cumprem os seus caprichos. Quantos mais sofrerem, mais facilmente se provará que tinham razão.
Publicado por Miguel Silva às 00:10 |
Wednesday, August 23, 2006
Friday, August 18, 2006
Rejubilai! Pela primeira vez em não sei quantos anos todas as equipas do primeiro escalão do campeonato nacional de futebol vão ser treinadas por portugueses. É difícil esconder o êxtase. Ainda hoje, o comentador da TSF, num assomo de originalidade, recordava que "o que é nacional é bom" e acrescentava, para melhor defender os interesses do treinador português, que Co Adriaanse veio treinar para Portugal sem ter ganho qualquer título.
Ora, neste registo de demagogia barata também se poderia afirmar que uma boa parte dos treinadores portugueses que vão começar este campeonato à frente de equipas da 1ª Liga também nunca ganharam nada de jeito. Tal como se poderia afirmar que o número de portugueses a liderar equipas técnicas de clubes de referência por esse mundo fora se pode contar pelos dedos de uma mão, sendo que talvez sobrem mais dedos do que aqueles que são precisos para os contar.
Mais razoável seria reconhecer que os clubes portugueses não têm capacidade financeira para pagar a treinadores estrangeiros, muito menos se estes estiverem habituados a trabalhar nos melhores campeonatos europeus, nem o campeonato nacional, pela sua fraca qualidade, tem capacidade de atrair treinadores que aspirem a uma carreira de relevo.
Contra esta triste realidade, há quem prefira erigir uma bonita ilusão patriótica. Mas esta, no fundo, não passa de apenas mais uma versão dessa nacionalíssima característica que é o provincianismo.
Publicado por Miguel Silva às 18:26 |
Contam os livros de História que, durante a Guerra do Peloponeso, os Atenienses teriam afirmado aos habitantes sitiados da cidade de Mélio que "os fortes fazem o que têm poder para fazer e os fracos aceitam o que têm de aceitar".
Muito tempo depois, já em pleno século XVIII, Jean-Jacques Rosseu escreveu sobre o direito do mais forte:
"Consideremos um momento esse pretenso direito. Penso que dele apenas resulta um imbróglio inexplicável, pois, sempre que é a força que faz o direito, o efeito muda com a causa; qualquer força que se sobreponha à primeira sucede ao seu direito. A partir do momento em que se pode desobedecer impunemente, pode-se desobedecer legitimamente, e, visto que o mais forte tem sempre razão, apenas importa conseguir ser o mais forte. Mas, afinal, que é um direito que desaparece quando a força cessa? Se se tem de obedecer pela força, não é preciso obedecer por dever e, se não se é forçado a obedecer, já não se é obrigado a obedecer. Vemos portanto que esta palavra ‘direito’ não acrescenta nada à força; neste caso, não significa absolutamente nada.
(…)
Convenhamos portanto que não é a força que faz o direito e que apenas se é obrigado a obedecer aos poderes legítimos."
Uma vez dissociada a noção de poder da noção de legitimidade, resulta que apenas quando estes dois conceitos se reúnem se afigura perfeitamente justificado o exercício do primeiro. Caso contrário, a legitimidade passa a estar do lado dos que se recusam a obedecer.
Diz-se que só existe moralidade quando existe a possibilidade de escolha. Ninguém é obrigado a cumprir o impossível, mas também é verdade que raras vezes uma situação se apresenta realmente sem possibilidade de escolha. Os princípios morais acompanham as nossas acções e a utilização do peso do contexto como argumento justificativo é, muitas vezes, apenas uma forma de desculpabilização. Uma desculpabilização que Sartre apelidou de má fé. O simular de uma necessidade, de uma força maior, quando, eventualmente, tudo se pode reduzir a uma opção pessoal. O ser humano não pode ser entendido fora do seu contexto social, separado das suas circunstâncias, mas também não pode ser entendido fora do seu livre arbítrio. Algo que é válido para o criminoso, para a vítima, para o juiz e para o algoz.
Publicado por Miguel Silva às 12:54 |
Thursday, August 17, 2006
No que diz respeito aos voos mais que suspeitos da CIA, Portugal, ou o seu governo, talvez pouco pudessem usar para pressionar os EUA a não usar as bases das Lages como escala. Além disso, é necessário recordar que se trata de um país com quem Portugal mantém laços de amizade e alianças estratégicas no que diz respeito à defesa e à economia. Pode ainda evocar-se que, caso o governo português recusasse o espaço aéreo nacional a tais voos, algum outro país estaria na disposição de os aceitar, o que nos levaria a perder influência junto dos EUA e, até, a sofrer alguma espécie de retaliação diplomática ou económica, sendo preteridos como parceiros estratégicos num futuro próximo. Pode equacionar-se a delicada posição de Portugal nestes termos e aceitar uma certa dose de tolerância perante algumas violações das convenções internacionais e das mais básicas regras de respeito pelo ser humano.
Na realidade, isto é o que, com alguma hipocrisia, se pode apelidar de realismo; e o que, com bastante realismo, se pode apelidar de hipocrisia.
Porque também se pode afirmar, com toda a propriedade, que a luta contra o terrorismo, especialmente o que nos aflige neste tempo, passa por ser um confronto ideológico. O terrorismo de cariz fundamentalista submete os meios aos fins a alcançar e legitima o uso da violência na tarefa de os atingir. Contra esta ideologia, sem prejuízo de uma melhoria significativa da segurança dos seus cidadãos, as democracias ocidentais deviam cerrar fileiras em torno dos princípios fundamentais que tanto lhes custou a conquistar. Princípios como o Estado de Direito e o respeito pelas garantias que assistem a qualquer pessoa, independentemente das suspeitas que sobre ela recaiam.
Ao afirmarem sem complexos os traços característicos da sua identidade, as democracias ocidentais assumem a melhor forma de combate ideológico de que dispõem. A outra hipótese é deixarem-se corromper, mais ou menos lentamente, em nome de uma luta que afirmam travar precisamente contra uma ideologia que serve de suporte a todo o tipo de atrocidades.
Publicado por Miguel Silva às 23:21 |
Thursday, July 20, 2006
Um aspecto inquestionavelmente associado à Lei do Protocolo de Estado é a necessidade de regulamentar as precedências entre as hierarquias do Estado. Outro é o provincianismo que estas mexidas sempre exalam. O Protocolo também pode ser visto como uma continuação desse fado nacional que é a deferência servil. Ouve-se dizer, com uma certa frequência, dichotes anedóticos sobre o conflito entre o primeiro rei de Portugal e a sua mãe, numa alusão que se pretende à imagem do ditado popular “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mas quanto a maus começos, a história de um Egas Moniz, que se teria apresentado em absoluta submissão ao rei de Castela, também tem muito que se lhe diga como imagem de marca.
O Protocolo acaba por ser uma continuação, numa versão bastante mais elaborada, do tratamento por Sr. Doutor e Sr. Engenheiro que conseguimos, algures durante o século passado, converter em condição sine qua non do reconhecimento respeitoso do estatuto do outro. Tudo isto nos remete para uma ligação ainda muito forte à autoridade tradicional, que o Protocolo pretende fundir com a autoridade legal, reforçando assim as legitimidades de uma e de outra. Só desta forma se entende que o lugar reservado para os representantes das confissões religiosas seja definido em função da sua implantação na sociedade. Traduzindo, quantos mais fiéis, maior relevo no Protocolo.
Se já se pode questionar a inclusão das autoridades religiosas no Protocolo de Estado, mais se pode questionar esta discriminação entre confissões. Por detrás de uma suposta máscara democrática esconde-se um tradicionalismo arcaico. Faltou sentido de igualdade, e faltou coragem, para equiparar todas as confissões religiosas, perante o Estado e perante a sociedade. O Estado não tem preferências, nem deve assumir para si as da sociedade civil, embora seja aconselhável que as saiba identificar. Mas esta separação entre a esfera pública e a esfera privada ainda provoca muita confusão a muita gente. Os velhos hábitos custam a mudar.
Publicado por Miguel Silva às 12:29 |
Tuesday, July 18, 2006
Se este blogue dispusesse de um player, oferecia a quem por aqui passa o tema Halloween, pela voz de Dave Matthews. Para quem não conheça a música, não é inteiramente justo que se diga que Dave Matthews canta a letra da canção. Mais apropriado seria dizer que aqueles cinco minutos são preenchidos por uma voz que vai gritando de dor, de raiva, de impotência e de despeito. O amor também pode ser isto tudo.
Publicado por Miguel Silva às 23:28 |
Friday, July 07, 2006
Thursday, June 29, 2006
"Calem-se as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido falar; mostrem-se submissas, como diz a própria Lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-no em casa aos seus maridos, porque não é decente que a mulher fale na Igreja."
1ª Epístola aos Coríntios, 14:34-35
Parecem não restar dúvidas que Paulo terá escrito a 1ª Epístola aos Coríntios que se encontra incluída no Novo Testamento. Contudo, a autoria dos versículos 34 e 35 do capítulo 14 mostra-se um assunto bastante mais problemático. Vários motivos, apontados pelos especialistas, levam a crer que não só Paulo não teria escrito essas linhas como a sua opinião sobre a participação das mulheres na vida da Igreja teria sido algo diferente. Em vários outros momentos, em cuja autoria não oferece dúvidas, Paulo fala de forma abonatória, ou pelo menos neutra, da participação das mulheres nas actividades da Igreja e refere mesmo algumas que desempenhavam funções de liderança ou de relevo no seu seio.
Contudo, como se vê, num texto que foi escolhido para figurar na Bíblia, alguém terá decidido acrescentar um retoque de características claramente misóginas. A questão, aqui, nem é tanto a da autoria de tal parágrafo nem a da fidelidade deste às convicções de Paulo. O que se depreende destas deturpações dos originais é que não só foram, em algum momento, consideradas necessárias por alguma pessoa ou por algum grupo, como recolheram a aceitação da opinião pública, tanto na altura como nos séculos que ainda estavam para vir. O que está em causa é um problema de ideologias. Apesar de se tratar, muito provavelmente, de uma falsificação, a redacção do parágrafo da 1ª Epístola aos Coríntios que remete as mulheres ao silêncio traduz uma visão das relações sociais entre homens e mulheres e dos lugares reservados para uns e outras. A sua publicação e subsequente aceitação revela, por seu lado, uma mentalidade dominante disposta a suportar essa versão dos relacionamentos. Trata-se de um círculo viciado. Algures no meio social existe uma visão misógina do lugar da mulher; falsifica-se então um texto de cariz teológico de acordo com essa mesma visão; esse texto passa, assim, a conferir legitimidade à visão misógina que, de facto, lhe esteve na origem.
Essa ideologia, essa visão da mulher perante o homem, vingou na altura, vingou através dos tempos e continua a vingar hoje. Dir-se-á que percorremos um longo caminho e que hoje as mudanças para melhor na igualdade de direitos são uma realidade inegável. Mau seria que não o fossem. Percorremos, efectivamente, um longo caminho. Alteraram-se, efectivamente, as mentalidades. Mas terá sido o suficiente? Tem a mulher o lugar de igualdade na sociedade a que, também inegavelmente, tem direito?
Os factos parecem apontar o contrário e os discursos produzidos sobre o tema traem várias vezes as boas intenções que pretendem veicular. Sobre o número de mulheres a desempenhar cargos de relevo, já muito se disse. São poucas, apesar de não lhes faltarem as qualificações. Os lugares de topo estão sobretudo preenchidos por homens que recrutam sobretudo homens. Nas sociedades ocidentais não existem barreiras oficiais à participação das mulheres na vida pública, mas essa participação continua a ser dominado pelos homens e esse é um sinal ao qual não se pode ficar indiferente. Apesar de não serem sociedades assumidamente discriminatórias para a mulher, o domínio masculino só pode oferecer desconfiança.
As regras sociais podem possuir tanta ou mais força que as regras legais. Mais ainda, enquanto as regras legais são mais claramente percebidas como construção, as regras sociais apresentam-se, a maior parte das vezes, de forma "natural". Mas as regras sociais têm tanto de construção como as regras legais. Simplesmente, enquanto estas últimas se encontram coligidas em códigos, a partir dos quais é possível descobrir o exacto momento da sua origem e traçar o seu percurso desde então, as primeiras vivem há muito no acervo colectivo da cultura e das práticas da sociedade. Perde-se assim a perspectiva de construção social que lhes deu origem e as manteve, para ganharem, por substituição, um peso de realidade "natural" e "inquestionável".
As ideologias têm a característica de se transformarem em realidades opacas. Ou melhor, de se confundirem com a realidade. Uma ideologia é uma visão do que o mundo deve ser, de acordo com determinado grupo social, e não o que o mundo efectivamente é. Mas pode ser muito difícil discernir o que é realidade e o que é ideologia. Existe um grupo intitulado Associação Mulheres em Acção que, entre outras coisas, defende a participação activa das mulheres na vida pública e em termos de igualdade com os homens. Entre os seus argumentos consta a defesa dos "valores propriamente femininos". Ora, embora não se saiba exactamente o que querem as Mulheres em Acção dizer com "valores propriamente femininos", sabe-se, desde há algumas décadas, que os papéis sociais do homem e da mulher são socialmente determinados. São as sociedades que constroem as identidades sociais para os homens e para as mulheres. Mas quando um grupo que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres integra no seu discurso uma visão das identidades de género que é, ela mesma, de certa forma, tributária da discriminação social, não resta muito mais para dizer sobre o sucesso da dominação masculina. A discriminação foi imposta com tanto sucesso que convivemos pacatamente com ela e até se chega a fazer o seu elogio como se se tratasse da coisa mais natural do mundo.
No fundo, esta aparente normalidade é algo que nos acompanha há muito tempo. Só que agora arranjámos forma de nos convencermos de que a erradicação do problema está próxima.
Publicado por Miguel Silva às 00:23 |
Monday, June 26, 2006
Há coincidências que precisavam de algo mais que o acaso para as explicar. Através de um post do FNV, fico a saber que o Procurador-Geral mexicano responde pelo nome de Daniel Cabeza de Vaca.
Publicado por Miguel Silva às 17:07 |
Cabeza de Vaca
Álvar Núñez Cabeza de Vaca, conquistador espanhol do século XVI, naufragou ao largo da costa do actual estado do Texas em 1528. Juntamente com alguns companheiros de viagem, viveu os seis anos seguintes entre os índios dessa região, adoptando uma boa parte dos seus modos de vida. Tendo granjeado reconhecimento entre as populações, desempenha uma função de comerciante, deslocando-se da costa para o interior, e vice-versa. Mais ainda, os índios convencem-se dos seus poderes curativos e Cabeza de Vaca, não mais do que à custa de uma mistura de ritos tradicionais indígenas e Pais Nossos e Avés Marias, como ele mesmo refere, passa assim a exercer a função de xamã.
Movido pela vontade de encontrar os seus, e depois de uma quase inacreditavelmente longa caminhada de dois anos, alcança as terras do México, onde a conquista espanhola segue em ritmo elevado. Finalmente, o desejo de reencontrar os seus compatriotas e a possibilidade de voltar a pisar solo espanhol são uma realidade. Ainda regressará às Américas, não só como explorador, mas também como governador do Vice-Reino de Rio de la Plata. Aí incompatibiliza-se com os abusos cometidos sobre os índios e acaba destituído das suas funções.
A interessante história deste homem excede as peripécias das suas viagens. Cabeza de Vaca é um dos conquistadores espanhóis que decide relatar para a posteridade a sua visão das conquistas. É nesse campo que se torna mais notável. Natural de Espanha, acaba por encontrar e viver durante um largo período numa cultura completamente estranha ao mundo que até aí conheceu. Apesar do nível de integração cultural que alcança, nunca esquece a sua terra natal nem o desejo de a rever. Nos relatos sobre esses agitados anos, a utilização do "nós" vai balançando entre o lado dos espanhóis e o lado dos índios. Até que, por fim, o indeciso "nós" acaba substituído por um "eles" comum a ambos os lados.
Tendo vivido as duas culturas, não renegando explicitamente nenhuma delas, é como se Cabeza de Vaca, de forma paradoxal – ou talvez não –, deixasse de se conseguir incluir nos dois mundos que retrata. Para ele, perante a experiência da alteridade, já só resta a exterioridade.
Publicado por Miguel Silva às 11:00 |
Friday, June 23, 2006

Gustav Klimt, Die Jungfrau, 1913
Escolho este conjunto de jovens donzelas para, após as dúvidas lançadas de forma implícita sobre as capacidades de apreciação estética de Klimt, fazer justiça ao pintor.
Como se sabe, os critérios que definem a beleza variam com as épocas. Muito embora, com alguma maldade, possa haver quem se interrogue se alguma vez terá havido época com critérios que, de bom grado, acolhessem a senhora Adele Bloch-Bauer. Pior sorte terá tido Diego Velásquez, "forçado" a retratar inúmeras vezes a rainha Maria Luísa, mulher de Carlos IV de Espanha.
Para além destas considerações, trocando a estética pela ética, podemos ainda reformular a dúvida da Helena e, em vez de perguntarmos como se chega a uma situação financeira de ter 135 milhões de dólares para comprar um quadro, questionarmos antes como é que, num mundo com tanto dinheiro, ele continua a faltar a tanta gente para coisas tão essenciais. Penso que esta pergunta pode suscitar respostas muito mais interessantes. Nunca se deve menosprezar a criatividade e a racionalização do ser humano.
Publicado por Miguel Silva às 14:23 |
Thursday, June 22, 2006
Se bem percebi, o presidente de Timor-Leste pediu a demissão do primeiro-ministro em função de um programa de televisão australiano, acrescentando ele mesmo mais algumas acusações sobre Alkatiri. Independentemente dos erros que o primeiro-ministro e o partido que o apoia possam ter cometido, ou estejam a cometer, a confiança no discernimento político de Xanana Gusmão deixou de ser sustentável.
Publicado por Miguel Silva às 15:02 |
Há quem olhe para as bandeiras desfraldadas nas janelas, para as t-shirts de Portugal a passearem-se nas ruas, para os apoios que se multiplicam a cada golo e veja nisso um patriotismo renascido. Como se não fosse apenas, na sua grande maioria, a conhecidíssima tendência de fazer a festa ao lado dos que ganham.
Publicado por Miguel Silva às 11:29 |
Tuesday, June 20, 2006
Meses depois do último contacto, talvez mais de meio ano depois, um telefonema da imobiliária. As bases de dados são uma coisa fantástica. Só não sei quem é que se lembrou de pensar que podem ser travestidas de verdadeiro empenho.
Publicado por Miguel Silva às 11:48 |
Monday, June 19, 2006
Serviço mínimo de circunstância 2
E aquele golão do Deco, hein?
Publicado por Miguel Silva às 18:01 |
Friday, June 16, 2006
Assim sim. Trovoadas fortes e chuvadas curtas e intensas, por entre as quais, a espaços intermitentes, surge o sol e o calor. À nossa economia de país tropical vem, finalmente, juntar-se o clima correspondente.
Publicado por Miguel Silva às 15:59 |
Wednesday, June 14, 2006
A 14 de Junho de 1940, as Waffen SS fazem chegar o primeiro transporte de prisioneiros às imediações da localidade polaca de Oświęcim. A uma semana do fim da Primavera, tem início um longo Inverno que só terá fim em Janeiro de 1945, quando o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau for finalmente libertado pelo Exército Vermelho.
Publicado por Miguel Silva às 16:34 |
Estes dias de trabalho no meio da semana de descanso quebram muito o ritmo.
Publicado por Miguel Silva às 09:23 |
Monday, June 12, 2006
Alguém me pode explicar qual é a mais valia jornalística das entrevistas feitas àqueles senhores que saem dos estádios, cheios de cachecóis, bandeiras e pinturas faciais, e às adoráveis criancinhas de 4 anos que eles transportam às cavalitas? A sério, alguém que me explique isto. E se o argumento for que as pessoas gostam de ver essas entrevistas, então que me apresentem alguém assim, porque eu não conheço ninguém que não considere um absurdo o tempo que se perde nesses apontamentos.
Publicado por Miguel Silva às 14:17 |
Friday, June 09, 2006
Estou aqui a olhar para o relógio há uns bons vinte minutos e o no mostrador ainda só passaram uns quatro ou cinco.
Publicado por Miguel Silva às 18:09 |
Num registo recheado de intransigência, Pedro Sá, no Descrédito, conclui um post clamando por "uma política dura de segurança". E diz ainda: "quero ver os mesmos que me chamavam fascista por defender isto agora a dobrarem a língua depois de Ségolène Royal vir defender políticas neste sentido."
As políticas que Pedro Sá defende passam, entre outras preciosidades, por afirmar que "a segurança do povo é muito mais importante do que qualquer humanismo", que "os projectos de vida de cada um não podem ser mais importantes que a segurança de todos", que "a reintegração e a recuperação são duas ideias que têm rapidamente de ser eliminadas do sistema penal" e que se deve proceder à "eliminação de todas as condicionantes à acção da polícia quando em combate ao crime".
Nada do que está escrito nesse post pode ser considerado de esquerda e quase tudo pode mesmo ser considerado fascista. O esboço de "política de segurança" ali delineado está ferido por um totalitarismo securitário intolerável em qualquer sociedade democrática. Revela, como não podia deixar de ser, uma concepção hiper-musculada das instituições formais de controlo e uma desvalorização da pessoa em detrimento do colectivo.
Há ideias que constituem uma pequena abertura para a infiltração do ideal totalitário nas sociedades democráticas. As noções expostas no Descrédito estão muito para além disso. São uma porta escancarada. Só falta saber se o Pedro Sá não percebeu isso ou se assume até ao fim as consequências do seu pensamento político e social.
Publicado por Miguel Silva às 10:53 |
O facto de não ser possível discernir qualquer lógica ou sentido que presida a orientação do texto das lombadas dos livros editados em português não pode ser entendido de outra forma que não como mais um sintoma do atraso civilizacional deste país.
Publicado por Miguel Silva às 10:21 |
Wednesday, June 07, 2006
This is a men's world
Na questão das quotas, que não na da equidade, o João Tunes discorda de mim. Se partilhamos a vontade de ver o fim da discriminação sexual, discordamos nos instrumentos que possam permitir lá chegar. Seria muito bom, já o disse antes, que as quotas não fossem necessárias, que a igualdade surgisse por consenso social e não por imperativo legislativo. Mas não vivemos nesse mundo. A desigualdade e a discriminação existem e, a meu ver, torna-se necessário intervir rapidamente para debelar esse facto.
Um dos caminhos para uma participação mais activa das mulheres na política e nos cargos de liderança passa, como o João muito bem afirma, por uma divisão das tarefas familiares. Quando estas são partilhadas pelo casal, existe um equilíbrio de participação nos mais diversos campos em que cada membro se queira envolver. Da mesma forma, é sabido que existem traços culturais e sociais que alimentam e perpetuam a discriminação sexual, tanto no ambiente familiar como no ambiente profissional. Mas também é verdade que, hoje em dia, existem muito mais mulheres com preparação académica do que, por exemplo, há 30 anos. Contudo, o facto de termos mulheres qualificadas para funções de relevo não tem encontrado igual tradução no acesso efectivo a esses lugares. Se ainda se pode dizer – e pode – que as mulheres são social e culturalmente condicionadas a optar por determinadas áreas de actividade, também se pode afirmar que existem já amplos exemplos que rompem com esses condicionalismos, mas que, mesmo assim, não garantem uma participação em termos de igualdade.
Existe, ainda, um ponto que não consigo deixar de voltar a frisar. Continuo sem perceber por que é que não se há-de arranjar um número suficiente de mulheres interessadas em desempenhar cargos políticos. Tomemos como exemplo a constituição do governo. Dos dezasseis ministérios que compõem o actual executivo, apenas dois são liderados por mulheres. Se eu perguntar se não se arranjam mais seis mulheres com capacidades para o cargo estou a ser demagógico ou estou a colocar uma questão pertinente?
Admito que o que escrevi ontem sobre este assunto possa oferecer uma leitura mais crítica, tal como a que foi feita pelo João Tunes. Para continuar a granjear o crédito que ele tem a amabilidade de me conferir, acrescento algumas explicações. Quando digo que me sinto intrigado com aquela argumentação, não pretendo com isso afirmar que a generalize a todos os que são contra as quotas. Sei que ela existe, sei que já a ouvi tanto da boca de homens como da de mulheres, mas não sei se é um traço dominante ou característico da recusa das quotas (nem pretendo discutir isso). Do mesmo modo, não pretendo generalizar o julgamento de intenções que fiz. Penso que existe (ou que, pelo menos, é possível entrever) uma certa forma de pensar, a qual tentei identificar, embora conceda que a minha escolha de palavras para o fazer não tenha sido a mais adequada e permita uma leitura mais radical do que é, de facto, a minha posição.
Ainda assim, se espero ter retirado o eventual radicalismo que pudesse estar associado à minha argumentação, não pretendo alterar as suas linhas condutoras. Continuo sem perceber por que razão se há-de considerar a introdução de quotas como uma medida protectora, ao invés de a considerar, no essencial, de uma justiça inadiável. Ou que não se prefira este mal menor, por oposição a aguardar uma mudança de mentalidades que tarda em chegar.
Publicado por Miguel Silva às 16:55 |
Tuesday, June 06, 2006
Lembro-me perfeitamente de, quando criança, percorrer os stands da Feira do Livro ao lado da minha mãe, escolher uns 4 ou 5 livros para ela mos comprar e, depois, sentar-me ao seu lado nos relvados do Parque, abrigados pela sombra de uma árvore, comendo um gelado, desfolhando as aquisições e decidindo com qual delas começar a leitura. É das mais simples, nítidas e felizes memórias que guardo da infância.
Publicado por Miguel Silva às 12:55 |
Existe um imbróglio a envolver o Belenenses e o Gil Vicente. Aparentemente, o clube de Barcelos incorre numa sanção que o pode afastar da Primeira Liga, a qual se fica a dever ao facto de, à revelia da Liga de Clubes, da Federação Portuguesa de Futebol e da FIFA, ter recorrido aos tribunais civis para resolver uma questão desportiva. Independentemente das razões que assistam ao clube na sua demanda, qualquer regulamento que impeça o recurso aos tribunais civis, ou o condicione à autorização de terceiros, é uma aberração.
Publicado por Miguel Silva às 11:58 |
Um dos aspectos que mais intriga no discurso dos que são contra a introdução de quotas para a igualdade de género é a invocação de uma putativa injustiça de se assistir à inclusão de mulheres que não estão lá pelo seu valor mas antes pela necessidade imperiosa de preencher vagas. Que tal recurso, afirmam, chega a ser vexatório para a condição dessas mesmas mulheres.
Por qualquer estranha razão, os apologistas desta visão não concebem que seja possível encontrar um número suficiente de mulheres competentes para preencher as ditas quotas. Partem imediatamente do princípio de que as quotas retiram o lugar a homens com basta competência para o lugar, para os trocar por mulheres impreparadas, sem outra utilidade que não a instrumentalização numérica. Evidentemente, para tal nunca se chega a demonstrar o superior mérito dos que actualmente enchem as listas partidárias, nem, concomitantemente, o demérito das que se encontram de fora.
O facto de, para alguns, não ser concebível que para cada dois lugares se possa encontrar um homem e uma mulher igualmente preparados para os ocupar é um dos melhores indicadores da mentalidade que reina e bastante revelador da necessidade quotas para corrigir este desvio discriminatório.
Publicado por Miguel Silva às 10:11 |
Monday, June 05, 2006
O CDS-PP apresentou um projecto de lei que pretende baixar a idade de inimputabilidade de menores. Esta situa-se, actualmente, nos 16 anos, sendo que o CDS-PP propõe os 14 anos.
Deixemos de lado as considerações sobre a idade a partir da qual se deve considerar um menor imputável, não porque seja um assunto desprovido de interesse, mas sim porque existe um outro aspecto que se mostra muito relevante e que é a fundamentação do projecto.
O que sobressai da exposição de motivos do projecto de lei do CDS-PP é uma ideologia muito definida, palpável na lista de justificações da criminalidade juvenil e nas soluções escolhidas. Vários motivos são apontados pelo grupo parlamentar do CDS-PP, alguns deles, seguramente, com propriedade. Mas, perante a identificação de causas que se prendem, aos olhos dos deputados do CDS-PP, com “sociedades de baixa qualidade de vida nas periferias urbanas; políticas de emprego que não conseguem vencer a dificuldade em encontrar o primeiro posto de trabalho; sistemas educativos em que a instrução para o civismo é deficitária e a autoridade do professor não está defendida; a progressão galopante do «ciclo da toxicodependência», cuja criminalidade associada é manifesta; a inexistência de políticas familiares que devolvam aos pais tempo disponível para os seus filhos, respectiva educação e acompanhamento, e que são responsáveis pelo relativo abandono afectivo dos menores em tenra idade”, não deixa de ser curioso que surja uma iniciativa legislativa que aponta directamente à idade de imputabilidade, ao invés de se assistir a iniciativas direccionadas a montante, combatendo as causas sociais referidas.
O que transparece, então, apesar do discurso envolvente, é a preferência por uma deriva repressiva e autoritária. Se quem avança com um projecto destes conhece minimamente a realidade das instituições de reclusão, sejam elas para menores de idade ou para adultos, deve saber que estas funcionam mais como instrumento de perpetuação da condição de exclusão, de marginalidade e de delinquência do que de outra coisa qualquer. Embora se possa discutir a justiça de se reduzir o limite etário da inimputabilidade, discussão onde os especialistas de desenvolvimento cognitivo terão uma palavra importante a dizer, custa a perceber que esse seja um caminho prioritário em detrimento de outro género de intervenções.
É sobretudo interessante verificar como a “baixa qualidade de vida nas periferias urbanas” surge completamente descontextualizada da realidade social a que se reporta, como se, para além de realidade factual, constituísse uma inevitabilidade social que não tem correspondência com as políticas económicas e sociais de um país ou de um município. Por outro lado, as “políticas de emprego que não conseguem vencer a dificuldade em encontrar o primeiro posto de trabalho”, assumem uma faceta paradoxal neste contexto em que se identifica a tipificação etária como indo dos 13 aos 15 anos, portanto, no limiar ou abaixo da idade activa, ou quando se sabe que os comportamentos delinquentes são muitas vezes frequentes em idades inferiores aos 10 anos.
Nunca a desigualdade social é referida como motivo de criminalidade, nem o são os indiscutíveis traços culturais de consumo e de materialismo das sociedades ocidentais. Tal como Ulrich Beck referiu, a propósito dos distúrbios vividos em cidades francesas no ano passado, toda essa conflitualidade e actos de delinquência não radica num défice de integração, mas antes no sucesso da assimilação desses valores dominantes e no desfasamento de oportunidades para aceder a uma participação na criação e distribuição de riqueza da sociedade.
Seria importante recordar, a este propósito, que em Portugal o fosso entre ricos e pobres não cessa de aumentar, que o poder de compra das classes médias e baixas diminui consecutivamente de ano para ano, que o salário mínimo é de 385,90€ e que um número considerável de pessoas se vê obrigada a recorrer ao multiemprego para assegurar um limiar mínimo de condições de vida, o que acarreta consequências lógicas ao nível de tempo disponível para si e para a família. Muito mais relevante, então, seria um debate, não sobre a idade da imputabilidade, mas sobre a contínua aposta na desqualificação dos trabalhadores e em políticas de salários baixos, a falta de preparação e de competitividade das chefias e dos empresários, a incapacidade crónica de fazer chegar a ajuda a quem mais dela precisa, o afastamento de um número cada vez maior de pessoas dos centros de decisão e de acesso à riqueza. Uma discussão, no fundo, sobre todo um modelo de sociedade que se tem vindo a implementar com os resultados que se conhece.
Publicado por Miguel Silva às 17:46 |
Friday, June 02, 2006
Não sei o que é que as pessoas têm contra o spam. Eu farto-me de ganhar coisas a que não concorri.
Publicado por Miguel Silva às 11:11 |
Thursday, June 01, 2006
Num dos seus filmes (O Escorpião Jade), alguém atira à personagem de Woody Allen que existe um nome para as pessoas que acreditam que toda a gente está a conspirar contra elas, ao que este responde "Eu sei, perspicaz."
Pode fazer-se outro raciocínio, de certa forma análogo, para estes casos em que toda a gente aponta o dedo acusador no mesmo sentido. Quando todos vêem exactamente a mesma coisa, é bastante provável que exista algo mais, para além do óbvio, que lhes está a escapar. Aliás, a unanimidade é quase sempre um excelente motivo para gerar uma ajuizada e cautelosa reserva.
Publicado por Miguel Silva às 15:42 |
No actual contexto de políticas organizacionais, as avaliações de desempenho são dadas como um valor seguro. Mais ainda se os serviços em causa cumprem uma das funções primordiais de qualquer sociedade como é a da educação. O problema das avaliações reside, mais que tudo, nos critérios e nos instrumentos de avaliação. No fundo, discernir com rigor quem avalia, o que avalia e como avalia.
Pedir que os pais avaliem o desempenho dos professores é uma ideia que reúne as suas vantagens, se for devidamente enquadrada. Não faltam exemplos de teorias sobre o sistema educativo que defendem a participação dos pais na vida escolar e chegam mesmo a existir orientações legislativas nesse sentido. Porém, esta, como tantas outras questões, não se resolve por decreto. Os pais não se envolvem no meio escolar apenas porque o Ministério da Educação assim o pretende. E sem este envolvimento prévio, não é possível esperar que a sua participação num processo de avaliação garanta qualquer resultado fiável. Assim, apesar de a ideia não ser de todo descabida, sem a garantia do cumprimento de alguns pré-requisitos indispensáveis, apenas estão a ser dados passos num terreno que não oferece bases de sustentação adequadas.
Garantir um envolvimento prévio mais activo dos pais na realidade escolar seria um caminho mais seguro para alcançar resultados que possam ser reintroduzidos no sistema de ensino para o melhorar. Não só tendo em vista uma hipotética avaliação do desempenho dos professores por parte daqueles, mas, sobretudo, para transformar as escolas em locais de partilha de conhecimento e informação entre os agentes envolvidos na socialização das crianças. Mas convém ter presente que essa participação e essa partilha dependem tanto dos próprios pais como das diversas condições que lhes são oferecidas para aceder a essa participação, sendo, por isso, mais do que um problema exclusivo do sistema educativo, um problema da nossa sociedade e dos seus traços sociais, culturais e económicos dominantes.
O sistema educativo merece uma avaliação séria e rigorosa, o que se apresenta como uma tarefa bastante complexa. Tal avaliação tem de equacionar o ensino no seu todo, como sistema continuado e projecto estruturante, nas suas diversas partes, como subsistemas com particularidades próprias, e, finalmente, em tudo o que diga respeito aos seus agentes, como realidade última da operacionalização das políticas de ensino. Avaliar uma das componentes sem considerar as restantes tem tanto de injusto como de perigoso. Dessa visão parcial, e forçosamente redutora, retirar-se-ão conclusões também elas parciais e redutoras, que não podem ditar mais do que medidas que, em rigor, ninguém poderá garantir que correspondem às reais necessidades do ensino.
Publicado por Miguel Silva às 12:13 |
A pergunta a fazer é: onde é que se podem depositar as contribuições para que a Madeira, finalmente, alcance a desejada independência de Portugal?
Publicado por Miguel Silva às 10:13 |
Um bom começo
Atender um telefonema, logo pela manhã, por ser dia da criança.
Publicado por Miguel Silva às 09:31 |
Um dia inteiro sem acesso ao blogue. E logo quando até tinha o que publicar...
Publicado por Miguel Silva às 09:16 |
Tuesday, May 30, 2006
Estranhamente, ao contrário do que é costume, não tenho tido insónias com o início das noites quentes. Mais estranhamente ainda, sinto-lhes a falta.
Publicado por Miguel Silva às 10:09 |
Um blogue é dos poucos sítios onde não ter nada para dizer é já condição suficiente para publicar.
Publicado por Miguel Silva às 10:08 |
Friday, May 26, 2006
Thursday, May 25, 2006
Ainda a propósito do post anterior, vale muito a pena ler as achegas que o João Tunes elenca no seu Água Lisa.
Publicado por Miguel Silva às 16:30 |
A escolha
Levanta-se um coro de vozes pela derrota da GALP num concurso para a exploração petrolífera do Mar de Timor. Destaco as palavras do Paulo Gorjão, que acusa o primeiro-ministro timorense de falta de estofo e de falta de visão e que argumenta que Timor-Leste terá bastante mais a perder com este afastamento de Portugal. Se sobre as capacidades políticas de Alkatiri não tenho muito para dizer (nem a favor nem em contrário), sobre as eventuais vantagens da ligação de Timor-Leste a Portugal julgo que existe uma reflexão que o Paulo Gorjão não explora devidamente no seu post.
Os lucros muito agradáveis que os negócios da GALP têm vindo a gerar, tanto quanto penso saber, dependem sobretudo da área da refinação. Interessa à GALP, por esse motivo, aumentar e diversificar os locais de exploração que já possui. Isto digo-o tal como mo disseram a mim, que eu do negócio do petróleo percebo tanto como o ex-presidente da edilidade portuense. Ora, se isto explica o interesse de um grande grupo económico português por Timor-Leste, servindo de bitola para extrapolações que se queiram fazer para outros grupos económicos, convém conhecer, então, quais são as tão significativas contrapartidas para Timor-Leste que têm justificado tantas críticas pela decisão do concurso.
O que o Paulo Gorjão nos diz é que Timor-Leste precisa de diversificar as suas dependências, o que parece bastante razoável, e que essa diversificação deve incluir Portugal. Nas suas palavras, " à distância que Timor-Leste se encontra de Portugal, só há uma maneira de nos fazer manter atentos ao território, i.e. os negócios.
Era e é do interesse nacional timorense que as empresas portuguesas invistam em Timor-Leste. É do seu interesse não apenas porque cria emprego e gera riqueza. É do seu interesse porque quanto maior for o volume de negócios que as empresas portuguesas tenham com Timor-Leste maior será a atenção política que lhe será prestada pelo Governo português. É por isto que a derrota da GALP foi relevante."
Mas quanto a esta necessidade de gerar atenção política de Portugal sobre Timor-Leste e gerar investimento das nossas empresas no território, as justificações são parcas. É razoável interrogar o Paulo Gorjão sobre a utilidade da atenção política de Portugal. Sobre esta atenção política, e o que eventualmente a caracteriza, muito há para dizer, mas eu preferiria aguardar explicações mais detalhadas do Paulo antes de tecer mais considerações sobre este aspecto, até porque tem o potencial de nos levar para uma área algo distinta.
Não obstante, se o investimento da GALP, ou de outras empresas portuguesas, cria emprego e riqueza em Timor-Leste não será porque são empresas portuguesas, mas antes porque se trata de investimento e ser essa uma das suas características. Certamente a italiana ENI também irá gerar emprego e riqueza, a menos que se pretenda que o investimento português é intrinsecamente mais produtivo do que o investimento italiano. Mas como isso é um absurdo, a única crítica seria se a escolha da ENI fosse economicamente menos benéfica que a escolha da GALP. O Paulo Gorjão acredita que, a longo prazo, isso será verdade. Mas também é possível entrever que Timor-Leste, tendo optado pela solução mais benéfica a curto prazo, trocou um ponto de ligação económica à economia portuguesa por um ponto de ligação económica à economia italiana. O que, convenhamos, sendo a Itália um dos países mais industrializados da Europa e do mundo e sendo a economia portuguesa aquilo que se sabe, talvez não seja uma decisão tão mal pensada como pode à partida parecer. Este é o aspecto que passa ao lado do posto do Paulo Gorjão, mas que merece bastante atenção. Podemos mesmo perguntar se a derrota da GALP não configura um indicador da perda de peso internacional do nosso país, sendo ainda mais grave no sentido em que ocorre precisamente com um dos países de quem estamos supostamente mais próximos em termos de laços.
Evidentemente, existe uma ligação histórica e afectiva forte entre Portugal e Timor-Leste. Esta ligação não pode nem deve ser alienada. Não faltam maus exemplos neste campo. Portugal vive mal com as suas memórias, não guarda para elas um lugar de relevo, não as estuda, não as compreende e não as usa para aprender e agir melhor. Frequentemente, disfarça as suas memórias em mitos e fábulas que acabam por ter como utilidade, sobretudo, a sua instrumentalização ao serviço de determinadas ideologias. Embora pouco provável, seria conveniente que a relação entre Portugal e Timor-Leste não entrasse por esses caminhos. Seria mesmo, porventura, a melhor forma de ultrapassar os utilitarismos circunstanciais que a economia tende a gerar e partir para uma sedimentação descomplexada das relações externas entre os dois países.
Publicado por Miguel Silva às 11:15 |
Wednesday, May 24, 2006
Acabei de apagar um e-mail enviado por um senhor estrangeiro que não conheço cujo assunto era "oil contract". Eu sou a favor das energias alternativas.
Publicado por Miguel Silva às 15:43 |
Tuesday, May 23, 2006
Há pouco mais de dois meses optei por deixar de ter televisão em casa. Essa escolha faz-me perder alguns programas, como, por exemplo, o Prós e Contras de ontem. Perder não será bem o termo correcto. Pelo que vou lendo na blogosfera, não terei perdido nada. Quanto muito, ter-me-ei poupado a um espectáculo lamentável. Aliás, o único aspecto deste episódio a merecer nota é que parece ainda haver quem se surpreenda com estes fenómenos.
Publicado por Miguel Silva às 15:16 |
Monday, May 22, 2006
Friday, May 19, 2006
Que um blogue como o Ma-Shamba termine é algo que merece amplas reacções de descontentamento. E mereceu, pelo menos nos comentários do blogue do JPT. Que qualquer blogue, mas sobretudo um blogue com as características do Ma-Shamba, apague os arquivos depois de encerrar a actividade é algo que, tanto quanto me é dado a perceber, ainda não suscitou o amplo debate que merece.
Apagar os arquivos de um blogue parece-se demasiado com queimar livros. Ao publicar um blogue, os textos deixam de estar sujeitos ao escrutínio exclusivo do seu criador. Sendo públicos, obedecem a critérios de apropriação e pertença que lhe escapam em absoluto. Já não se trata da propriedade exclusiva do escritor. Os textos públicos pertencem, em parte, a quem os lê e essa pertença deve recolher algum respeito.
Um segundo aspecto que deve ser igualmente tido em conta é a própria forma que caracteriza a escrita num blogue. A facilidade com que se geram links associados a textos é uma dessas características. Ao apagar um blogue, o seu autor destrói essas ligações. Apesar de não ser o responsável pelos links que encaminham para textos seus, certamente não os ignora. A sua acção, assim, acaba por ter o potencial de tornar outros textos absolutamente impossíveis de compreender, sendo intrinsecamente lesiva do modo de funcionamento em rede da blogosfera.
No momento de extrair conclusões destes pressupostos, não só se torna desconfortável impor a terceiros uma forma de ver e de agir na blogosfera, como é mesmo impossível controlar esses factores. Em última análise, mesmo podendo discutir-se a apropriação dos textos como forma de pertença, a edição do blogue, por razões óbvias, permanece um domínio exclusivo dos seus administradores. Mas pode invocar-se, neste campo, um acordo de cavalheiros, à semelhança dos que já existem e são aplicados todos os dias neste meio. Como meros exemplos, dois casos: na blogosfera criam-se (quase sempre) ligações para as referências do texto ou para as fontes e não se altera o conteúdo de um post sem o devido aviso aos leitores.
Em suma, a decisão de apagar um blogue dependerá sempre dos seus autores e não é razoável que seja de outra forma. O máximo que se pode pedir é uma sensibilização dos autores para as complexas implicações da sua decisão. Muito embora, lamentavelmente, não traga blogues como o Ma-Shamba de volta, uma partilha de entendimento generalizada neste capítulo já seria muito positiva. Um começo, pelo menos.
Publicado por Miguel Silva às 17:31 |
Thursday, May 18, 2006
Uma pessoa começa o dia a ler os seus blogues preferidos e dá com uma série de interrogações que lhe aceleram logo a actividade das little grey cells:
- Não é importante para uma pessoa saber quem é/era o seu pai? Mais: não devia isso ser um direito?
- Não é importante para uma pessoa saber que nasceu do desejo e do amor de um homem e uma mulher, ambos com nome concreto, história e raízes? Não é importante conhecer todas as circunstâncias da sua origem?
(...) e porque é que este filho há-de ficar para sempre preso ao enigma do seu pai biológico?!
Como é que isto se resolve a contento de todas as partes interessadas?
Ora, depois de muita actividade, sinto-me tentado a responder, respectivamente, da seguinte forma: depende, talvez, depende, depende, não sei e não sei.
Se o que é a vida de uma pessoa já constitui um enigma difícil de destrinçar, aquilo que essa vida poderá vir a ser assume um carácter ainda mais dúbio. Evidentemente, temos uma panóplia de ciências, os seus corpos teóricos e os seus conhecimentos empíricos, que nos ajudam a prognosticar, com maior ou menor probabilidade, o que são os labirínticos caminhos da actividade psicológica e social do ser humano. Mas apontar um destino, uma forma de pensar, de sentir e de agir, entendidos num sentido determinista, não pode ser outra coisa senão um exercício de futurologia.
A socialização da criança, nos seus primeiros anos de vida, caracteriza-se por uma interiorização da realidade tal como é apresentada pelos agentes de socialização mais relevantes nessa fase, geralmente os pais. A realidade apresentada por esses agentes será entendida não como uma realidade específica – uma alternativa entre muitas –, mas sim como a realidade – um absoluto. Mesmo os primeiros contactos com outras realidades são pautados por esta interiorização, a qual ganha ascendente sobre elas, sendo as alternativas de vida encaradas como anormalidades. Tal como os estudos de Piaget deixaram bastante claro, algumas crianças colocam as "verdades" dos pais acima de tudo, incluindo, por exemplo, das "verdades" de Deus. Só no momento em que as competências de abstracção e relativização da realidade social se vão consolidando é que a comparação entre os diferentes mundos passa a ser feita em termos mais comuns à que é feita pelos adultos. Do jogo de influências entre o que está vivido e o muito que está por viver há-de resultar, então, uma forma mais coerente de analisar a realidade e de encontrar nela um lugar próprio.
Mas se estes são os traços largos dos primeiros anos de socialização, o seu resultado concreto está dependente de inúmeras variáveis, entre as quais se devem contar, as biológicas, as psicológicas e as sociais.
Desta incerteza resultam tantos "depende" como resposta às difíceis perguntas que a Helena postou no 2 Dedos de Conversa. Tais factos serão importantes se as circunstâncias em que a criança é educada levarem à construção dessa necessidade. E, a partir do momento em que ela existe, não há como recusar-lhe legitimidade. Mas apenas nesse momento, e não antes, o que seria mera projecção da forma de estar do observador.
É inquestionável que um ambiente familiar saudável possui estabilidade e amor em doses reforçadas. Agora, por quantas pessoas devem ser essa estabilidade e esse amor assegurados é uma questão bastante diferente. Uma família monoparental não tem, forçosamente, de ser uma família diminuída no seu amor e na sua solidez de laços. Será, porventura, uma família condicionada na desejável distribuição de tarefas. Mas a consequência lógica desse facto é mais trabalho e não menos amor. Aliás, uma família monoparental que funciona bem é incomparavelmente melhor do que uma família biparental que não funciona. Mais ainda, enquanto a monoparentalidade constitui uma família, a associação forçada de um dador de esperma a essa família não se sabe bem o que constituiria. Nesse campo, talvez a liberdade de decisão, o bom-senso e a ponderação sejam as melhores soluções.
A Helena diz que fica com uma série de pruridos éticos resolvidos se ficar claro que os progenitores biológicos têm deveres iguais em relação à criança, e a criança tem direitos iguais em relação a ambos. Mas, para terminar, pergunto eu agora, com um certo egoísmo, reconheço, porque estou a colocar o meu prazer em trocar ideias com a Helena à frente dos caixotes que ela tem de empacotar até Junho, pergunto eu, então, se o sexo ou o esperma conferem direitos? Ou não será antes o trabalho, o muito trabalho, todos os dias, um após outro, o material de que é feito um pai ou uma mãe?
Publicado por Miguel Silva às 13:09 |
Wednesday, May 17, 2006
Eu, sendo uma pessoa situada politicamente à esquerda, julgo que as mulheres solteiras não devem ser deixadas de fora na procriação medicamente assistida, defendo que o Estado tem um papel obrigatório como interveniente na prestação de determinados serviços e torço sempre pelo Barcelona. Com tempo, hei-de voltar para explicar cada uma destas ideias, uma de cada vez.
Mas como também sou uma pessoa com as suas limitações, não compreendo como é que determinadas actividades, frequentemente apontadas como demasiado dispendiosas para o Estado, parecem despertar a cobiça dos privados, que não se importam de assumir para eles o que o Estado vai alienando. Também hei-de regressar a esta questão.
Publicado por Miguel Silva às 17:23 |
Tuesday, May 16, 2006
Devo reconhecer que, apesar de tudo o que possa ter dito em contrário, faz toda a diferença que não tenhas tempo para ler o que escrevo.
Publicado por Miguel Silva às 14:41 |
Foi só depois de começar a pensar que, um dia, me podiam cair as chaves pela frincha ao pé da porta do elevador que isso veio mesmo a acontecer.
Publicado por Miguel Silva às 09:56 |
Friday, May 12, 2006
Olha outro... Não sei o que diga. Nem, ao menos, um bloguezito sobre futebol, onde se possa ir desancar o Sporting de vez em quando?
Publicado por Miguel Silva às 14:13 |
Wednesday, May 10, 2006
Estranho a publicidade gratuita ao Código Da Vinci – em livro e em filme – a que algumas organizações religiosas se prestam com os seus protestos. Mas, mais do que isso, estranho que não consigam separar uma investigação histórica minuciosa de uma especulação utilizada num produto literário de qualidade menor. Para além disto, é ainda sintomático da mentalidade que domina certos meios religiosos, ainda que, felizmente, não todos, a recomendação para que não se assista ao filme, a qual parece não reconhecer autonomia aos seus fiéis para fazerem um juízo por si próprios.
O Código Da Vinci, como produto artístico/comercial, não coloca em causa os fundamentos da religião católica. No entanto, os Evangelhos gnósticos, não incluídos na Bíblia, possuam relevância suficiente para levantar muitas questões sobre os fundamentos desses produtos puramente humanos que são as Igrejas. Mas sobre esses temas de grande interesse, sob variados pontos de vista, que são o surgimento dos cristianismos e das suas Igrejas, a sua multiplicidade nos primeiros anos da nossa era, a luta ideológica e a subsequente hegemonia do que mais tarde se veio a conhecer como Igreja Católica pouco de fala. Porventura, na maioria dos casos, por desconhecimento. Noutros, certamente por conveniência.
Publicado por Miguel Silva às 10:34 |
Um membro do Fórum Social Católico da Índia oferecer uma recompensa a quem entregar Dan Brown vivo ou morto, como se pode ler numa notícia do Diário Digital, é substancialmente diferente de ser o Fórum Social Católico da Índia a oferecer essa recompensa, como se pode ler também na mesma notícia.
Independentemente destas imprecisões, diga-se que oferecer recompensas deste género não parece ser uma atitude muito cristã.
Publicado por Miguel Silva às 10:02 |









