Friday, May 19, 2006


Camille Pissarro, A Horta em Éragny, 1896

Thursday, May 18, 2006

Uma pessoa começa o dia a ler os seus blogues preferidos e dá com uma série de interrogações que lhe aceleram logo a actividade das little grey cells:
- Não é importante para uma pessoa saber quem é/era o seu pai? Mais: não devia isso ser um direito?
- Não é importante para uma pessoa saber que nasceu do desejo e do amor de um homem e uma mulher, ambos com nome concreto, história e raízes? Não é importante conhecer todas as circunstâncias da sua origem?
(...) e porque é que este filho há-de ficar para sempre preso ao enigma do seu pai biológico?!
Como é que isto se resolve a contento de todas as partes interessadas?


Ora, depois de muita actividade, sinto-me tentado a responder, respectivamente, da seguinte forma: depende, talvez, depende, depende, não sei e não sei.

Se o que é a vida de uma pessoa já constitui um enigma difícil de destrinçar, aquilo que essa vida poderá vir a ser assume um carácter ainda mais dúbio. Evidentemente, temos uma panóplia de ciências, os seus corpos teóricos e os seus conhecimentos empíricos, que nos ajudam a prognosticar, com maior ou menor probabilidade, o que são os labirínticos caminhos da actividade psicológica e social do ser humano. Mas apontar um destino, uma forma de pensar, de sentir e de agir, entendidos num sentido determinista, não pode ser outra coisa senão um exercício de futurologia.

A socialização da criança, nos seus primeiros anos de vida, caracteriza-se por uma interiorização da realidade tal como é apresentada pelos agentes de socialização mais relevantes nessa fase, geralmente os pais. A realidade apresentada por esses agentes será entendida não como uma realidade específica – uma alternativa entre muitas –, mas sim como a realidade – um absoluto. Mesmo os primeiros contactos com outras realidades são pautados por esta interiorização, a qual ganha ascendente sobre elas, sendo as alternativas de vida encaradas como anormalidades. Tal como os estudos de Piaget deixaram bastante claro, algumas crianças colocam as "verdades" dos pais acima de tudo, incluindo, por exemplo, das "verdades" de Deus. Só no momento em que as competências de abstracção e relativização da realidade social se vão consolidando é que a comparação entre os diferentes mundos passa a ser feita em termos mais comuns à que é feita pelos adultos. Do jogo de influências entre o que está vivido e o muito que está por viver há-de resultar, então, uma forma mais coerente de analisar a realidade e de encontrar nela um lugar próprio.

Mas se estes são os traços largos dos primeiros anos de socialização, o seu resultado concreto está dependente de inúmeras variáveis, entre as quais se devem contar, as biológicas, as psicológicas e as sociais.

Desta incerteza resultam tantos "depende" como resposta às difíceis perguntas que a Helena postou no 2 Dedos de Conversa. Tais factos serão importantes se as circunstâncias em que a criança é educada levarem à construção dessa necessidade. E, a partir do momento em que ela existe, não há como recusar-lhe legitimidade. Mas apenas nesse momento, e não antes, o que seria mera projecção da forma de estar do observador.

É inquestionável que um ambiente familiar saudável possui estabilidade e amor em doses reforçadas. Agora, por quantas pessoas devem ser essa estabilidade e esse amor assegurados é uma questão bastante diferente. Uma família monoparental não tem, forçosamente, de ser uma família diminuída no seu amor e na sua solidez de laços. Será, porventura, uma família condicionada na desejável distribuição de tarefas. Mas a consequência lógica desse facto é mais trabalho e não menos amor. Aliás, uma família monoparental que funciona bem é incomparavelmente melhor do que uma família biparental que não funciona. Mais ainda, enquanto a monoparentalidade constitui uma família, a associação forçada de um dador de esperma a essa família não se sabe bem o que constituiria. Nesse campo, talvez a liberdade de decisão, o bom-senso e a ponderação sejam as melhores soluções.

A Helena diz que fica com uma série de pruridos éticos resolvidos se ficar claro que os progenitores biológicos têm deveres iguais em relação à criança, e a criança tem direitos iguais em relação a ambos. Mas, para terminar, pergunto eu agora, com um certo egoísmo, reconheço, porque estou a colocar o meu prazer em trocar ideias com a Helena à frente dos caixotes que ela tem de empacotar até Junho, pergunto eu, então, se o sexo ou o esperma conferem direitos? Ou não será antes o trabalho, o muito trabalho, todos os dias, um após outro, o material de que é feito um pai ou uma mãe?

Wednesday, May 17, 2006

Eu, sendo uma pessoa situada politicamente à esquerda, julgo que as mulheres solteiras não devem ser deixadas de fora na procriação medicamente assistida, defendo que o Estado tem um papel obrigatório como interveniente na prestação de determinados serviços e torço sempre pelo Barcelona. Com tempo, hei-de voltar para explicar cada uma destas ideias, uma de cada vez.
Mas como também sou uma pessoa com as suas limitações, não compreendo como é que determinadas actividades, frequentemente apontadas como demasiado dispendiosas para o Estado, parecem despertar a cobiça dos privados, que não se importam de assumir para eles o que o Estado vai alienando. Também hei-de regressar a esta questão.

Tuesday, May 16, 2006

Devo reconhecer que, apesar de tudo o que possa ter dito em contrário, faz toda a diferença que não tenhas tempo para ler o que escrevo.

Excerto

(...) acordar às sete, sair às oito, entrar às nove, almoçar à uma, voltar a entrar às duas, sair às seis, estar de regresso às sete (...).

Foi só depois de começar a pensar que, um dia, me podiam cair as chaves pela frincha ao pé da porta do elevador que isso veio mesmo a acontecer.

Friday, May 12, 2006

Olha outro... Não sei o que diga. Nem, ao menos, um bloguezito sobre futebol, onde se possa ir desancar o Sporting de vez em quando?


Mark Rothko, Light Red Over Black, 1957

Wednesday, May 10, 2006

Estranho a publicidade gratuita ao Código Da Vinci – em livro e em filme – a que algumas organizações religiosas se prestam com os seus protestos. Mas, mais do que isso, estranho que não consigam separar uma investigação histórica minuciosa de uma especulação utilizada num produto literário de qualidade menor. Para além disto, é ainda sintomático da mentalidade que domina certos meios religiosos, ainda que, felizmente, não todos, a recomendação para que não se assista ao filme, a qual parece não reconhecer autonomia aos seus fiéis para fazerem um juízo por si próprios.
O Código Da Vinci, como produto artístico/comercial, não coloca em causa os fundamentos da religião católica. No entanto, os Evangelhos gnósticos, não incluídos na Bíblia, possuam relevância suficiente para levantar muitas questões sobre os fundamentos desses produtos puramente humanos que são as Igrejas. Mas sobre esses temas de grande interesse, sob variados pontos de vista, que são o surgimento dos cristianismos e das suas Igrejas, a sua multiplicidade nos primeiros anos da nossa era, a luta ideológica e a subsequente hegemonia do que mais tarde se veio a conhecer como Igreja Católica pouco de fala. Porventura, na maioria dos casos, por desconhecimento. Noutros, certamente por conveniência.

Um membro do Fórum Social Católico da Índia oferecer uma recompensa a quem entregar Dan Brown vivo ou morto, como se pode ler numa notícia do Diário Digital, é substancialmente diferente de ser o Fórum Social Católico da Índia a oferecer essa recompensa, como se pode ler também na mesma notícia.
Independentemente destas imprecisões, diga-se que oferecer recompensas deste género não parece ser uma atitude muito cristã.

Tuesday, May 09, 2006

Uma das resoluções que adoptei no Tempo dos Assassinos foi manter uma lista de links pequena e funcional. Algo que traduzisse interesses de leitura de uma forma realista. Mas, mais do que uma manifestação de interesses de leitura, a escolha dos blogues que ali constam pretende ser, de uma forma muito subjectiva e intangível, também uma linha de rumo para a identidade deste sítio. Uma identidade que se quer construída tanto na semelhança como na diferenciação. Desta última, o que pretendo extrair é, sobretudo, uma forma alternativa de ver, de estar, de sentir. Uma diferença que, ao invés de criar antagonismos, alargue horizontes.

Desde ontem que a lista de links conta com o novíssimo Lugar Comum. Nele se reúnem, sem desprimor para os restantes, dois dos meus bloguistas favoritos: o Afonso Bivar e o Lutz Bruckelmann, que alimentaram, respectivamente, o Bombix Mori e o Quase em Português até os transformarem em dois dos melhores exemplares de sempre deste meio.

Como é que o Lugar Comum vai abrigar as distintas e fortíssimas personalidades que o compõem é uma interrogação que me coloco, mas para a qual não procuro realmente resposta. Na incerteza, o problema levanta-se, de facto, para as quatro pessoas que o compõem e não para os seus leitores, nos quais me vou seguramente contar. Sobra-me curiosidade, mas quem por cá anda há já uns tempos aprendeu que os blogues são coisas vivas. Nascem, crescem e fenecem. Por isso mesmo, querê-los parados, cristalizados, é anular-lhes a essência. Mas esta realidade não invalida a nostalgia do que foram, do seu passado, da experiência comum da sua vida virtual. A morte não custa menos por a sabermos certa.

Este texto é, por tudo isto, uma elegia. O fim de um blogue, que se acompanhou com manifesto prazer praticamente durante dois anos e meio, cria, inevitavelmente, um vazio. O tempo, dizem, tudo sara. Assim o creio. Assim o espero.

Friday, May 05, 2006

Perguntaram-me se não escrevia nada hoje. Não seja por isso: bom fim-de-semana.

Thursday, May 04, 2006

Posts pedidos


Joan Miró, Escargot, Femme, Fleur, Toile, 1934

Parece ter reduzido o número de blogues a aderir a celebrações mútuas de aniversário. Digo-o baseado em nada mais que a percepção que tenho ao comparar o que julgo observar actualmente e o que julgo ter observado noutros tempos. Existe mesmo quem anuncie a vontade de deixar de felicitar todos os blogues aniversariantes e as razões que apontam são, no fundo, óbvias.
O aniversário de um blogue é uma forma de consolidação de estatuto. É sempre uma marca de distinção, de quem resiste, de quem tem trabalho com ele. Ou seja, um sinónimo de estatuto, o qual é, por sua vez, capitalizado em legitimação. Não há nada de errado nisso. O estatuto e a legitimidade são conceitos do quotidiano, desde o óbvio mundo do trabalho até às relações de amizade. Não há razão nenhuma para estigmatizar o desejo de reconhecimento do autor de um blogue.
A redução das felicitações, a ser verdade, não se fica a dever, então, à má vontade ou à quebra de laços virtuais entre blogues. Dever-se-á, sobretudo, ao crescimento que a blogosfera registou desde a explosão mediática que sofreu em 2003. Simplesmente, deixou de ser praticável felicitar toda gente que celebra mais um ano destas andanças.

O Picasso e o van Gogh que postei ontem foram leiloados pela Christie’s. Entretanto, a Sotheby’s leiloou outro Picasso pela módica quantia de 95 milhões de dólares. É a retoma. Há-de estar mesmo aí a chegar.

Wednesday, May 03, 2006

O Público quer levar a cabo alterações para combater os maus resultados. Para isso, contrataram uma consultora que, apesar de não identificada na notícia, se supõe que irá cobrar bom dinheiro pelo trabalho. Eu, que até sempre simpatizei com o Público, não queria deixar de contribuir com um pequeno conselho e não cobro nada por isso. Mudem de director. Já ontem era tarde.

75 milhões


Pablo Picasso, Le Repos, 1932
(34,7 milhões de dólares)


Vincente van Gogh, L'Arlesienne, 1890
(40,3 milhões de dólares)

Tuesday, May 02, 2006

No café da rua onde moro, "para que todos os clientes se possam sentir bem", pede-se aos não fumadores o favor de utilizarem exclusivamente as mesas para eles reservadas.
Não, não me enganei a escrever isto.