Wednesday, August 23, 2006

Procurar respostas sem querer fazer perguntas.

Your eyes forever glued to mine

Placebo, Blind

Friday, August 18, 2006

Rejubilai! Pela primeira vez em não sei quantos anos todas as equipas do primeiro escalão do campeonato nacional de futebol vão ser treinadas por portugueses. É difícil esconder o êxtase. Ainda hoje, o comentador da TSF, num assomo de originalidade, recordava que "o que é nacional é bom" e acrescentava, para melhor defender os interesses do treinador português, que Co Adriaanse veio treinar para Portugal sem ter ganho qualquer título.

Ora, neste registo de demagogia barata também se poderia afirmar que uma boa parte dos treinadores portugueses que vão começar este campeonato à frente de equipas da 1ª Liga também nunca ganharam nada de jeito. Tal como se poderia afirmar que o número de portugueses a liderar equipas técnicas de clubes de referência por esse mundo fora se pode contar pelos dedos de uma mão, sendo que talvez sobrem mais dedos do que aqueles que são precisos para os contar.

Mais razoável seria reconhecer que os clubes portugueses não têm capacidade financeira para pagar a treinadores estrangeiros, muito menos se estes estiverem habituados a trabalhar nos melhores campeonatos europeus, nem o campeonato nacional, pela sua fraca qualidade, tem capacidade de atrair treinadores que aspirem a uma carreira de relevo.

Contra esta triste realidade, há quem prefira erigir uma bonita ilusão patriótica. Mas esta, no fundo, não passa de apenas mais uma versão dessa nacionalíssima característica que é o provincianismo.

Contam os livros de História que, durante a Guerra do Peloponeso, os Atenienses teriam afirmado aos habitantes sitiados da cidade de Mélio que "os fortes fazem o que têm poder para fazer e os fracos aceitam o que têm de aceitar".

Muito tempo depois, já em pleno século XVIII, Jean-Jacques Rosseu escreveu sobre o direito do mais forte:
"Consideremos um momento esse pretenso direito. Penso que dele apenas resulta um imbróglio inexplicável, pois, sempre que é a força que faz o direito, o efeito muda com a causa; qualquer força que se sobreponha à primeira sucede ao seu direito. A partir do momento em que se pode desobedecer impunemente, pode-se desobedecer legitimamente, e, visto que o mais forte tem sempre razão, apenas importa conseguir ser o mais forte. Mas, afinal, que é um direito que desaparece quando a força cessa? Se se tem de obedecer pela força, não é preciso obedecer por dever e, se não se é forçado a obedecer, já não se é obrigado a obedecer. Vemos portanto que esta palavra ‘direito’ não acrescenta nada à força; neste caso, não significa absolutamente nada.
(…)
Convenhamos portanto que não é a força que faz o direito e que apenas se é obrigado a obedecer aos poderes legítimos."


Uma vez dissociada a noção de poder da noção de legitimidade, resulta que apenas quando estes dois conceitos se reúnem se afigura perfeitamente justificado o exercício do primeiro. Caso contrário, a legitimidade passa a estar do lado dos que se recusam a obedecer.

Diz-se que só existe moralidade quando existe a possibilidade de escolha. Ninguém é obrigado a cumprir o impossível, mas também é verdade que raras vezes uma situação se apresenta realmente sem possibilidade de escolha. Os princípios morais acompanham as nossas acções e a utilização do peso do contexto como argumento justificativo é, muitas vezes, apenas uma forma de desculpabilização. Uma desculpabilização que Sartre apelidou de má fé. O simular de uma necessidade, de uma força maior, quando, eventualmente, tudo se pode reduzir a uma opção pessoal. O ser humano não pode ser entendido fora do seu contexto social, separado das suas circunstâncias, mas também não pode ser entendido fora do seu livre arbítrio. Algo que é válido para o criminoso, para a vítima, para o juiz e para o algoz.

Thursday, August 17, 2006

No que diz respeito aos voos mais que suspeitos da CIA, Portugal, ou o seu governo, talvez pouco pudessem usar para pressionar os EUA a não usar as bases das Lages como escala. Além disso, é necessário recordar que se trata de um país com quem Portugal mantém laços de amizade e alianças estratégicas no que diz respeito à defesa e à economia. Pode ainda evocar-se que, caso o governo português recusasse o espaço aéreo nacional a tais voos, algum outro país estaria na disposição de os aceitar, o que nos levaria a perder influência junto dos EUA e, até, a sofrer alguma espécie de retaliação diplomática ou económica, sendo preteridos como parceiros estratégicos num futuro próximo. Pode equacionar-se a delicada posição de Portugal nestes termos e aceitar uma certa dose de tolerância perante algumas violações das convenções internacionais e das mais básicas regras de respeito pelo ser humano.

Na realidade, isto é o que, com alguma hipocrisia, se pode apelidar de realismo; e o que, com bastante realismo, se pode apelidar de hipocrisia.

Porque também se pode afirmar, com toda a propriedade, que a luta contra o terrorismo, especialmente o que nos aflige neste tempo, passa por ser um confronto ideológico. O terrorismo de cariz fundamentalista submete os meios aos fins a alcançar e legitima o uso da violência na tarefa de os atingir. Contra esta ideologia, sem prejuízo de uma melhoria significativa da segurança dos seus cidadãos, as democracias ocidentais deviam cerrar fileiras em torno dos princípios fundamentais que tanto lhes custou a conquistar. Princípios como o Estado de Direito e o respeito pelas garantias que assistem a qualquer pessoa, independentemente das suspeitas que sobre ela recaiam.

Ao afirmarem sem complexos os traços característicos da sua identidade, as democracias ocidentais assumem a melhor forma de combate ideológico de que dispõem. A outra hipótese é deixarem-se corromper, mais ou menos lentamente, em nome de uma luta que afirmam travar precisamente contra uma ideologia que serve de suporte a todo o tipo de atrocidades.

Voltei.

Thursday, July 20, 2006

Um aspecto inquestionavelmente associado à Lei do Protocolo de Estado é a necessidade de regulamentar as precedências entre as hierarquias do Estado. Outro é o provincianismo que estas mexidas sempre exalam. O Protocolo também pode ser visto como uma continuação desse fado nacional que é a deferência servil. Ouve-se dizer, com uma certa frequência, dichotes anedóticos sobre o conflito entre o primeiro rei de Portugal e a sua mãe, numa alusão que se pretende à imagem do ditado popular “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mas quanto a maus começos, a história de um Egas Moniz, que se teria apresentado em absoluta submissão ao rei de Castela, também tem muito que se lhe diga como imagem de marca.

O Protocolo acaba por ser uma continuação, numa versão bastante mais elaborada, do tratamento por Sr. Doutor e Sr. Engenheiro que conseguimos, algures durante o século passado, converter em condição sine qua non do reconhecimento respeitoso do estatuto do outro. Tudo isto nos remete para uma ligação ainda muito forte à autoridade tradicional, que o Protocolo pretende fundir com a autoridade legal, reforçando assim as legitimidades de uma e de outra. Só desta forma se entende que o lugar reservado para os representantes das confissões religiosas seja definido em função da sua implantação na sociedade. Traduzindo, quantos mais fiéis, maior relevo no Protocolo.

Se já se pode questionar a inclusão das autoridades religiosas no Protocolo de Estado, mais se pode questionar esta discriminação entre confissões. Por detrás de uma suposta máscara democrática esconde-se um tradicionalismo arcaico. Faltou sentido de igualdade, e faltou coragem, para equiparar todas as confissões religiosas, perante o Estado e perante a sociedade. O Estado não tem preferências, nem deve assumir para si as da sociedade civil, embora seja aconselhável que as saiba identificar. Mas esta separação entre a esfera pública e a esfera privada ainda provoca muita confusão a muita gente. Os velhos hábitos custam a mudar.

Tuesday, July 18, 2006

Se este blogue dispusesse de um player, oferecia a quem por aqui passa o tema Halloween, pela voz de Dave Matthews. Para quem não conheça a música, não é inteiramente justo que se diga que Dave Matthews canta a letra da canção. Mais apropriado seria dizer que aqueles cinco minutos são preenchidos por uma voz que vai gritando de dor, de raiva, de impotência e de despeito. O amor também pode ser isto tudo.

Regressemos, disse o bloguista depois do descanso.

Thursday, June 29, 2006

"Calem-se as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido falar; mostrem-se submissas, como diz a própria Lei. Se querem aprender alguma coisa, perguntem-no em casa aos seus maridos, porque não é decente que a mulher fale na Igreja."
1ª Epístola aos Coríntios, 14:34-35


Parecem não restar dúvidas que Paulo terá escrito a 1ª Epístola aos Coríntios que se encontra incluída no Novo Testamento. Contudo, a autoria dos versículos 34 e 35 do capítulo 14 mostra-se um assunto bastante mais problemático. Vários motivos, apontados pelos especialistas, levam a crer que não só Paulo não teria escrito essas linhas como a sua opinião sobre a participação das mulheres na vida da Igreja teria sido algo diferente. Em vários outros momentos, em cuja autoria não oferece dúvidas, Paulo fala de forma abonatória, ou pelo menos neutra, da participação das mulheres nas actividades da Igreja e refere mesmo algumas que desempenhavam funções de liderança ou de relevo no seu seio.

Contudo, como se vê, num texto que foi escolhido para figurar na Bíblia, alguém terá decidido acrescentar um retoque de características claramente misóginas. A questão, aqui, nem é tanto a da autoria de tal parágrafo nem a da fidelidade deste às convicções de Paulo. O que se depreende destas deturpações dos originais é que não só foram, em algum momento, consideradas necessárias por alguma pessoa ou por algum grupo, como recolheram a aceitação da opinião pública, tanto na altura como nos séculos que ainda estavam para vir. O que está em causa é um problema de ideologias. Apesar de se tratar, muito provavelmente, de uma falsificação, a redacção do parágrafo da 1ª Epístola aos Coríntios que remete as mulheres ao silêncio traduz uma visão das relações sociais entre homens e mulheres e dos lugares reservados para uns e outras. A sua publicação e subsequente aceitação revela, por seu lado, uma mentalidade dominante disposta a suportar essa versão dos relacionamentos. Trata-se de um círculo viciado. Algures no meio social existe uma visão misógina do lugar da mulher; falsifica-se então um texto de cariz teológico de acordo com essa mesma visão; esse texto passa, assim, a conferir legitimidade à visão misógina que, de facto, lhe esteve na origem.

Essa ideologia, essa visão da mulher perante o homem, vingou na altura, vingou através dos tempos e continua a vingar hoje. Dir-se-á que percorremos um longo caminho e que hoje as mudanças para melhor na igualdade de direitos são uma realidade inegável. Mau seria que não o fossem. Percorremos, efectivamente, um longo caminho. Alteraram-se, efectivamente, as mentalidades. Mas terá sido o suficiente? Tem a mulher o lugar de igualdade na sociedade a que, também inegavelmente, tem direito?

Os factos parecem apontar o contrário e os discursos produzidos sobre o tema traem várias vezes as boas intenções que pretendem veicular. Sobre o número de mulheres a desempenhar cargos de relevo, já muito se disse. São poucas, apesar de não lhes faltarem as qualificações. Os lugares de topo estão sobretudo preenchidos por homens que recrutam sobretudo homens. Nas sociedades ocidentais não existem barreiras oficiais à participação das mulheres na vida pública, mas essa participação continua a ser dominado pelos homens e esse é um sinal ao qual não se pode ficar indiferente. Apesar de não serem sociedades assumidamente discriminatórias para a mulher, o domínio masculino só pode oferecer desconfiança.

As regras sociais podem possuir tanta ou mais força que as regras legais. Mais ainda, enquanto as regras legais são mais claramente percebidas como construção, as regras sociais apresentam-se, a maior parte das vezes, de forma "natural". Mas as regras sociais têm tanto de construção como as regras legais. Simplesmente, enquanto estas últimas se encontram coligidas em códigos, a partir dos quais é possível descobrir o exacto momento da sua origem e traçar o seu percurso desde então, as primeiras vivem há muito no acervo colectivo da cultura e das práticas da sociedade. Perde-se assim a perspectiva de construção social que lhes deu origem e as manteve, para ganharem, por substituição, um peso de realidade "natural" e "inquestionável".

As ideologias têm a característica de se transformarem em realidades opacas. Ou melhor, de se confundirem com a realidade. Uma ideologia é uma visão do que o mundo deve ser, de acordo com determinado grupo social, e não o que o mundo efectivamente é. Mas pode ser muito difícil discernir o que é realidade e o que é ideologia. Existe um grupo intitulado Associação Mulheres em Acção que, entre outras coisas, defende a participação activa das mulheres na vida pública e em termos de igualdade com os homens. Entre os seus argumentos consta a defesa dos "valores propriamente femininos". Ora, embora não se saiba exactamente o que querem as Mulheres em Acção dizer com "valores propriamente femininos", sabe-se, desde há algumas décadas, que os papéis sociais do homem e da mulher são socialmente determinados. São as sociedades que constroem as identidades sociais para os homens e para as mulheres. Mas quando um grupo que defende a igualdade de direitos entre homens e mulheres integra no seu discurso uma visão das identidades de género que é, ela mesma, de certa forma, tributária da discriminação social, não resta muito mais para dizer sobre o sucesso da dominação masculina. A discriminação foi imposta com tanto sucesso que convivemos pacatamente com ela e até se chega a fazer o seu elogio como se se tratasse da coisa mais natural do mundo.

No fundo, esta aparente normalidade é algo que nos acompanha há muito tempo. Só que agora arranjámos forma de nos convencermos de que a erradicação do problema está próxima.

Monday, June 26, 2006

Há coincidências que precisavam de algo mais que o acaso para as explicar. Através de um post do FNV, fico a saber que o Procurador-Geral mexicano responde pelo nome de Daniel Cabeza de Vaca.

Cabeza de Vaca

Álvar Núñez Cabeza de Vaca, conquistador espanhol do século XVI, naufragou ao largo da costa do actual estado do Texas em 1528. Juntamente com alguns companheiros de viagem, viveu os seis anos seguintes entre os índios dessa região, adoptando uma boa parte dos seus modos de vida. Tendo granjeado reconhecimento entre as populações, desempenha uma função de comerciante, deslocando-se da costa para o interior, e vice-versa. Mais ainda, os índios convencem-se dos seus poderes curativos e Cabeza de Vaca, não mais do que à custa de uma mistura de ritos tradicionais indígenas e Pais Nossos e Avés Marias, como ele mesmo refere, passa assim a exercer a função de xamã.

Movido pela vontade de encontrar os seus, e depois de uma quase inacreditavelmente longa caminhada de dois anos, alcança as terras do México, onde a conquista espanhola segue em ritmo elevado. Finalmente, o desejo de reencontrar os seus compatriotas e a possibilidade de voltar a pisar solo espanhol são uma realidade. Ainda regressará às Américas, não só como explorador, mas também como governador do Vice-Reino de Rio de la Plata. Aí incompatibiliza-se com os abusos cometidos sobre os índios e acaba destituído das suas funções.

A interessante história deste homem excede as peripécias das suas viagens. Cabeza de Vaca é um dos conquistadores espanhóis que decide relatar para a posteridade a sua visão das conquistas. É nesse campo que se torna mais notável. Natural de Espanha, acaba por encontrar e viver durante um largo período numa cultura completamente estranha ao mundo que até aí conheceu. Apesar do nível de integração cultural que alcança, nunca esquece a sua terra natal nem o desejo de a rever. Nos relatos sobre esses agitados anos, a utilização do "nós" vai balançando entre o lado dos espanhóis e o lado dos índios. Até que, por fim, o indeciso "nós" acaba substituído por um "eles" comum a ambos os lados.

Tendo vivido as duas culturas, não renegando explicitamente nenhuma delas, é como se Cabeza de Vaca, de forma paradoxal – ou talvez não –, deixasse de se conseguir incluir nos dois mundos que retrata. Para ele, perante a experiência da alteridade, já só resta a exterioridade.

Friday, June 23, 2006


Gustav Klimt, Die Jungfrau, 1913

Escolho este conjunto de jovens donzelas para, após as dúvidas lançadas de forma implícita sobre as capacidades de apreciação estética de Klimt, fazer justiça ao pintor.
Como se sabe, os critérios que definem a beleza variam com as épocas. Muito embora, com alguma maldade, possa haver quem se interrogue se alguma vez terá havido época com critérios que, de bom grado, acolhessem a senhora Adele Bloch-Bauer. Pior sorte terá tido Diego Velásquez, "forçado" a retratar inúmeras vezes a rainha Maria Luísa, mulher de Carlos IV de Espanha.

Para além destas considerações, trocando a estética pela ética, podemos ainda reformular a dúvida da Helena e, em vez de perguntarmos como se chega a uma situação financeira de ter 135 milhões de dólares para comprar um quadro, questionarmos antes como é que, num mundo com tanto dinheiro, ele continua a faltar a tanta gente para coisas tão essenciais. Penso que esta pergunta pode suscitar respostas muito mais interessantes. Nunca se deve menosprezar a criatividade e a racionalização do ser humano.

Thursday, June 22, 2006

Se bem percebi, o presidente de Timor-Leste pediu a demissão do primeiro-ministro em função de um programa de televisão australiano, acrescentando ele mesmo mais algumas acusações sobre Alkatiri. Independentemente dos erros que o primeiro-ministro e o partido que o apoia possam ter cometido, ou estejam a cometer, a confiança no discernimento político de Xanana Gusmão deixou de ser sustentável.

Há quem olhe para as bandeiras desfraldadas nas janelas, para as t-shirts de Portugal a passearem-se nas ruas, para os apoios que se multiplicam a cada golo e veja nisso um patriotismo renascido. Como se não fosse apenas, na sua grande maioria, a conhecidíssima tendência de fazer a festa ao lado dos que ganham.

Tuesday, June 20, 2006

Meses depois do último contacto, talvez mais de meio ano depois, um telefonema da imobiliária. As bases de dados são uma coisa fantástica. Só não sei quem é que se lembrou de pensar que podem ser travestidas de verdadeiro empenho.

135 milhões


Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I, 1907