Sunday, August 27, 2006

Não sei se tenho jeito para levar a minha avante. Sei que tenho uma certa dose de paciência para aguardar uma ocasião mais oportuna. Ao contrário do que possa parecer, isso nem sempre é bom.

Early morning god damn it

Espero que a blogosfera não passe ao lado do facto de eu hoje ter acordado mais cedo que o Pacheco Pereira.

Saturday, August 26, 2006

No fim-de-semana em que começa o campeonato de futebol, ainda não se sabe a lista completa de equipas que o vão integrar. Isto não será muito importante quando comparado com todos os outros problemas que assolam o país, mas é bastante sintomático.

"Há língua-da-sogra! Quem quer a língua daquela malvada?", disse o vendedor ambulante.

Thursday, August 24, 2006

Guerra ao terror reforçou posição do Irão enquanto potência regional

Mais uma profecia no bom caminho.

Perante o abismo, um passo em frente

Como provocação barata e de muito mau gosto, houve quem tenha chegado a dizer que alguma esquerda se congratulava com o terrorismo fundamentalista que eclodiu no seio dos EUA e da Europa. Embora seja perigoso deixar a paranóia com rédea solta, pois corre-se o risco de passar a tomá-la pela realidade, tais disparates não mereceram nem merecem grandes considerações. De certa forma, ceder a este tipo de provocação seria reconhecer-lhe um estatuto de argumentação válida, o qual, manifestamente, lhe falta.

Hoje, mais do que logo após o 11 de Setembro, ou o 11 de Março, ou o 7 de Julho (curiosamente, os atentados diários no Iraque e as centenas de mortos na Índia e na Indonésia, por exemplo, ficam quase sempre fora destas contas), perante um coro crescente de críticas à guerra no Iraque e à putativa melhoria da segurança mundial, os apologistas da intervenção militar parecem clamar por mais uma desgraça de proporções desumanas para justificar a sua visão ultra-securitária. Não lhes interessa que tudo o que têm defendido desde que os EUA mostraram a ânsia de entrar no Iraque se tenha desmoronado com estrondo. A única teoria do dominó que tem funcionado tem sido a dos erros grosseiros e dos falhanços sucessivos nos quais a guerra no Iraque e a política externa dos EUA têm sido prolíficas.

Contra a mais pequena centelha de bom senso, as vozes do costume gritam por mais do mesmo. Compreende-se: está em curso uma das maiores self-fulfilling prophecies de sempre. Apostados em perseverar na sua estratégia, que apenas tem mostrado provocar maior instabilidade e insegurança, hão-de colher o amargo fruto que tantas vezes previram nas suas análises.

Entretanto, jogam com as vidas dos civis envolvidos nos seus jogos de poder e jogam com a vida dos militares que cumprem os seus caprichos. Quantos mais sofrerem, mais facilmente se provará que tinham razão.

Wednesday, August 23, 2006

Procurar respostas sem querer fazer perguntas.

Your eyes forever glued to mine

Placebo, Blind

Friday, August 18, 2006

Rejubilai! Pela primeira vez em não sei quantos anos todas as equipas do primeiro escalão do campeonato nacional de futebol vão ser treinadas por portugueses. É difícil esconder o êxtase. Ainda hoje, o comentador da TSF, num assomo de originalidade, recordava que "o que é nacional é bom" e acrescentava, para melhor defender os interesses do treinador português, que Co Adriaanse veio treinar para Portugal sem ter ganho qualquer título.

Ora, neste registo de demagogia barata também se poderia afirmar que uma boa parte dos treinadores portugueses que vão começar este campeonato à frente de equipas da 1ª Liga também nunca ganharam nada de jeito. Tal como se poderia afirmar que o número de portugueses a liderar equipas técnicas de clubes de referência por esse mundo fora se pode contar pelos dedos de uma mão, sendo que talvez sobrem mais dedos do que aqueles que são precisos para os contar.

Mais razoável seria reconhecer que os clubes portugueses não têm capacidade financeira para pagar a treinadores estrangeiros, muito menos se estes estiverem habituados a trabalhar nos melhores campeonatos europeus, nem o campeonato nacional, pela sua fraca qualidade, tem capacidade de atrair treinadores que aspirem a uma carreira de relevo.

Contra esta triste realidade, há quem prefira erigir uma bonita ilusão patriótica. Mas esta, no fundo, não passa de apenas mais uma versão dessa nacionalíssima característica que é o provincianismo.

Contam os livros de História que, durante a Guerra do Peloponeso, os Atenienses teriam afirmado aos habitantes sitiados da cidade de Mélio que "os fortes fazem o que têm poder para fazer e os fracos aceitam o que têm de aceitar".

Muito tempo depois, já em pleno século XVIII, Jean-Jacques Rosseu escreveu sobre o direito do mais forte:
"Consideremos um momento esse pretenso direito. Penso que dele apenas resulta um imbróglio inexplicável, pois, sempre que é a força que faz o direito, o efeito muda com a causa; qualquer força que se sobreponha à primeira sucede ao seu direito. A partir do momento em que se pode desobedecer impunemente, pode-se desobedecer legitimamente, e, visto que o mais forte tem sempre razão, apenas importa conseguir ser o mais forte. Mas, afinal, que é um direito que desaparece quando a força cessa? Se se tem de obedecer pela força, não é preciso obedecer por dever e, se não se é forçado a obedecer, já não se é obrigado a obedecer. Vemos portanto que esta palavra ‘direito’ não acrescenta nada à força; neste caso, não significa absolutamente nada.
(…)
Convenhamos portanto que não é a força que faz o direito e que apenas se é obrigado a obedecer aos poderes legítimos."


Uma vez dissociada a noção de poder da noção de legitimidade, resulta que apenas quando estes dois conceitos se reúnem se afigura perfeitamente justificado o exercício do primeiro. Caso contrário, a legitimidade passa a estar do lado dos que se recusam a obedecer.

Diz-se que só existe moralidade quando existe a possibilidade de escolha. Ninguém é obrigado a cumprir o impossível, mas também é verdade que raras vezes uma situação se apresenta realmente sem possibilidade de escolha. Os princípios morais acompanham as nossas acções e a utilização do peso do contexto como argumento justificativo é, muitas vezes, apenas uma forma de desculpabilização. Uma desculpabilização que Sartre apelidou de má fé. O simular de uma necessidade, de uma força maior, quando, eventualmente, tudo se pode reduzir a uma opção pessoal. O ser humano não pode ser entendido fora do seu contexto social, separado das suas circunstâncias, mas também não pode ser entendido fora do seu livre arbítrio. Algo que é válido para o criminoso, para a vítima, para o juiz e para o algoz.

Thursday, August 17, 2006

No que diz respeito aos voos mais que suspeitos da CIA, Portugal, ou o seu governo, talvez pouco pudessem usar para pressionar os EUA a não usar as bases das Lages como escala. Além disso, é necessário recordar que se trata de um país com quem Portugal mantém laços de amizade e alianças estratégicas no que diz respeito à defesa e à economia. Pode ainda evocar-se que, caso o governo português recusasse o espaço aéreo nacional a tais voos, algum outro país estaria na disposição de os aceitar, o que nos levaria a perder influência junto dos EUA e, até, a sofrer alguma espécie de retaliação diplomática ou económica, sendo preteridos como parceiros estratégicos num futuro próximo. Pode equacionar-se a delicada posição de Portugal nestes termos e aceitar uma certa dose de tolerância perante algumas violações das convenções internacionais e das mais básicas regras de respeito pelo ser humano.

Na realidade, isto é o que, com alguma hipocrisia, se pode apelidar de realismo; e o que, com bastante realismo, se pode apelidar de hipocrisia.

Porque também se pode afirmar, com toda a propriedade, que a luta contra o terrorismo, especialmente o que nos aflige neste tempo, passa por ser um confronto ideológico. O terrorismo de cariz fundamentalista submete os meios aos fins a alcançar e legitima o uso da violência na tarefa de os atingir. Contra esta ideologia, sem prejuízo de uma melhoria significativa da segurança dos seus cidadãos, as democracias ocidentais deviam cerrar fileiras em torno dos princípios fundamentais que tanto lhes custou a conquistar. Princípios como o Estado de Direito e o respeito pelas garantias que assistem a qualquer pessoa, independentemente das suspeitas que sobre ela recaiam.

Ao afirmarem sem complexos os traços característicos da sua identidade, as democracias ocidentais assumem a melhor forma de combate ideológico de que dispõem. A outra hipótese é deixarem-se corromper, mais ou menos lentamente, em nome de uma luta que afirmam travar precisamente contra uma ideologia que serve de suporte a todo o tipo de atrocidades.

Voltei.

Thursday, July 20, 2006

Um aspecto inquestionavelmente associado à Lei do Protocolo de Estado é a necessidade de regulamentar as precedências entre as hierarquias do Estado. Outro é o provincianismo que estas mexidas sempre exalam. O Protocolo também pode ser visto como uma continuação desse fado nacional que é a deferência servil. Ouve-se dizer, com uma certa frequência, dichotes anedóticos sobre o conflito entre o primeiro rei de Portugal e a sua mãe, numa alusão que se pretende à imagem do ditado popular “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mas quanto a maus começos, a história de um Egas Moniz, que se teria apresentado em absoluta submissão ao rei de Castela, também tem muito que se lhe diga como imagem de marca.

O Protocolo acaba por ser uma continuação, numa versão bastante mais elaborada, do tratamento por Sr. Doutor e Sr. Engenheiro que conseguimos, algures durante o século passado, converter em condição sine qua non do reconhecimento respeitoso do estatuto do outro. Tudo isto nos remete para uma ligação ainda muito forte à autoridade tradicional, que o Protocolo pretende fundir com a autoridade legal, reforçando assim as legitimidades de uma e de outra. Só desta forma se entende que o lugar reservado para os representantes das confissões religiosas seja definido em função da sua implantação na sociedade. Traduzindo, quantos mais fiéis, maior relevo no Protocolo.

Se já se pode questionar a inclusão das autoridades religiosas no Protocolo de Estado, mais se pode questionar esta discriminação entre confissões. Por detrás de uma suposta máscara democrática esconde-se um tradicionalismo arcaico. Faltou sentido de igualdade, e faltou coragem, para equiparar todas as confissões religiosas, perante o Estado e perante a sociedade. O Estado não tem preferências, nem deve assumir para si as da sociedade civil, embora seja aconselhável que as saiba identificar. Mas esta separação entre a esfera pública e a esfera privada ainda provoca muita confusão a muita gente. Os velhos hábitos custam a mudar.

Tuesday, July 18, 2006

Se este blogue dispusesse de um player, oferecia a quem por aqui passa o tema Halloween, pela voz de Dave Matthews. Para quem não conheça a música, não é inteiramente justo que se diga que Dave Matthews canta a letra da canção. Mais apropriado seria dizer que aqueles cinco minutos são preenchidos por uma voz que vai gritando de dor, de raiva, de impotência e de despeito. O amor também pode ser isto tudo.

Regressemos, disse o bloguista depois do descanso.

Thursday, June 29, 2006

"Calem-se as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido falar; mostrem-se submissas, como diz a própria Lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-no em casa aos seus maridos, porque não é decente que a mulher fale na Igreja."
1ª Epístola aos Coríntios, 14:34-35


Parecem não restar dúvidas que Paulo terá escrito a 1ª Epístola aos Coríntios que se encontra incluída no Novo Testamento. Contudo, a autoria dos versículos 34 e 35 do capítulo 14 mostra-se um assunto bastante mais problemático. Vários motivos, apontados pelos especialistas, levam a crer que não só Paulo não teria escrito essas linhas como a sua opinião sobre a participação das mulheres na vida da Igreja teria sido algo diferente. Em vários outros momentos, em cuja autoria não oferece dúvidas, Paulo fala de forma abonatória, ou pelo menos neutra, da participação das mulheres nas actividades da Igreja e refere mesmo algumas que desempenhavam funções de liderança ou de relevo no seu seio.

Contudo, como se vê, num texto que foi escolhido para figurar na Bíblia, alguém terá decidido acrescentar um retoque de características claramente misóginas. A questão, aqui, nem é tanto a da autoria de tal parágrafo nem a da fidelidade deste às convicções de Paulo. O que se depreende destas deturpações dos originais é que não só foram, em algum momento, consideradas necessárias por alguma pessoa ou por algum grupo, como recolheram a aceitação da opinião pública, tanto na altura como nos séculos que ainda estavam para vir. O que está em causa é um problema de ideologias. Apesar de se tratar, muito provavelmente, de uma falsificação, a redacção do parágrafo da 1ª Epístola aos Coríntios que remete as mulheres ao silêncio traduz uma visão das relações sociais entre homens e mulheres e dos lugares reservados para uns e outras. A sua publicação e subsequente aceitação revela, por seu lado, uma mentalidade dominante disposta a suportar essa versão dos relacionamentos. Trata-se de um círculo viciado. Algures no meio social existe uma visão misógina do lugar da mulher; falsifica-se então um texto de cariz teológico de acordo com essa mesma visão; esse texto passa, assim, a conferir legitimidade à visão misógina que, de facto, lhe esteve na origem.

Essa ideologia, essa visão da mulher perante o homem, vingou na altura, vingou através dos tempos e continua a vingar hoje. Dir-se-á que percorremos um longo caminho e que hoje as mudanças para melhor na igualdade de direitos são uma realidade inegável. Mau seria que não o fossem. Percorremos, efectivamente, um longo caminho. Alteraram-se, efectivamente, as mentalidades. Mas terá sido o suficiente? Tem a mulher o lugar de igualdade na sociedade a que, também inegavelmente, tem direito?

Os factos parecem apontar o contrário e os discursos produzidos sobre o tema traem várias vezes as boas intenções que pretendem veicular. Sobre o número de mulheres a desempenhar cargos de relevo, já muito se disse. São poucas, apesar de não lhes faltarem as qualificações. Os lugares de topo estão sobretudo preenchidos por homens que recrutam sobretudo homens. Nas sociedades ocidentais não existem barreiras oficiais à participação das mulheres na vida pública, mas essa participação continua a ser dominado pelos homens e esse é um sinal ao qual não se pode ficar indiferente. Apesar de não serem sociedades assumidamente discriminatórias para a mulher, o domínio masculino só pode oferecer desconfiança.

As regras sociais podem possuir tanta ou mais força que as regras legais. Mais ainda, enquanto as regras legais são mais claramente percebidas como construção, as regras sociais apresentam-se, a maior parte das vezes, de forma "natural". Mas as regras sociais têm tanto de construção como as regras legais. Simplesmente, enquanto estas últimas se encontram coligidas em códigos, a partir dos quais é possível descobrir o exacto momento da sua origem e traçar o seu percurso desde então, as primeiras vivem há muito no acervo colectivo da cultura e das práticas da sociedade. Perde-se assim a perspectiva de construção social que lhes deu origem e as manteve, para ganharem, por substituição, um peso de realidade "natural" e "inquestionável".

As ideologias têm a característica de se transformarem em realidades opacas. Ou melhor, de se confundirem com a realidade. Uma ideologia é uma visão do que o mundo deve ser, de acordo com determinado grupo social, e não o que o mundo efectivamente é. Mas pode ser muito difícil discernir o que é realidade e o que é ideologia. Existe um grupo intitulado Associação Mulheres em Acção que, entre outras coisas, defende a participação activa das mulheres na vida pública e em termos de igualdade com os homens. Entre os seus argumentos consta a defesa dos "valores propriamente femininos". Ora, embora não se saiba exactamente o que querem as Mulheres em Acção dizer com "valores propriamente femininos", sabe-se, desde há algumas décadas, que os papéis sociais do homem e da mulher são socialmente determinados. São as sociedades que constroem as identidades sociais para os homens e para as mulheres. Mas quando um grupo que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres integra no seu discurso uma visão das identidades de género que é, ela mesma, de certa forma, tributária da discriminação social, não resta muito mais para dizer sobre o sucesso da dominação masculina. A discriminação foi imposta com tanto sucesso que convivemos pacatamente com ela e até se chega a fazer o seu elogio como se se tratasse da coisa mais natural do mundo.

No fundo, esta aparente normalidade é algo que nos acompanha há muito tempo. Só que agora arranjámos forma de nos convencermos de que a erradicação do problema está próxima.

Monday, June 26, 2006

Há coincidências que precisavam de algo mais que o acaso para as explicar. Através de um post do FNV, fico a saber que o Procurador-Geral mexicano responde pelo nome de Daniel Cabeza de Vaca.

Cabeza de Vaca

Álvar Núñez Cabeza de Vaca, conquistador espanhol do século XVI, naufragou ao largo da costa do actual estado do Texas em 1528. Juntamente com alguns companheiros de viagem, viveu os seis anos seguintes entre os índios dessa região, adoptando uma boa parte dos seus modos de vida. Tendo granjeado reconhecimento entre as populações, desempenha uma função de comerciante, deslocando-se da costa para o interior, e vice-versa. Mais ainda, os índios convencem-se dos seus poderes curativos e Cabeza de Vaca, não mais do que à custa de uma mistura de ritos tradicionais indígenas e Pais Nossos e Avés Marias, como ele mesmo refere, passa assim a exercer a função de xamã.

Movido pela vontade de encontrar os seus, e depois de uma quase inacreditavelmente longa caminhada de dois anos, alcança as terras do México, onde a conquista espanhola segue em ritmo elevado. Finalmente, o desejo de reencontrar os seus compatriotas e a possibilidade de voltar a pisar solo espanhol são uma realidade. Ainda regressará às Américas, não só como explorador, mas também como governador do Vice-Reino de Rio de la Plata. Aí incompatibiliza-se com os abusos cometidos sobre os índios e acaba destituído das suas funções.

A interessante história deste homem excede as peripécias das suas viagens. Cabeza de Vaca é um dos conquistadores espanhóis que decide relatar para a posteridade a sua visão das conquistas. É nesse campo que se torna mais notável. Natural de Espanha, acaba por encontrar e viver durante um largo período numa cultura completamente estranha ao mundo que até aí conheceu. Apesar do nível de integração cultural que alcança, nunca esquece a sua terra natal nem o desejo de a rever. Nos relatos sobre esses agitados anos, a utilização do "nós" vai balançando entre o lado dos espanhóis e o lado dos índios. Até que, por fim, o indeciso "nós" acaba substituído por um "eles" comum a ambos os lados.

Tendo vivido as duas culturas, não renegando explicitamente nenhuma delas, é como se Cabeza de Vaca, de forma paradoxal – ou talvez não –, deixasse de se conseguir incluir nos dois mundos que retrata. Para ele, perante a experiência da alteridade, já só resta a exterioridade.

Friday, June 23, 2006


Gustav Klimt, Die Jungfrau, 1913

Escolho este conjunto de jovens donzelas para, após as dúvidas lançadas de forma implícita sobre as capacidades de apreciação estética de Klimt, fazer justiça ao pintor.
Como se sabe, os critérios que definem a beleza variam com as épocas. Muito embora, com alguma maldade, possa haver quem se interrogue se alguma vez terá havido época com critérios que, de bom grado, acolhessem a senhora Adele Bloch-Bauer. Pior sorte terá tido Diego Velásquez, "forçado" a retratar inúmeras vezes a rainha Maria Luísa, mulher de Carlos IV de Espanha.

Para além destas considerações, trocando a estética pela ética, podemos ainda reformular a dúvida da Helena e, em vez de perguntarmos como se chega a uma situação financeira de ter 135 milhões de dólares para comprar um quadro, questionarmos antes como é que, num mundo com tanto dinheiro, ele continua a faltar a tanta gente para coisas tão essenciais. Penso que esta pergunta pode suscitar respostas muito mais interessantes. Nunca se deve menosprezar a criatividade e a racionalização do ser humano.

Thursday, June 22, 2006

Se bem percebi, o presidente de Timor-Leste pediu a demissão do primeiro-ministro em função de um programa de televisão australiano, acrescentando ele mesmo mais algumas acusações sobre Alkatiri. Independentemente dos erros que o primeiro-ministro e o partido que o apoia possam ter cometido, ou estejam a cometer, a confiança no discernimento político de Xanana Gusmão deixou de ser sustentável.

Há quem olhe para as bandeiras desfraldadas nas janelas, para as t-shirts de Portugal a passearem-se nas ruas, para os apoios que se multiplicam a cada golo e veja nisso um patriotismo renascido. Como se não fosse apenas, na sua grande maioria, a conhecidíssima tendência de fazer a festa ao lado dos que ganham.

Tuesday, June 20, 2006

Meses depois do último contacto, talvez mais de meio ano depois, um telefonema da imobiliária. As bases de dados são uma coisa fantástica. Só não sei quem é que se lembrou de pensar que podem ser travestidas de verdadeiro empenho.

135 milhões


Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I, 1907

Friday, June 16, 2006

Assim sim. Trovoadas fortes e chuvadas curtas e intensas, por entre as quais, a espaços intermitentes, surge o sol e o calor. À nossa economia de país tropical vem, finalmente, juntar-se o clima correspondente.

Wednesday, June 14, 2006

A 14 de Junho de 1940, as Waffen SS fazem chegar o primeiro transporte de prisioneiros às imediações da localidade polaca de Oświęcim. A uma semana do fim da Primavera, tem início um longo Inverno que só terá fim em Janeiro de 1945, quando o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau for finalmente libertado pelo Exército Vermelho.

Estes dias de trabalho no meio da semana de descanso quebram muito o ritmo.

Monday, June 12, 2006

Alguém me pode explicar qual é a mais valia jornalística das entrevistas feitas àqueles senhores que saem dos estádios, cheios de cachecóis, bandeiras e pinturas faciais, e às adoráveis criancinhas de 4 anos que eles transportam às cavalitas? A sério, alguém que me explique isto. E se o argumento for que as pessoas gostam de ver essas entrevistas, então que me apresentem alguém assim, porque eu não conheço ninguém que não considere um absurdo o tempo que se perde nesses apontamentos.

Friday, June 09, 2006

Estou aqui a olhar para o relógio há uns bons vinte minutos e o no mostrador ainda só passaram uns quatro ou cinco.

Num registo recheado de intransigência, Pedro Sá, no Descrédito, conclui um post clamando por "uma política dura de segurança". E diz ainda: "quero ver os mesmos que me chamavam fascista por defender isto agora a dobrarem a língua depois de Ségolène Royal vir defender políticas neste sentido."

As políticas que Pedro Sá defende passam, entre outras preciosidades, por afirmar que "a segurança do povo é muito mais importante do que qualquer humanismo", que "os projectos de vida de cada um não podem ser mais importantes que a segurança de todos", que "a reintegração e a recuperação são duas ideias que têm rapidamente de ser eliminadas do sistema penal" e que se deve proceder à "eliminação de todas as condicionantes à acção da polícia quando em combate ao crime".

Nada do que está escrito nesse post pode ser considerado de esquerda e quase tudo pode mesmo ser considerado fascista. O esboço de "política de segurança" ali delineado está ferido por um totalitarismo securitário intolerável em qualquer sociedade democrática. Revela, como não podia deixar de ser, uma concepção hiper-musculada das instituições formais de controlo e uma desvalorização da pessoa em detrimento do colectivo.

Há ideias que constituem uma pequena abertura para a infiltração do ideal totalitário nas sociedades democráticas. As noções expostas no Descrédito estão muito para além disso. São uma porta escancarada. Só falta saber se o Pedro Sá não percebeu isso ou se assume até ao fim as consequências do seu pensamento político e social.

O facto de não ser possível discernir qualquer lógica ou sentido que presida a orientação do texto das lombadas dos livros editados em português não pode ser entendido de outra forma que não como mais um sintoma do atraso civilizacional deste país.

Wednesday, June 07, 2006

This is a men's world

Na questão das quotas, que não na da equidade, o João Tunes discorda de mim. Se partilhamos a vontade de ver o fim da discriminação sexual, discordamos nos instrumentos que possam permitir lá chegar. Seria muito bom, já o disse antes, que as quotas não fossem necessárias, que a igualdade surgisse por consenso social e não por imperativo legislativo. Mas não vivemos nesse mundo. A desigualdade e a discriminação existem e, a meu ver, torna-se necessário intervir rapidamente para debelar esse facto.

Um dos caminhos para uma participação mais activa das mulheres na política e nos cargos de liderança passa, como o João muito bem afirma, por uma divisão das tarefas familiares. Quando estas são partilhadas pelo casal, existe um equilíbrio de participação nos mais diversos campos em que cada membro se queira envolver. Da mesma forma, é sabido que existem traços culturais e sociais que alimentam e perpetuam a discriminação sexual, tanto no ambiente familiar como no ambiente profissional. Mas também é verdade que, hoje em dia, existem muito mais mulheres com preparação académica do que, por exemplo, há 30 anos. Contudo, o facto de termos mulheres qualificadas para funções de relevo não tem encontrado igual tradução no acesso efectivo a esses lugares. Se ainda se pode dizer – e pode – que as mulheres são social e culturalmente condicionadas a optar por determinadas áreas de actividade, também se pode afirmar que existem já amplos exemplos que rompem com esses condicionalismos, mas que, mesmo assim, não garantem uma participação em termos de igualdade.

Existe, ainda, um ponto que não consigo deixar de voltar a frisar. Continuo sem perceber por que é que não se há-de arranjar um número suficiente de mulheres interessadas em desempenhar cargos políticos. Tomemos como exemplo a constituição do governo. Dos dezasseis ministérios que compõem o actual executivo, apenas dois são liderados por mulheres. Se eu perguntar se não se arranjam mais seis mulheres com capacidades para o cargo estou a ser demagógico ou estou a colocar uma questão pertinente?

Admito que o que escrevi ontem sobre este assunto possa oferecer uma leitura mais crítica, tal como a que foi feita pelo João Tunes. Para continuar a granjear o crédito que ele tem a amabilidade de me conferir, acrescento algumas explicações. Quando digo que me sinto intrigado com aquela argumentação, não pretendo com isso afirmar que a generalize a todos os que são contra as quotas. Sei que ela existe, sei que já a ouvi tanto da boca de homens como da de mulheres, mas não sei se é um traço dominante ou característico da recusa das quotas (nem pretendo discutir isso). Do mesmo modo, não pretendo generalizar o julgamento de intenções que fiz. Penso que existe (ou que, pelo menos, é possível entrever) uma certa forma de pensar, a qual tentei identificar, embora conceda que a minha escolha de palavras para o fazer não tenha sido a mais adequada e permita uma leitura mais radical do que é, de facto, a minha posição.

Ainda assim, se espero ter retirado o eventual radicalismo que pudesse estar associado à minha argumentação, não pretendo alterar as suas linhas condutoras. Continuo sem perceber por que razão se há-de considerar a introdução de quotas como uma medida protectora, ao invés de a considerar, no essencial, de uma justiça inadiável. Ou que não se prefira este mal menor, por oposição a aguardar uma mudança de mentalidades que tarda em chegar.

Tuesday, June 06, 2006

Lembro-me perfeitamente de, quando criança, percorrer os stands da Feira do Livro ao lado da minha mãe, escolher uns 4 ou 5 livros para ela mos comprar e, depois, sentar-me ao seu lado nos relvados do Parque, abrigados pela sombra de uma árvore, comendo um gelado, desfolhando as aquisições e decidindo com qual delas começar a leitura. É das mais simples, nítidas e felizes memórias que guardo da infância.

Existe um imbróglio a envolver o Belenenses e o Gil Vicente. Aparentemente, o clube de Barcelos incorre numa sanção que o pode afastar da Primeira Liga, a qual se fica a dever ao facto de, à revelia da Liga de Clubes, da Federação Portuguesa de Futebol e da FIFA, ter recorrido aos tribunais civis para resolver uma questão desportiva. Independentemente das razões que assistam ao clube na sua demanda, qualquer regulamento que impeça o recurso aos tribunais civis, ou o condicione à autorização de terceiros, é uma aberração.

Um dos aspectos que mais intriga no discurso dos que são contra a introdução de quotas para a igualdade de género é a invocação de uma putativa injustiça de se assistir à inclusão de mulheres que não estão lá pelo seu valor mas antes pela necessidade imperiosa de preencher vagas. Que tal recurso, afirmam, chega a ser vexatório para a condição dessas mesmas mulheres.

Por qualquer estranha razão, os apologistas desta visão não concebem que seja possível encontrar um número suficiente de mulheres competentes para preencher as ditas quotas. Partem imediatamente do princípio de que as quotas retiram o lugar a homens com basta competência para o lugar, para os trocar por mulheres impreparadas, sem outra utilidade que não a instrumentalização numérica. Evidentemente, para tal nunca se chega a demonstrar o superior mérito dos que actualmente enchem as listas partidárias, nem, concomitantemente, o demérito das que se encontram de fora.

O facto de, para alguns, não ser concebível que para cada dois lugares se possa encontrar um homem e uma mulher igualmente preparados para os ocupar é um dos melhores indicadores da mentalidade que reina e bastante revelador da necessidade quotas para corrigir este desvio discriminatório.

Monday, June 05, 2006

O CDS-PP apresentou um projecto de lei que pretende baixar a idade de inimputabilidade de menores. Esta situa-se, actualmente, nos 16 anos, sendo que o CDS-PP propõe os 14 anos.
Deixemos de lado as considerações sobre a idade a partir da qual se deve considerar um menor imputável, não porque seja um assunto desprovido de interesse, mas sim porque existe um outro aspecto que se mostra muito relevante e que é a fundamentação do projecto.

O que sobressai da exposição de motivos do projecto de lei do CDS-PP é uma ideologia muito definida, palpável na lista de justificações da criminalidade juvenil e nas soluções escolhidas. Vários motivos são apontados pelo grupo parlamentar do CDS-PP, alguns deles, seguramente, com propriedade. Mas, perante a identificação de causas que se prendem, aos olhos dos deputados do CDS-PP, com “sociedades de baixa qualidade de vida nas periferias urbanas; políticas de emprego que não conseguem vencer a dificuldade em encontrar o primeiro posto de trabalho; sistemas educativos em que a instrução para o civismo é deficitária e a autoridade do professor não está defendida; a progressão galopante do «ciclo da toxicodependência», cuja criminalidade associada é manifesta; a inexistência de políticas familiares que devolvam aos pais tempo disponível para os seus filhos, respectiva educação e acompanhamento, e que são responsáveis pelo relativo abandono afectivo dos menores em tenra idade”, não deixa de ser curioso que surja uma iniciativa legislativa que aponta directamente à idade de imputabilidade, ao invés de se assistir a iniciativas direccionadas a montante, combatendo as causas sociais referidas.

O que transparece, então, apesar do discurso envolvente, é a preferência por uma deriva repressiva e autoritária. Se quem avança com um projecto destes conhece minimamente a realidade das instituições de reclusão, sejam elas para menores de idade ou para adultos, deve saber que estas funcionam mais como instrumento de perpetuação da condição de exclusão, de marginalidade e de delinquência do que de outra coisa qualquer. Embora se possa discutir a justiça de se reduzir o limite etário da inimputabilidade, discussão onde os especialistas de desenvolvimento cognitivo terão uma palavra importante a dizer, custa a perceber que esse seja um caminho prioritário em detrimento de outro género de intervenções.

É sobretudo interessante verificar como a “baixa qualidade de vida nas periferias urbanas” surge completamente descontextualizada da realidade social a que se reporta, como se, para além de realidade factual, constituísse uma inevitabilidade social que não tem correspondência com as políticas económicas e sociais de um país ou de um município. Por outro lado, as “políticas de emprego que não conseguem vencer a dificuldade em encontrar o primeiro posto de trabalho”, assumem uma faceta paradoxal neste contexto em que se identifica a tipificação etária como indo dos 13 aos 15 anos, portanto, no limiar ou abaixo da idade activa, ou quando se sabe que os comportamentos delinquentes são muitas vezes frequentes em idades inferiores aos 10 anos.

Nunca a desigualdade social é referida como motivo de criminalidade, nem o são os indiscutíveis traços culturais de consumo e de materialismo das sociedades ocidentais. Tal como Ulrich Beck referiu, a propósito dos distúrbios vividos em cidades francesas no ano passado, toda essa conflitualidade e actos de delinquência não radica num défice de integração, mas antes no sucesso da assimilação desses valores dominantes e no desfasamento de oportunidades para aceder a uma participação na criação e distribuição de riqueza da sociedade.

Seria importante recordar, a este propósito, que em Portugal o fosso entre ricos e pobres não cessa de aumentar, que o poder de compra das classes médias e baixas diminui consecutivamente de ano para ano, que o salário mínimo é de 385,90€ e que um número considerável de pessoas se vê obrigada a recorrer ao multiemprego para assegurar um limiar mínimo de condições de vida, o que acarreta consequências lógicas ao nível de tempo disponível para si e para a família. Muito mais relevante, então, seria um debate, não sobre a idade da imputabilidade, mas sobre a contínua aposta na desqualificação dos trabalhadores e em políticas de salários baixos, a falta de preparação e de competitividade das chefias e dos empresários, a incapacidade crónica de fazer chegar a ajuda a quem mais dela precisa, o afastamento de um número cada vez maior de pessoas dos centros de decisão e de acesso à riqueza. Uma discussão, no fundo, sobre todo um modelo de sociedade que se tem vindo a implementar com os resultados que se conhece.


Georges Braque, Marina L'Estaque, 1906

Friday, June 02, 2006

Não sei o que é que as pessoas têm contra o spam. Eu farto-me de ganhar coisas a que não concorri.

Thursday, June 01, 2006

Num dos seus filmes (O Escorpião Jade), alguém atira à personagem de Woody Allen que existe um nome para as pessoas que acreditam que toda a gente está a conspirar contra elas, ao que este responde "Eu sei, perspicaz."
Pode fazer-se outro raciocínio, de certa forma análogo, para estes casos em que toda a gente aponta o dedo acusador no mesmo sentido. Quando todos vêem exactamente a mesma coisa, é bastante provável que exista algo mais, para além do óbvio, que lhes está a escapar. Aliás, a unanimidade é quase sempre um excelente motivo para gerar uma ajuizada e cautelosa reserva.

No actual contexto de políticas organizacionais, as avaliações de desempenho são dadas como um valor seguro. Mais ainda se os serviços em causa cumprem uma das funções primordiais de qualquer sociedade como é a da educação. O problema das avaliações reside, mais que tudo, nos critérios e nos instrumentos de avaliação. No fundo, discernir com rigor quem avalia, o que avalia e como avalia.

Pedir que os pais avaliem o desempenho dos professores é uma ideia que reúne as suas vantagens, se for devidamente enquadrada. Não faltam exemplos de teorias sobre o sistema educativo que defendem a participação dos pais na vida escolar e chegam mesmo a existir orientações legislativas nesse sentido. Porém, esta, como tantas outras questões, não se resolve por decreto. Os pais não se envolvem no meio escolar apenas porque o Ministério da Educação assim o pretende. E sem este envolvimento prévio, não é possível esperar que a sua participação num processo de avaliação garanta qualquer resultado fiável. Assim, apesar de a ideia não ser de todo descabida, sem a garantia do cumprimento de alguns pré-requisitos indispensáveis, apenas estão a ser dados passos num terreno que não oferece bases de sustentação adequadas.

Garantir um envolvimento prévio mais activo dos pais na realidade escolar seria um caminho mais seguro para alcançar resultados que possam ser reintroduzidos no sistema de ensino para o melhorar. Não só tendo em vista uma hipotética avaliação do desempenho dos professores por parte daqueles, mas, sobretudo, para transformar as escolas em locais de partilha de conhecimento e informação entre os agentes envolvidos na socialização das crianças. Mas convém ter presente que essa participação e essa partilha dependem tanto dos próprios pais como das diversas condições que lhes são oferecidas para aceder a essa participação, sendo, por isso, mais do que um problema exclusivo do sistema educativo, um problema da nossa sociedade e dos seus traços sociais, culturais e económicos dominantes.

O sistema educativo merece uma avaliação séria e rigorosa, o que se apresenta como uma tarefa bastante complexa. Tal avaliação tem de equacionar o ensino no seu todo, como sistema continuado e projecto estruturante, nas suas diversas partes, como subsistemas com particularidades próprias, e, finalmente, em tudo o que diga respeito aos seus agentes, como realidade última da operacionalização das políticas de ensino. Avaliar uma das componentes sem considerar as restantes tem tanto de injusto como de perigoso. Dessa visão parcial, e forçosamente redutora, retirar-se-ão conclusões também elas parciais e redutoras, que não podem ditar mais do que medidas que, em rigor, ninguém poderá garantir que correspondem às reais necessidades do ensino.

A pergunta a fazer é: onde é que se podem depositar as contribuições para que a Madeira, finalmente, alcance a desejada independência de Portugal?

Um bom começo

Atender um telefonema, logo pela manhã, por ser dia da criança.

258ª lei da blogosfera:

A blogosfera gosta de jacarandás.

Um dia inteiro sem acesso ao blogue. E logo quando até tinha o que publicar...

Tuesday, May 30, 2006

Estranhamente, ao contrário do que é costume, não tenho tido insónias com o início das noites quentes. Mais estranhamente ainda, sinto-lhes a falta.

Um blogue é dos poucos sítios onde não ter nada para dizer é já condição suficiente para publicar.

Friday, May 26, 2006

Crise?

Chegar ao fim do dia com os olhos cansados de ter passado o dia a olhar para o monitor é relativamente comum. Que os blogues não tenham a maior fatia de culpa disso é que é de espantar.


Jackson Pollock, Homem Nu com Faca, 1938-40

Thursday, May 25, 2006

Ainda a propósito do post anterior, vale muito a pena ler as achegas que o João Tunes elenca no seu Água Lisa.

A escolha

Levanta-se um coro de vozes pela derrota da GALP num concurso para a exploração petrolífera do Mar de Timor. Destaco as palavras do Paulo Gorjão, que acusa o primeiro-ministro timorense de falta de estofo e de falta de visão e que argumenta que Timor-Leste terá bastante mais a perder com este afastamento de Portugal. Se sobre as capacidades políticas de Alkatiri não tenho muito para dizer (nem a favor nem em contrário), sobre as eventuais vantagens da ligação de Timor-Leste a Portugal julgo que existe uma reflexão que o Paulo Gorjão não explora devidamente no seu post.

Os lucros muito agradáveis que os negócios da GALP têm vindo a gerar, tanto quanto penso saber, dependem sobretudo da área da refinação. Interessa à GALP, por esse motivo, aumentar e diversificar os locais de exploração que já possui. Isto digo-o tal como mo disseram a mim, que eu do negócio do petróleo percebo tanto como o ex-presidente da edilidade portuense. Ora, se isto explica o interesse de um grande grupo económico português por Timor-Leste, servindo de bitola para extrapolações que se queiram fazer para outros grupos económicos, convém conhecer, então, quais são as tão significativas contrapartidas para Timor-Leste que têm justificado tantas críticas pela decisão do concurso.

O que o Paulo Gorjão nos diz é que Timor-Leste precisa de diversificar as suas dependências, o que parece bastante razoável, e que essa diversificação deve incluir Portugal. Nas suas palavras, " à distância que Timor-Leste se encontra de Portugal, só há uma maneira de nos fazer manter atentos ao território, i.e. os negócios.
Era e é do interesse nacional timorense que as empresas portuguesas invistam em Timor-Leste. É do seu interesse não apenas porque cria emprego e gera riqueza. É do seu interesse porque quanto maior for o volume de negócios que as empresas portuguesas tenham com Timor-Leste maior será a atenção política que lhe será prestada pelo Governo português. É por isto que a derrota da GALP foi relevante.
"

Mas quanto a esta necessidade de gerar atenção política de Portugal sobre Timor-Leste e gerar investimento das nossas empresas no território, as justificações são parcas. É razoável interrogar o Paulo Gorjão sobre a utilidade da atenção política de Portugal. Sobre esta atenção política, e o que eventualmente a caracteriza, muito há para dizer, mas eu preferiria aguardar explicações mais detalhadas do Paulo antes de tecer mais considerações sobre este aspecto, até porque tem o potencial de nos levar para uma área algo distinta.

Não obstante, se o investimento da GALP, ou de outras empresas portuguesas, cria emprego e riqueza em Timor-Leste não será porque são empresas portuguesas, mas antes porque se trata de investimento e ser essa uma das suas características. Certamente a italiana ENI também irá gerar emprego e riqueza, a menos que se pretenda que o investimento português é intrinsecamente mais produtivo do que o investimento italiano. Mas como isso é um absurdo, a única crítica seria se a escolha da ENI fosse economicamente menos benéfica que a escolha da GALP. O Paulo Gorjão acredita que, a longo prazo, isso será verdade. Mas também é possível entrever que Timor-Leste, tendo optado pela solução mais benéfica a curto prazo, trocou um ponto de ligação económica à economia portuguesa por um ponto de ligação económica à economia italiana. O que, convenhamos, sendo a Itália um dos países mais industrializados da Europa e do mundo e sendo a economia portuguesa aquilo que se sabe, talvez não seja uma decisão tão mal pensada como pode à partida parecer. Este é o aspecto que passa ao lado do posto do Paulo Gorjão, mas que merece bastante atenção. Podemos mesmo perguntar se a derrota da GALP não configura um indicador da perda de peso internacional do nosso país, sendo ainda mais grave no sentido em que ocorre precisamente com um dos países de quem estamos supostamente mais próximos em termos de laços.

Evidentemente, existe uma ligação histórica e afectiva forte entre Portugal e Timor-Leste. Esta ligação não pode nem deve ser alienada. Não faltam maus exemplos neste campo. Portugal vive mal com as suas memórias, não guarda para elas um lugar de relevo, não as estuda, não as compreende e não as usa para aprender e agir melhor. Frequentemente, disfarça as suas memórias em mitos e fábulas que acabam por ter como utilidade, sobretudo, a sua instrumentalização ao serviço de determinadas ideologias. Embora pouco provável, seria conveniente que a relação entre Portugal e Timor-Leste não entrasse por esses caminhos. Seria mesmo, porventura, a melhor forma de ultrapassar os utilitarismos circunstanciais que a economia tende a gerar e partir para uma sedimentação descomplexada das relações externas entre os dois países.

Wednesday, May 24, 2006

Acabei de apagar um e-mail enviado por um senhor estrangeiro que não conheço cujo assunto era "oil contract". Eu sou a favor das energias alternativas.

Tuesday, May 23, 2006

Há pouco mais de dois meses optei por deixar de ter televisão em casa. Essa escolha faz-me perder alguns programas, como, por exemplo, o Prós e Contras de ontem. Perder não será bem o termo correcto. Pelo que vou lendo na blogosfera, não terei perdido nada. Quanto muito, ter-me-ei poupado a um espectáculo lamentável. Aliás, o único aspecto deste episódio a merecer nota é que parece ainda haver quem se surpreenda com estes fenómenos.

Friday, May 19, 2006

Que um blogue como o Ma-Shamba termine é algo que merece amplas reacções de descontentamento. E mereceu, pelo menos nos comentários do blogue do JPT. Que qualquer blogue, mas sobretudo um blogue com as características do Ma-Shamba, apague os arquivos depois de encerrar a actividade é algo que, tanto quanto me é dado a perceber, ainda não suscitou o amplo debate que merece.

Apagar os arquivos de um blogue parece-se demasiado com queimar livros. Ao publicar um blogue, os textos deixam de estar sujeitos ao escrutínio exclusivo do seu criador. Sendo públicos, obedecem a critérios de apropriação e pertença que lhe escapam em absoluto. Já não se trata da propriedade exclusiva do escritor. Os textos públicos pertencem, em parte, a quem os lê e essa pertença deve recolher algum respeito.

Um segundo aspecto que deve ser igualmente tido em conta é a própria forma que caracteriza a escrita num blogue. A facilidade com que se geram links associados a textos é uma dessas características. Ao apagar um blogue, o seu autor destrói essas ligações. Apesar de não ser o responsável pelos links que encaminham para textos seus, certamente não os ignora. A sua acção, assim, acaba por ter o potencial de tornar outros textos absolutamente impossíveis de compreender, sendo intrinsecamente lesiva do modo de funcionamento em rede da blogosfera.

No momento de extrair conclusões destes pressupostos, não só se torna desconfortável impor a terceiros uma forma de ver e de agir na blogosfera, como é mesmo impossível controlar esses factores. Em última análise, mesmo podendo discutir-se a apropriação dos textos como forma de pertença, a edição do blogue, por razões óbvias, permanece um domínio exclusivo dos seus administradores. Mas pode invocar-se, neste campo, um acordo de cavalheiros, à semelhança dos que já existem e são aplicados todos os dias neste meio. Como meros exemplos, dois casos: na blogosfera criam-se (quase sempre) ligações para as referências do texto ou para as fontes e não se altera o conteúdo de um post sem o devido aviso aos leitores.

Em suma, a decisão de apagar um blogue dependerá sempre dos seus autores e não é razoável que seja de outra forma. O máximo que se pode pedir é uma sensibilização dos autores para as complexas implicações da sua decisão. Muito embora, lamentavelmente, não traga blogues como o Ma-Shamba de volta, uma partilha de entendimento generalizada neste capítulo já seria muito positiva. Um começo, pelo menos.


Camille Pissarro, A Horta em Éragny, 1896

Thursday, May 18, 2006

Uma pessoa começa o dia a ler os seus blogues preferidos e dá com uma série de interrogações que lhe aceleram logo a actividade das little grey cells:
- Não é importante para uma pessoa saber quem é/era o seu pai? Mais: não devia isso ser um direito?
- Não é importante para uma pessoa saber que nasceu do desejo e do amor de um homem e uma mulher, ambos com nome concreto, história e raízes? Não é importante conhecer todas as circunstâncias da sua origem?
(...) e porque é que este filho há-de ficar para sempre preso ao enigma do seu pai biológico?!
Como é que isto se resolve a contento de todas as partes interessadas?


Ora, depois de muita actividade, sinto-me tentado a responder, respectivamente, da seguinte forma: depende, talvez, depende, depende, não sei e não sei.

Se o que é a vida de uma pessoa já constitui um enigma difícil de destrinçar, aquilo que essa vida poderá vir a ser assume um carácter ainda mais dúbio. Evidentemente, temos uma panóplia de ciências, os seus corpos teóricos e os seus conhecimentos empíricos, que nos ajudam a prognosticar, com maior ou menor probabilidade, o que são os labirínticos caminhos da actividade psicológica e social do ser humano. Mas apontar um destino, uma forma de pensar, de sentir e de agir, entendidos num sentido determinista, não pode ser outra coisa senão um exercício de futurologia.

A socialização da criança, nos seus primeiros anos de vida, caracteriza-se por uma interiorização da realidade tal como é apresentada pelos agentes de socialização mais relevantes nessa fase, geralmente os pais. A realidade apresentada por esses agentes será entendida não como uma realidade específica – uma alternativa entre muitas –, mas sim como a realidade – um absoluto. Mesmo os primeiros contactos com outras realidades são pautados por esta interiorização, a qual ganha ascendente sobre elas, sendo as alternativas de vida encaradas como anormalidades. Tal como os estudos de Piaget deixaram bastante claro, algumas crianças colocam as "verdades" dos pais acima de tudo, incluindo, por exemplo, das "verdades" de Deus. Só no momento em que as competências de abstracção e relativização da realidade social se vão consolidando é que a comparação entre os diferentes mundos passa a ser feita em termos mais comuns à que é feita pelos adultos. Do jogo de influências entre o que está vivido e o muito que está por viver há-de resultar, então, uma forma mais coerente de analisar a realidade e de encontrar nela um lugar próprio.

Mas se estes são os traços largos dos primeiros anos de socialização, o seu resultado concreto está dependente de inúmeras variáveis, entre as quais se devem contar, as biológicas, as psicológicas e as sociais.

Desta incerteza resultam tantos "depende" como resposta às difíceis perguntas que a Helena postou no 2 Dedos de Conversa. Tais factos serão importantes se as circunstâncias em que a criança é educada levarem à construção dessa necessidade. E, a partir do momento em que ela existe, não há como recusar-lhe legitimidade. Mas apenas nesse momento, e não antes, o que seria mera projecção da forma de estar do observador.

É inquestionável que um ambiente familiar saudável possui estabilidade e amor em doses reforçadas. Agora, por quantas pessoas devem ser essa estabilidade e esse amor assegurados é uma questão bastante diferente. Uma família monoparental não tem, forçosamente, de ser uma família diminuída no seu amor e na sua solidez de laços. Será, porventura, uma família condicionada na desejável distribuição de tarefas. Mas a consequência lógica desse facto é mais trabalho e não menos amor. Aliás, uma família monoparental que funciona bem é incomparavelmente melhor do que uma família biparental que não funciona. Mais ainda, enquanto a monoparentalidade constitui uma família, a associação forçada de um dador de esperma a essa família não se sabe bem o que constituiria. Nesse campo, talvez a liberdade de decisão, o bom-senso e a ponderação sejam as melhores soluções.

A Helena diz que fica com uma série de pruridos éticos resolvidos se ficar claro que os progenitores biológicos têm deveres iguais em relação à criança, e a criança tem direitos iguais em relação a ambos. Mas, para terminar, pergunto eu agora, com um certo egoísmo, reconheço, porque estou a colocar o meu prazer em trocar ideias com a Helena à frente dos caixotes que ela tem de empacotar até Junho, pergunto eu, então, se o sexo ou o esperma conferem direitos? Ou não será antes o trabalho, o muito trabalho, todos os dias, um após outro, o material de que é feito um pai ou uma mãe?

Wednesday, May 17, 2006

Eu, sendo uma pessoa situada politicamente à esquerda, julgo que as mulheres solteiras não devem ser deixadas de fora na procriação medicamente assistida, defendo que o Estado tem um papel obrigatório como interveniente na prestação de determinados serviços e torço sempre pelo Barcelona. Com tempo, hei-de voltar para explicar cada uma destas ideias, uma de cada vez.
Mas como também sou uma pessoa com as suas limitações, não compreendo como é que determinadas actividades, frequentemente apontadas como demasiado dispendiosas para o Estado, parecem despertar a cobiça dos privados, que não se importam de assumir para eles o que o Estado vai alienando. Também hei-de regressar a esta questão.

Tuesday, May 16, 2006

Devo reconhecer que, apesar de tudo o que possa ter dito em contrário, faz toda a diferença que não tenhas tempo para ler o que escrevo.

Excerto

(...) acordar às sete, sair às oito, entrar às nove, almoçar à uma, voltar a entrar às duas, sair às seis, estar de regresso às sete (...).

Foi só depois de começar a pensar que, um dia, me podiam cair as chaves pela frincha ao pé da porta do elevador que isso veio mesmo a acontecer.

Friday, May 12, 2006

Olha outro... Não sei o que diga. Nem, ao menos, um bloguezito sobre futebol, onde se possa ir desancar o Sporting de vez em quando?


Mark Rothko, Light Red Over Black, 1957

Wednesday, May 10, 2006

Estranho a publicidade gratuita ao Código Da Vinci – em livro e em filme – a que algumas organizações religiosas se prestam com os seus protestos. Mas, mais do que isso, estranho que não consigam separar uma investigação histórica minuciosa de uma especulação utilizada num produto literário de qualidade menor. Para além disto, é ainda sintomático da mentalidade que domina certos meios religiosos, ainda que, felizmente, não todos, a recomendação para que não se assista ao filme, a qual parece não reconhecer autonomia aos seus fiéis para fazerem um juízo por si próprios.
O Código Da Vinci, como produto artístico/comercial, não coloca em causa os fundamentos da religião católica. No entanto, os Evangelhos gnósticos, não incluídos na Bíblia, possuam relevância suficiente para levantar muitas questões sobre os fundamentos desses produtos puramente humanos que são as Igrejas. Mas sobre esses temas de grande interesse, sob variados pontos de vista, que são o surgimento dos cristianismos e das suas Igrejas, a sua multiplicidade nos primeiros anos da nossa era, a luta ideológica e a subsequente hegemonia do que mais tarde se veio a conhecer como Igreja Católica pouco de fala. Porventura, na maioria dos casos, por desconhecimento. Noutros, certamente por conveniência.

Um membro do Fórum Social Católico da Índia oferecer uma recompensa a quem entregar Dan Brown vivo ou morto, como se pode ler numa notícia do Diário Digital, é substancialmente diferente de ser o Fórum Social Católico da Índia a oferecer essa recompensa, como se pode ler também na mesma notícia.
Independentemente destas imprecisões, diga-se que oferecer recompensas deste género não parece ser uma atitude muito cristã.

Tuesday, May 09, 2006

Uma das resoluções que adoptei no Tempo dos Assassinos foi manter uma lista de links pequena e funcional. Algo que traduzisse interesses de leitura de uma forma realista. Mas, mais do que uma manifestação de interesses de leitura, a escolha dos blogues que ali constam pretende ser, de uma forma muito subjectiva e intangível, também uma linha de rumo para a identidade deste sítio. Uma identidade que se quer construída tanto na semelhança como na diferenciação. Desta última, o que pretendo extrair é, sobretudo, uma forma alternativa de ver, de estar, de sentir. Uma diferença que, ao invés de criar antagonismos, alargue horizontes.

Desde ontem que a lista de links conta com o novíssimo Lugar Comum. Nele se reúnem, sem desprimor para os restantes, dois dos meus bloguistas favoritos: o Afonso Bivar e o Lutz Bruckelmann, que alimentaram, respectivamente, o Bombix Mori e o Quase em Português até os transformarem em dois dos melhores exemplares de sempre deste meio.

Como é que o Lugar Comum vai abrigar as distintas e fortíssimas personalidades que o compõem é uma interrogação que me coloco, mas para a qual não procuro realmente resposta. Na incerteza, o problema levanta-se, de facto, para as quatro pessoas que o compõem e não para os seus leitores, nos quais me vou seguramente contar. Sobra-me curiosidade, mas quem por cá anda há já uns tempos aprendeu que os blogues são coisas vivas. Nascem, crescem e fenecem. Por isso mesmo, querê-los parados, cristalizados, é anular-lhes a essência. Mas esta realidade não invalida a nostalgia do que foram, do seu passado, da experiência comum da sua vida virtual. A morte não custa menos por a sabermos certa.

Este texto é, por tudo isto, uma elegia. O fim de um blogue, que se acompanhou com manifesto prazer praticamente durante dois anos e meio, cria, inevitavelmente, um vazio. O tempo, dizem, tudo sara. Assim o creio. Assim o espero.

Friday, May 05, 2006

Perguntaram-me se não escrevia nada hoje. Não seja por isso: bom fim-de-semana.

Thursday, May 04, 2006

Posts pedidos


Joan Miró, Escargot, Femme, Fleur, Toile, 1934

Parece ter reduzido o número de blogues a aderir a celebrações mútuas de aniversário. Digo-o baseado em nada mais que a percepção que tenho ao comparar o que julgo observar actualmente e o que julgo ter observado noutros tempos. Existe mesmo quem anuncie a vontade de deixar de felicitar todos os blogues aniversariantes e as razões que apontam são, no fundo, óbvias.
O aniversário de um blogue é uma forma de consolidação de estatuto. É sempre uma marca de distinção, de quem resiste, de quem tem trabalho com ele. Ou seja, um sinónimo de estatuto, o qual é, por sua vez, capitalizado em legitimação. Não há nada de errado nisso. O estatuto e a legitimidade são conceitos do quotidiano, desde o óbvio mundo do trabalho até às relações de amizade. Não há razão nenhuma para estigmatizar o desejo de reconhecimento do autor de um blogue.
A redução das felicitações, a ser verdade, não se fica a dever, então, à má vontade ou à quebra de laços virtuais entre blogues. Dever-se-á, sobretudo, ao crescimento que a blogosfera registou desde a explosão mediática que sofreu em 2003. Simplesmente, deixou de ser praticável felicitar toda gente que celebra mais um ano destas andanças.

O Picasso e o van Gogh que postei ontem foram leiloados pela Christie’s. Entretanto, a Sotheby’s leiloou outro Picasso pela módica quantia de 95 milhões de dólares. É a retoma. Há-de estar mesmo aí a chegar.

Wednesday, May 03, 2006

O Público quer levar a cabo alterações para combater os maus resultados. Para isso, contrataram uma consultora que, apesar de não identificada na notícia, se supõe que irá cobrar bom dinheiro pelo trabalho. Eu, que até sempre simpatizei com o Público, não queria deixar de contribuir com um pequeno conselho e não cobro nada por isso. Mudem de director. Já ontem era tarde.

75 milhões


Pablo Picasso, Le Repos, 1932
(34,7 milhões de dólares)


Vincente van Gogh, L'Arlesienne, 1890
(40,3 milhões de dólares)

Tuesday, May 02, 2006

No café da rua onde moro, "para que todos os clientes se possam sentir bem", pede-se aos não fumadores o favor de utilizarem exclusivamente as mesas para eles reservadas.
Não, não me enganei a escrever isto.

É claro que, enquanto eu, após uma pequena busca no Google, faço copy-paste de uma rábula às vitórias do José Mourinho, há quem se entretenha a transcrever o FMI do José Mário Branco.

José and his amazing technicolor overcoat

I close my eyes and stand there grinning
We can’t stop winning
You’d be grinning too
When I first came I was delighted
Could have managed United
Any team will do
I wore my coat
The world is merry
I’ve got John Terry
and Drogba too
I switched them round
They all are hating
But I like rotating
Any team will do

A corner kick, is just enough,
a little flick from Damian Duff,
The ball flies right into the net and we are one nil up...
May I return
to the beginning,
It's so easy winning
when your team is blue
We can't go wrong,
I am in heaven
Playing whatever eleven,
Any team will do!!

Uma das vantagens de se ser adulto é poder fazer criancices à vontade, como jogar à bola dentro de casa, ou passar o dia a comer bolos.

Friday, April 28, 2006

Acredito, também, que o estilo dos comentadores e dos respectivos comentários, em grande parte, espelha o estilo de um blogue. Que os meus posts não alimentem acesas polémicas, perdoe-se a vaidade, não pode causar-me outro sentimento que não seja o de uma calma satisfação.

Se há algo que desenvolvi ao escrever num blogue foi um sexto sentido invertido. Os posts que considero com maior capacidade para gerar comentários acabam quase sempre por não os atrair de todo.

Sem esperança nenhuma

Thursday, April 27, 2006

Tão facilmente como outra pessoa qualquer, reconheço que um trabalhador incompatibilizar-se abertamente com o seu empregador exige alguma coragem e um certo desapego à segurança do seu emprego. Neste caso, os jornalistas vivem uma realidade ainda mais restritiva. Fruto da concentração na comunicação social, ao se incompatibilizarem com um órgão de comunicação social estão a incompatibilizar-se com todo um grupo de órgãos de comunicação social, aumentando drasticamente as dificuldades de encontrar um novo emprego.

Colocar em risco, assim, o presente e futuro profissional em nome de algo maior como os princípios éticos e deontológicos e a capacidade de manter a coluna direita é algo sempre admirável. Admira-se, precisamente, por implicar custos muitas vezes elevados e duradouros. E é por essas razões que me custa apontar o dedo acusador aos que são coactados a agir de determinada forma que contraria os seus valores. A este propósito, recordo as críticas que foram lançadas a Xanana Gusmão quando, após ter sido preso pelas forças militares da Indonésia, surgiu num depoimento a retratar-se da sua actividade de guerrilha pela independência de Timor. Recordo também a resolução de Nelson Mandela, que recusou a liberdade que lhe ofereciam se aceitasse prescindir da sua luta contra o apartheid na África do Sul. Quantos dos que criticam sem pejo teriam sido capazes de resistir à tortura e às ameaças de morte ou de aceitar uma vida inteira atrás das paredes de uma prisão em nome dos princípios que defendem?

Tendo isto presente, ainda assim, não deixa de ser com muitas reservas que leio um jornalista a assumir-se vítima de manipulação, sendo que não aponta um caso isolado – o que seria perfeitamente compreensível e até desejável –, mas antes uma prática repetida nas redacções pela pressão das audiências ou das direcções. Da mesma forma, custa-me a aceitar que se defenda como único valor noticioso acrescentado do jornalismo de imprensa sobre o jornalismo de televisão a capacidade de antecipação, ou que o respeito pelos leitores passe, sobretudo, pela vontade de lhes dar novidades.

As reservas em relação ao primeiro caso prendem-se com o aparente à-vontade com que se assume a manipulação de que são alvos os jornalistas. Fica explícito que quem o escreve não se sente confortável com a situação, mas a própria forma como o relata, mais próxima do desabafo do que da denúncia, revela uma falta de constrangimento que deixa um travo de perplexidade a quem lê. Alguém imagina o que seria se um director-geral de um qualquer serviço público ou um qualquer executivo de uma qualquer empresa de referência na economia nacional viessem a público reconhecer abertamente que cediam a manipulações dos seus superiores ou que colocavam em segundo plano a ética dos seus desempenhos em função dos resultados que pudessem vir a ser alcançados? A classe dos jornalistas, e bem, seria a primeira a chamar a atenção para o caso, embora, a este respeito, não faltem também exemplos de silêncios incompreensíveis, como quando Carmona Rodrigues resolveu, sem assombro, divulgar a troca de lugares de nomeação política por apoios eleitorais na CML.

O segundo caso diz respeito a uma visão do jornalismo de imprensa que não incorpora como mais valia, sobretudo em relação à televisão, uma capacidade de tratar os assuntos que exceda a simples novidade. Quando a informação na televisão, pelo menos a que tem audiências mais significativas, está praticamente acorrentada a apontamentos de um ou dois minutos, os jornais possuem a enorme vantagem de poderem tratar os temas com um grau de profundidade muito superior. Mais ainda quando a interacção do leitor com o jornal lhe permite escolher os momentos de leitura e construir o seu percurso pelos diferentes textos da notícia, algo que está, como é óbvio, completamente fora de questão num telejornal. O jornalismo de imprensa pode e deve ser muito mais do que uma mera antecipação do que vai passar na televisão ao início da noite.

O enfoque não deve restringir-se apenas a dar ao leitor o que ele não sabe, mas a dar-lhe a possibilidade de saber mais do que já sabe e de aceder a essa informação sabendo que as tentativas de manipulação dos conteúdos foram anuladas ou reduzidas a um mínimo residual com o qual se terá sempre de lidar. Não se exige uma estirpe nova de heróis nem uma acção hiper-moralizadora no desempenho da profissão. Mas pode pedir-se uma abertura de espírito para trocar mais vezes a informação que é novidade pela informação que é relevante, a aceitação passiva pela capacidade crítica. Será com toda a certeza muito difícil lutar sozinho contra um sistema instalado e a funcionar a toda a velocidade, mas se conseguirem juntar-se esforços de classe que ultrapassem o interesse corporativo, talvez seja possível alterar o panorama da produção de notícias que vigora actualmente. Aí está uma notícia que daria gosto ler.

Wednesday, April 26, 2006

Custa-me a entender que alguém, com educação mais que suficiente para isso, apesar dos vinte e poucos anos de idade, se deixe apanhar numa gravidez indesejada e fora de uma relação minimamente estável.
Não posso evitar uma certa perplexidade pessoal ao constatar este meu desconforto. Penso que talvez possa querer dizer que estou a ficar conservador. Ou, pior ainda, que estou a envelhecer.

Condenado, pois então, aos temas da semana passada, dediquemos algum tempo ao artigo de opinião de Luciano Amaral, do DN de quinta-feira. Nele, LA aborda um dos meus temas favoritos de discurso ideológico: as eleições legislativas em Espanha, depois do 11 de Março. Toda a gente tem os seus botões de disparo e este é um dos meus. Se se costuma dizer que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade, também pode ser que uma mentira denunciada outras tantas vezes acabe por não sobreviver.

Para LA, como se depreende da leitura, existiu um consenso entre a agenda do PSOE e a dos terroristas, a qual passou pela retirada do Iraque. LA escusa-se de reflectir sobre as razões apontadas pelo PSOE para retirar do Iraque. Esse exercício acarretaria, forçosamente, interpretações sobre a legitimidade e oportunidade desta guerra, que Zapatero, juntamente com a maioria da população espanhola, questionou e bem. Após não se ter comprovado a existência de armas de destruição maciça no Iraque, após se ter verificado que a guerra custaria e duraria muito mais que o previsto, após terem falhado todas as previsões optimistas de instauração de uma democracia ocidentalizada em Bagdad, após ficar patente o endosso de contrapartidas, sob a forma de contratos milionários para operar no Iraque, a grupos empresarias com estreitas ligações à administração Bush, após a abertura das portas de uma das maiores nações do Golfo Pérsico ao fundamentalismo islâmico e após o falhanço em deter o terrorismo a nível mundial, este é um tema do qual os defensores de primeira hora do intervencionismo bélico tendem agora a fugir.

Ao contrário do que LA, e outros como ele, quer fazer crer, o terrorismo não influenciou o resultado das eleições em Espanha. Foi, antes, a conduta do PP de Aznar e Rajoy, com as suas faltas à verdade, as suas deturpações e as suas manipulações que perderam, virtualmente sozinhos, essas eleições. O terrorismo talvez tenha querido ter influência no resultado eleitoral em Espanha, mas foi, ironicamente, a falta de cultura democrática que o PP evidenciou nessa altura, o condicionamento informativo e a tentativa, demasiado óbvia, de capitalizar politicamente a tragédia, que definiu a votação maioritária no PSOE.

Sem surpresa, LA embarca ainda em mais uma tentativa de confundir o "compreender", utilizado no sentido de saber, entender, conhecer, num "compreender" utilizado num sentido de desculpar, desagravar, aceitar. Para esta deturpação já vai sobrando pouca paciência. Quem teima em não compreender a diferença entre as duas acepções da palavra não pode reivindicar compreender grande coisa.

P.S.: Por uma questão de rigor, alguém deveria explicar a Luciano Amaral que o voo 93 foi o que se despenhou na Pensilvânia e não um dos dois que embateram no WTC.

Ao que julgo saber, existem três circulares à volta de Lisboa. Muito embora, a primeira seja quse no centro da cidade e a terceira não se saiba muito bem por onde passa. Ora isto, noves fora, dá... é fazer as contas.

"Eu até gosto muito da rapariga. É asseadinha e boa dona de casa.", disse o tipo a quem o namoro não está a correr bem.

Monday, April 24, 2006

Desde pouco depois das nove da manhã, tenho estado, sem sucesso, a tentar publicar. Passo tanto tempo longe do blogue que ele decidiu começar a fazer-se difícil.


Marc Chagall, O Casamento Russo, 1909

O problema de escrever sozinho num blogue é que, quando se dedica a maior parte do tempo que se tem ao que está para além do blogue – aquilo que se costuma chamar vida privada –, os textos ficam para aqui a envelhecer. Geralmente envelhecem mal, como o texto anterior, demasiado amargo para ocupar o prime spot bloguista durante tanto tempo.
Mais do que isso, fica-se condenado, na melhor das hipóteses, a falar dos acontecimentos da semana passada, senão mesmo a perdê-los de todo. Assim seja. Já uma vez dei demasiada importância à blogosfera e o resultado não foi muito bom. Afinal, como alguém disse, isto é só um blogue.

Monday, April 17, 2006

"Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou 'organização' (...).

(...)

A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória."


Os primeiros dois parágrafos pertencem ao Nuno Guerreiro, que vem assim responder à discussão suscitada pelo Lutz. Meia dúzia de linhas como estas, ou ainda menos, a enquadrar o desafio que foi lançado na Rua da Judiaria e não só o post do Lutz não teria, com toda a certeza, sido sequer cogitado, como muito menos se teria dado a discussão que entretanto viu a luz do dia.

O Nuno Guerreiro, para concluir o seu texto, cita ainda o Francisco José Viegas:

"Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo."


A isto eu contraporia que quando alguém diz "eu vou", não obriga ninguém a ir. É a sua liberdade individual, a sua opção, a sua crença, nada a dizer. Mas quando alguém diz "vem comigo", eu sinto-me autorizado a perguntar "porquê". Sinto-me autorizado a pensar sobre isso, a exercer, também, a minha liberdade individual, a minha opção, a minha crença. Isto parece-me tão cristalino quanto me surgem agora as intenções do Nuno Guerreiro. Que ele se sinta triste, até ofendido, com o muito que se escreveu entretanto, é inteiramente compreensível. Que ele coloque o debate que se tem verificado entre aspas, muito sinceramente, é outra conversa diferente, e uma enorme injustiça para muitas pessoas que intervieram com toda a propriedade e sentiram a troca de pontos de vista, o mais que não seja, como um exercício de esclarecimento individual.

Este assunto, para mim, está encerrado.

Novos desafios da imprensa de referência

Na sexta-feira santa, o Público chamava à capa as recentes traduções de evangelhos gnósticos. Interrogava-se o diário se a traição de Judas faria parte do plano de Deus. Assim, de repente, pareceu-me uma pergunta bastante ambiciosa para ser colocada por um jornal.

Thursday, April 13, 2006

Eu percebo que, vamos lá, de vez em quando, a vontade de trabalhar abrande e se arranje uma desculpa para disfarçar o absentismo. Eu também percebo que exista quem tenha realmente o que fazer e, num ou noutro dia, não possa estar presente. O que eu definitivamente não percebo é que, nas máquinas densas que são os partidos políticos, não exista ninguém com a responsabilidade de exercer um pequeno controlo sobre os grupos parlamentares e toque a rebate quando a vergonha se anuncia; ou, existindo, que cumpra tão mal a sua função.

Conclusão lógica

1 - Quem tem um blogue passa muito tempo na internet.
2 - Passar muito tempo na internet passou a ser pecado.
3 - ____________________________________

Tuesday, April 11, 2006

Ainda na sequência da discussão em torno da iniciativa do Nuno Guerreiro, a Helena, no Dedos de Conversa, e a Ana Cláudia Vicente, n’O Amigo do Povo, levantam um tópico paralelo e bastante relevante: perante o receio da instrumentalização, a desconfiança facilmente se converte em paralisia ou em alienação das formas de associação.

Com efeito, existe um certo receio, da parte de quem reconhece os processos de manipulação como fenómeno indiscutível das sociedades actuais, de se ver por eles usado. Esse facto tende a gerar o cultivo da desconfiança como forma dominante de observação do real. Por exemplo, o afastamento entre a população e a política não é alheio a este fenómeno e qualquer análise decente deverá tê-lo em conta. No fundo, estamos perante um instrumento de defesa do indivíduo, mas cujas implicações devem igualmente ser consideradas.

Se um radicalismo dos que se escudam de tais processos manipulatórios é pouco recomendável do ponto de vista da sociabilidade e da solidez dos laços, não deixa de ser também evidente que o problema principal é menos a estratégia de defesa do que a ameaça que a faz surgir. Isto é, as críticas que se possam lançar ao imobilismo que esvazia os movimentos sociais têm necessariamente de ser compensadas, por uma questão de rigor, com a denúncia dos processos de manipulação que grassam nas sociedades contemporâneas. Denunciando estes últimos e criando mecanismos de defesa adequados contribuímos, desde logo, para a diminuição do individualismo exacerbado que deles deriva. Mais do que isso, como é óbvio, fortalecemos os princípios democráticos de liberdade de informação e de liberdade de escolha.

A manipulação afecta negativamente os fundamentos democráticos da liberdade e autonomia do indivíduo, assim como afecta, mais a jusante, através das reacções de defesa que pode gerar, a forma de relacionamento em sociedade. Os mecanismos de defesa terão de ser muito bem (re)equacionados, de forma a garantir que não estamos a corrigir um mal com outro. Mas que, nesse desígnio, não se esqueça que não é somente um problema que está em questão, mas sim dois, e que existe uma relação causal entre eles à qual não podemos ficar indiferentes.

Meias-verdades, conclusões que não derivam logicamente das premissas estabelecidas na argumentação que as antecede e um chorrilho interminável de preconceitos e estereótipos sobre o que são os “típicos” italianos.

Que justificação existe para que a indigência intelectual de Luís Delgado continue a ter direito a espaço num dos diários nacionais de referência, ou que mereça assento em painéis de convidados de programas de rádio e televisão?

Monday, April 10, 2006

Quatro razões para não ir

O Nuno Guerreiro tem vindo a desafiar os seus leitores a deslocarem-se ao Rossio, dia 19 de Abril, para acenderem uma vela em memória das vítimas do massacre de 1506. O Lutz, no Quase em Português, pergunta-se pelos argumentos dos que se incomodam com esta proposta. Conto-me entre esse número e acredito, tal como o Lutz, que uma discussão aberta pode ser mais benéfica do que umas centenas ou uns milhares de pessoas no Rossio.

Assim, os quatro pontos que mais me incomodam são os seguintes:

1 - A proposta do Nuno Guerreiro surge desprovida de outra contextualização que não seja a evocação do acontecimento e, quando assim é, existem certamente outras contextualizações implícitas que não estão a ser divulgadas. Falta, como o Lutz muito bem notou, saber "em nome de quem, dirigido a quem e para quê".
2 - De forma concomitante, evocar a história sem procurar compreendê-la é uma acção de pouca utilidade. Em 1506 foram mortos milhares de judeus em Lisboa, o que é um facto iniludível. Mas esse facto deve ser enquadrado no contexto social da época. As mortes que se registaram em Lisboa há 500 anos não resultaram da pura maldade. Hão-de ter correspondido a quadros mentais, sociais e culturais devidamente inscritos nessa época histórica. Eventualmente, poderão ter correspondido até a interesses políticos e económicos. Na ausência de tal enquadramento, evocar a História traz poucos ou nenhuns benefícios do ponto de vista do conhecimento da mesma.
3 - Porque se trata de um "desafio". O uso do termo parece-me, de certa forma, uma manipulação. Por que é que me hei-de sentir desafiado a ir ao Rossio dia 19 de Abril? O Nuno Guerreiro não nos "convoca" nem nos "pede" para irmos ao Rossio. "Desafia-nos", e a utilização deste termo não me parece neutra. Um desafio pede que estejamos à sua altura. Eventualmente, que nos superemos. Nesta forma de pôr as coisas não se solicita uma aquiescência. Mais do que isso, solicita-se uma elevação moral. De "desafio" passamos facilmente a "dever" ou, no seu incumprimento, a "culpabilização". Em última análise, o apelo do Nuno Guerreiro remete mais para o domínio dos afectos do que para o domínio dos valores e da razão.
4 - Para finalizar, porque me faz sentir arregimentado, senão mesmo instrumentalizado. É uma consequência inevitável dos métodos utilizados neste "desafio". A iniciativa carece de justificações e de uma linguagem mais transparente. Sobra, por isso, bastante espaço para interpretações menos positivas sobre o intuito, sobre as finalidades não declaradas, de congregar tanta gente ao serviço não se sabe bem do quê.


Ainda melhor que o primeiro.

Friday, April 07, 2006

Aliás

A seu pedido, na campa de Marcel Duchamp ficou gravado:
"Aliás, são sempre os outros que morrem."

Wednesday, April 05, 2006


Marcel Duchamp, Nu descendo uma escada, 1912