Micro-causa
Deixem sair o Rui Costa em Dezembro. O homem não merece passar pelas desgraças que esperam o resto da equipa esta época.
"Aliás, são sempre os outros que morrem." - Marcel Duchamp
Deixem sair o Rui Costa em Dezembro. O homem não merece passar pelas desgraças que esperam o resto da equipa esta época.
Publicado por Miguel Silva às 15:06 |
In a little while
This hurt will hurt no more
U2, In A Little While
Publicado por Miguel Silva às 22:13 |
Cavaco está a cumprir seis meses de mandato. Quer dizer que restam quatros anos e meio. Não é animador, mas já foi pior.
Publicado por Miguel Silva às 19:35 |
O cristianismo gnóstico característico dos primeiros séculos da nossa era caracterizou-se por uma forte componente de diversidade e complexidade. Dos diferentes mitos de criação do mundo que os gnósticos professavam, alguns deles descreviam a criação do universo como um erro cósmico que teria tido origem nas acções de uma entidade divina – a Sabedoria – subordinada ao verdadeiro Deus.
Por seu lado, o livro do Génesis, adoptado como escritura sagrada pelo judaísmo e pelo cristianismo, relata um mito com algumas semelhanças. A desgraça de Adão e Eva dá-se após Deus descobrir que provaram o fruto da árvore da ciência do bem e do mal; e é por possuírem esse conhecimento que são castigados com a expulsão do paraíso.
As religiões cumprem, entre outras, a importante função de criar um conjunto pré-ordenado de imperativos morais. Isto pode ser bastante útil, uma vez que é bastante mais fácil cumprir e fazer cumprir um mandamento emanado por Deus do que gastar tempos indeterminados a fundamentar a sua justiça.
Por muito que se possa discordar das visões do mundo que as religiões têm para oferecer ou do seu proselitismo, a liberdade religiosa é hoje, justamente, um direito inquestionável. Mas, apesar disso, não deixa de ser conveniente desconfiar de credos que parecem guardar tantas reservas contra os caminhos autónomos para o conhecimento.
Publicado por Miguel Silva às 19:33 |
O Gil Vicente quer contestar nos tribunais o alegado interesse público do campeonato nacional de futebol invocado pela FPF. Assim de repente, não me ocorre melhor exemplo de algo que não tem absolutamente nenhum interesse público do que o nosso campeonato de futebol. Qualquer estagiário há-de conseguir provar isso sem sequer ter de se aplicar a sério.
Publicado por Miguel Silva às 17:59 |
Revigorado é um manifesto exagero. Com outra disposição, digamos assim. Mas também isso muda. Tudo muda.
Publicado por Miguel Silva às 15:16 |
O que importa reter no amor é a noção da sua mortalidade. "Grandes amores" existem muitos ao longo de uma vida. O trabalhoso empenho que os faz perdurar é que se mostra extraordinário.
O mal que os ideais românticos trouxeram ao amor ainda não foi devidamente denunciado, muito menos expurgado, como é necessário e imprescindível que se venha a fazer.
Publicado por Miguel Silva às 17:30 |
A posição da FIFA pode, até, ser entendida como um acto radical de chantagem para atingir os seus propósitos mais imediatos que passam pela manutenção do actual equilíbrio de poder que lhe é tão favorável. Compreende-se que as pessoas ligadas aos organismos que tutelam o futebol assumam um discurso que legitime essas pretensões. Afinal, fazem parte do mesmo sistema. Mas já se entende menos essa postura em jornalistas e comentadores que não pertencem a esses circuitos. O que se tem ouvido com frequência é uma defesa das normas da FIFA por serem normas e não por serem legítimas ou justas. Pode dizer-se que qualquer clube envolvido nestas competições tem por obrigação conhecer os regulamentos, mas isso é uma questão secundária. O tema principal, o cerne de todo este imbróglio, é o jogo de relações de poder e a legitimidade dos organismos e dos seus regulamentos. As análises sérias e consequentes deviam estar a centrar-se nestes aspectos e não no circo que os envolve e que ilude o essencial.
Publicado por Miguel Silva às 12:45 |
Se a FIFA decidir suspender a selecção nacional das competições em que se encontra envolvida, sempre nos vai poupando à tristeza de assistir a derrotas com qualquer conjunto de onze cepos louros com pernas que nos defrontem. Apesar disto, escapa a qualquer lógica de justiça, pelo menos na forma como esta é entendida nos últimos 200 ou 300 anos, que se castigue uma pessoa ou entidade por uma prevaricação cometida por outrem. A decisão do Gil Vicente de recorrer aos tribunais é da exclusiva responsabilidade do clube e apenas a ele assiste o direito e capacidade de a inverter. Assim, castigar qualquer outra entidade que não o Gil Vicente assume contornos draconianos que não têm correspondência com o entendimento da aplicação da justiça moderna.
A FIFA parece exigir da FPF um castigo exemplar para o clube de Barcelos. É de crer que Blatter tenha explicado a Gilberto Madaíl o que entende por isso, embora os critérios específicos não tenham transpirado para a comunicação social. Para os leigos e para os menos sintonizados com as sensibilidades destes organismos, um castigo exemplar pode assumir diversas formas, desde despromoções de divisão até à irradiação definitiva de todas as competições sob a alçada da FPF, pelo que seria interessante que alguém pudesse avançar com mais alguns pormenores para se saber o que está em causa.
Importa ainda, e talvez seja este o aspecto não desportivo mais relevante deste caso, saber onde se situam as fronteiras de competências entre os organismos que tutelam o desporto e o sistema judicial de um país. Para isso, é fundamental definir rigorosamente o âmbito das questões a apreciar. Interessa, acima de tudo, definir com o maior grau de precisão possível o que são as situações que, no actual sistema regulamentar, apenas dizem respeito aos organismos desportivos e as que são passíveis de recurso para o sistema judicial. Tal como é fundamental aferir se o sistema regulamentar em vigor possui legitimidade ou se contém obrigações abusivas que extravasam largamente os direitos, liberdades e garantias que estão consagrados na maioria das legislações democráticas.
E importa definir os termos destes procedimentos porque, se por um lado ninguém está interessado em ver os tribunais levarem 3 anos a decidir se um cartão amarelo foi bem mostrado ou se um jogador se encontrava em fora de jogo quando marcou um golo, por outro lado o acesso à justiça é um direito reconhecido e inalienável, o qual não pode ser posto em causa por um conjunto de regulamentos emanados por um organismo sem qualquer poder para decidir nessas áreas.
A posição da FIFA entende-se, pois muito se encontra em risco para esse organismo. Se o Gil Vicente percorrer todo o caminho dos tribunais, podemos estar perante uma nova situação em que um tribunal europeu venha a decidir contra os regulamentos da FIFA. O curioso desta situação é que, tal como a FIFA pretende, se a FPF vier a castigar exemplarmente o Gil Vicente, quanto maior o castigo, maiores as probabilidades de o clube continuar o percurso que iniciou no sistema judicial. Como é bom de ver, quanto menos ligações uma entidade mantiver com um sistema, quanto mais afastada ou excluída, maior o grau de liberdade para agir sem quaisquer constrangimentos. Em última análise, quer estejamos a falar de pessoas ou de organizações que partilham um sistema de interacção privilegiada, a vida em comum funciona porque existe um conjunto de direitos e obrigações, muitas vezes tácitos, aos quais os membros se sujeitam porque é legítima a expectativa que os outros também os respeitem. A partir do momento em que se quebre este elo, a escalada no extremar de posições é um cenário muito real.
Publicado por Miguel Silva às 12:20 |
"Dentro de los círculos proto-ortodoxos empezó a hacerse cada vez más énfasis en la necesidad de una estricta jerarquía de autoridad, en la cual el obispo supervisaba el trabajo de presbíteros y diáconos (…), y en lo importante que era garantizar que sólo se permitiera el acceso a esta dignidad a aquellos que entendieran la fe de la manera adecuada. Las habilidades administrativas eran muy valiosas, pero un correcto entendimiento de la Verdad era una condición sine qua non. En el curso de esta evolución, Ireneo, Tertuliano y sus sucesores emplearon el argumento de la «sucesión apostólica» para responder a cualquier afirmación de los gnósticos u otros a propósito de la verdad: nadie excepto los obispos nombrados por los herederos de Cristo podía tener razón sobre las preciosas verdades de la fe.
El argumento sobrevivió incluso al incómodo hecho de que para los siglos II y III ya existían obispos – incluidos obispos romanos – que habían sido declarados herejes por teólogos proto-ortodoxos bienintencionados (y con frecuencia ambiciosos). Pero como cualquiera que esté familiarizado con los debates políticos contemporáneos sabe bastante bien, la fuerza retórica de un argumento no debe ser confundida con las realidades prácticas que comprometen su lógica."
Bart D. Ehrman, Cristianismos Perdidos, Ares y Mares, 2004
Publicado por Miguel Silva às 21:31 |
Segundo o Jornal de Notícias (via Bloguítica), a GNR e a PSP utilizam uma tabela de conversão para apurar o grau de álcool no sangue dos condutores. Levantou-se, assim, uma dúvida sobre o valor efectivo a partir do qual um condutor se encontra a infringir a lei, o que acaba por ser uma polémica desprovida de sentido.
Um aparelho de medição, seja ele analógico ou digital, tem sempre um erro de medição associado. Este não resulta do seu mau funcionamento, ou da falta de homologação (a qual garante que o aparelho cumpre as normas e os requisitos definidos previamente), mas da sua natureza enquanto aparelho medidor. Não há medições perfeitas, por isso torna-se fundamental aferir uma margem de erro, algo que se aprende a fazer no primeiro ano de muitos cursos de engenharia.
O único aspecto aqui que merece ser notícia é o estado dos aparelhos de medição e a confiança que eles oferecem às autoridades. No seguimento do que o JN publicou, seria interessante apurar estas informações, ouvindo o MAI, a DGV e os elementos da PSP e GNR que trabalham com estes aparelhos. De qualquer forma, em caso de dúvida, existem sempre a solução dos testes sanguíneos, não porque estes possuam uma base científica superior à que suporta os aparelhos das brigadas, mas, certamente, porque a maior confiança que oferecem advém de serem realizados com aparelhos que possuem margens de erro bastante menores, às quais não são imunes.
Publicado por Miguel Silva às 16:42 |
As multidões cabem onde quer que se crie espaço para as acolher. Compreensivelmente, não se pode perder a dor da vítima, não se lhe pode ficar sequer indiferente. Apesar disso, não se conhece a dor da vítima em toda a sua profundidade enquanto não se conhece o que a motivou. E, sobretudo, não se pode dizer que quando se observa um dos lados desta balança se perde irremediavelmente o outro. Nem se trata de uma questão de menosprezar a humanidade da vítima ou do criminoso, mas de não renunciar à nossa.
Agora, pode sempre não se seguir este caminho. Até é mais fácil não o fazer. Quando temos as nossas categorias bem delimitadas e hermeticamente fechadas o mundo encaixa muito melhor.
Publicado por Miguel Silva às 15:26 |
A UE está preocupada, e bem, com a igualdade de oportunidades. Por isso, prepara-se para implementar uma campanha de sensibilização apostada em salientar a riqueza da diversidade, a qual deverá ser ainda suportada por uma cimeira europeia.
Uma das vertentes desta preocupação passa pela não discriminação em função da idade. O problema da discriminação etária não se resume ao mundo do trabalho. A discriminação etária é transversal aos mais variados campos das sociedades modernas. Talvez potenciada pela intensidade do ciclo de obsolescência e renovação das tecnologias, é bastante reconhecível uma atenção especial dedicada não só às novidades, mas também ao que é novo. A este facto não fica alheio o capital humano. De uma forma geral, as sociedades modernas não sabem como integrar os seus idosos, nem são capazes de elaborar estratégias de participação activa dos idosos no quotidiano. Não se trata apenas de uma exclusão ao nível laboral e de uma exclusão ao nível económico, mas antes de uma exclusão social alargada, de um afastamento dos circuitos de participação e de convivência social.
Há todo um paradigma que precisa de sofrer uma profunda alteração. Para um problema que assume estas proporções, uma campanha de sensibilização é muito pouco. Sobretudo se não se traduzir, e a experiência não nos leva a crer que o faça, em medidas concretas. O que se torna premente são estratégias vinculativas de inclusão, quer passem pelo fim da discriminação no local de trabalho, quer passem pela reconversão de equipamentos de apoio que funcionam como guetos sociais, quer passe pela simples obrigatoriedade de se equacionar os problemas de mobilidade que tantas vezes constituem uma barreira física e social para os idosos.
Há muito para fazer. A UE decidiu começar pela publicidade. Talvez pudesse ter começado melhor.
Publicado por Miguel Silva às 15:11 |
Não sei se tenho jeito para levar a minha avante. Sei que tenho uma certa dose de paciência para aguardar uma ocasião mais oportuna. Ao contrário do que possa parecer, isso nem sempre é bom.
Publicado por Miguel Silva às 10:33 |
Espero que a blogosfera não passe ao lado do facto de eu hoje ter acordado mais cedo que o Pacheco Pereira.
Publicado por Miguel Silva às 07:46 |
No fim-de-semana em que começa o campeonato de futebol, ainda não se sabe a lista completa de equipas que o vão integrar. Isto não será muito importante quando comparado com todos os outros problemas que assolam o país, mas é bastante sintomático.
Publicado por Miguel Silva às 15:54 |
"Há língua-da-sogra! Quem quer a língua daquela malvada?", disse o vendedor ambulante.
Publicado por Miguel Silva às 15:10 |
Guerra ao terror reforçou posição do Irão enquanto potência regional
Mais uma profecia no bom caminho.
Publicado por Miguel Silva às 17:01 |
Como provocação barata e de muito mau gosto, houve quem tenha chegado a dizer que alguma esquerda se congratulava com o terrorismo fundamentalista que eclodiu no seio dos EUA e da Europa. Embora seja perigoso deixar a paranóia com rédea solta, pois corre-se o risco de passar a tomá-la pela realidade, tais disparates não mereceram nem merecem grandes considerações. De certa forma, ceder a este tipo de provocação seria reconhecer-lhe um estatuto de argumentação válida, o qual, manifestamente, lhe falta.
Hoje, mais do que logo após o 11 de Setembro, ou o 11 de Março, ou o 7 de Julho (curiosamente, os atentados diários no Iraque e as centenas de mortos na Índia e na Indonésia, por exemplo, ficam quase sempre fora destas contas), perante um coro crescente de críticas à guerra no Iraque e à putativa melhoria da segurança mundial, os apologistas da intervenção militar parecem clamar por mais uma desgraça de proporções desumanas para justificar a sua visão ultra-securitária. Não lhes interessa que tudo o que têm defendido desde que os EUA mostraram a ânsia de entrar no Iraque se tenha desmoronado com estrondo. A única teoria do dominó que tem funcionado tem sido a dos erros grosseiros e dos falhanços sucessivos nos quais a guerra no Iraque e a política externa dos EUA têm sido prolíficas.
Contra a mais pequena centelha de bom senso, as vozes do costume gritam por mais do mesmo. Compreende-se: está em curso uma das maiores self-fulfilling prophecies de sempre. Apostados em perseverar na sua estratégia, que apenas tem mostrado provocar maior instabilidade e insegurança, hão-de colher o amargo fruto que tantas vezes previram nas suas análises.
Entretanto, jogam com as vidas dos civis envolvidos nos seus jogos de poder e jogam com a vida dos militares que cumprem os seus caprichos. Quantos mais sofrerem, mais facilmente se provará que tinham razão.
Publicado por Miguel Silva às 00:10 |