Wednesday, April 26, 2006

Condenado, pois então, aos temas da semana passada, dediquemos algum tempo ao artigo de opinião de Luciano Amaral, do DN de quinta-feira. Nele, LA aborda um dos meus temas favoritos de discurso ideológico: as eleições legislativas em Espanha, depois do 11 de Março. Toda a gente tem os seus botões de disparo e este é um dos meus. Se se costuma dizer que uma mentira repetida muitas vezes se transforma em verdade, também pode ser que uma mentira denunciada outras tantas vezes acabe por não sobreviver.

Para LA, como se depreende da leitura, existiu um consenso entre a agenda do PSOE e a dos terroristas, a qual passou pela retirada do Iraque. LA escusa-se de reflectir sobre as razões apontadas pelo PSOE para retirar do Iraque. Esse exercício acarretaria, forçosamente, interpretações sobre a legitimidade e oportunidade desta guerra, que Zapatero, juntamente com a maioria da população espanhola, questionou e bem. Após não se ter comprovado a existência de armas de destruição maciça no Iraque, após se ter verificado que a guerra custaria e duraria muito mais que o previsto, após terem falhado todas as previsões optimistas de instauração de uma democracia ocidentalizada em Bagdad, após ficar patente o endosso de contrapartidas, sob a forma de contratos milionários para operar no Iraque, a grupos empresarias com estreitas ligações à administração Bush, após a abertura das portas de uma das maiores nações do Golfo Pérsico ao fundamentalismo islâmico e após o falhanço em deter o terrorismo a nível mundial, este é um tema do qual os defensores de primeira hora do intervencionismo bélico tendem agora a fugir.

Ao contrário do que LA, e outros como ele, quer fazer crer, o terrorismo não influenciou o resultado das eleições em Espanha. Foi, antes, a conduta do PP de Aznar e Rajoy, com as suas faltas à verdade, as suas deturpações e as suas manipulações que perderam, virtualmente sozinhos, essas eleições. O terrorismo talvez tenha querido ter influência no resultado eleitoral em Espanha, mas foi, ironicamente, a falta de cultura democrática que o PP evidenciou nessa altura, o condicionamento informativo e a tentativa, demasiado óbvia, de capitalizar politicamente a tragédia, que definiu a votação maioritária no PSOE.

Sem surpresa, LA embarca ainda em mais uma tentativa de confundir o "compreender", utilizado no sentido de saber, entender, conhecer, num "compreender" utilizado num sentido de desculpar, desagravar, aceitar. Para esta deturpação já vai sobrando pouca paciência. Quem teima em não compreender a diferença entre as duas acepções da palavra não pode reivindicar compreender grande coisa.

P.S.: Por uma questão de rigor, alguém deveria explicar a Luciano Amaral que o voo 93 foi o que se despenhou na Pensilvânia e não um dos dois que embateram no WTC.

Ao que julgo saber, existem três circulares à volta de Lisboa. Muito embora, a primeira seja quse no centro da cidade e a terceira não se saiba muito bem por onde passa. Ora isto, noves fora, dá... é fazer as contas.

"Eu até gosto muito da rapariga. É asseadinha e boa dona de casa.", disse o tipo a quem o namoro não está a correr bem.

Monday, April 24, 2006

Desde pouco depois das nove da manhã, tenho estado, sem sucesso, a tentar publicar. Passo tanto tempo longe do blogue que ele decidiu começar a fazer-se difícil.


Marc Chagall, O Casamento Russo, 1909

O problema de escrever sozinho num blogue é que, quando se dedica a maior parte do tempo que se tem ao que está para além do blogue – aquilo que se costuma chamar vida privada –, os textos ficam para aqui a envelhecer. Geralmente envelhecem mal, como o texto anterior, demasiado amargo para ocupar o prime spot bloguista durante tanto tempo.
Mais do que isso, fica-se condenado, na melhor das hipóteses, a falar dos acontecimentos da semana passada, senão mesmo a perdê-los de todo. Assim seja. Já uma vez dei demasiada importância à blogosfera e o resultado não foi muito bom. Afinal, como alguém disse, isto é só um blogue.

Monday, April 17, 2006

"Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou 'organização' (...).

(...)

A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória."


Os primeiros dois parágrafos pertencem ao Nuno Guerreiro, que vem assim responder à discussão suscitada pelo Lutz. Meia dúzia de linhas como estas, ou ainda menos, a enquadrar o desafio que foi lançado na Rua da Judiaria e não só o post do Lutz não teria, com toda a certeza, sido sequer cogitado, como muito menos se teria dado a discussão que entretanto viu a luz do dia.

O Nuno Guerreiro, para concluir o seu texto, cita ainda o Francisco José Viegas:

"Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo."


A isto eu contraporia que quando alguém diz "eu vou", não obriga ninguém a ir. É a sua liberdade individual, a sua opção, a sua crença, nada a dizer. Mas quando alguém diz "vem comigo", eu sinto-me autorizado a perguntar "porquê". Sinto-me autorizado a pensar sobre isso, a exercer, também, a minha liberdade individual, a minha opção, a minha crença. Isto parece-me tão cristalino quanto me surgem agora as intenções do Nuno Guerreiro. Que ele se sinta triste, até ofendido, com o muito que se escreveu entretanto, é inteiramente compreensível. Que ele coloque o debate que se tem verificado entre aspas, muito sinceramente, é outra conversa diferente, e uma enorme injustiça para muitas pessoas que intervieram com toda a propriedade e sentiram a troca de pontos de vista, o mais que não seja, como um exercício de esclarecimento individual.

Este assunto, para mim, está encerrado.

Novos desafios da imprensa de referência

Na sexta-feira santa, o Público chamava à capa as recentes traduções de evangelhos gnósticos. Interrogava-se o diário se a traição de Judas faria parte do plano de Deus. Assim, de repente, pareceu-me uma pergunta bastante ambiciosa para ser colocada por um jornal.

Thursday, April 13, 2006

Eu percebo que, vamos lá, de vez em quando, a vontade de trabalhar abrande e se arranje uma desculpa para disfarçar o absentismo. Eu também percebo que exista quem tenha realmente o que fazer e, num ou noutro dia, não possa estar presente. O que eu definitivamente não percebo é que, nas máquinas densas que são os partidos políticos, não exista ninguém com a responsabilidade de exercer um pequeno controlo sobre os grupos parlamentares e toque a rebate quando a vergonha se anuncia; ou, existindo, que cumpra tão mal a sua função.

Conclusão lógica

1 - Quem tem um blogue passa muito tempo na internet.
2 - Passar muito tempo na internet passou a ser pecado.
3 - ____________________________________

Tuesday, April 11, 2006

Ainda na sequência da discussão em torno da iniciativa do Nuno Guerreiro, a Helena, no Dedos de Conversa, e a Ana Cláudia Vicente, n’O Amigo do Povo, levantam um tópico paralelo e bastante relevante: perante o receio da instrumentalização, a desconfiança facilmente se converte em paralisia ou em alienação das formas de associação.

Com efeito, existe um certo receio, da parte de quem reconhece os processos de manipulação como fenómeno indiscutível das sociedades actuais, de se ver por eles usado. Esse facto tende a gerar o cultivo da desconfiança como forma dominante de observação do real. Por exemplo, o afastamento entre a população e a política não é alheio a este fenómeno e qualquer análise decente deverá tê-lo em conta. No fundo, estamos perante um instrumento de defesa do indivíduo, mas cujas implicações devem igualmente ser consideradas.

Se um radicalismo dos que se escudam de tais processos manipulatórios é pouco recomendável do ponto de vista da sociabilidade e da solidez dos laços, não deixa de ser também evidente que o problema principal é menos a estratégia de defesa do que a ameaça que a faz surgir. Isto é, as críticas que se possam lançar ao imobilismo que esvazia os movimentos sociais têm necessariamente de ser compensadas, por uma questão de rigor, com a denúncia dos processos de manipulação que grassam nas sociedades contemporâneas. Denunciando estes últimos e criando mecanismos de defesa adequados contribuímos, desde logo, para a diminuição do individualismo exacerbado que deles deriva. Mais do que isso, como é óbvio, fortalecemos os princípios democráticos de liberdade de informação e de liberdade de escolha.

A manipulação afecta negativamente os fundamentos democráticos da liberdade e autonomia do indivíduo, assim como afecta, mais a jusante, através das reacções de defesa que pode gerar, a forma de relacionamento em sociedade. Os mecanismos de defesa terão de ser muito bem (re)equacionados, de forma a garantir que não estamos a corrigir um mal com outro. Mas que, nesse desígnio, não se esqueça que não é somente um problema que está em questão, mas sim dois, e que existe uma relação causal entre eles à qual não podemos ficar indiferentes.

Meias-verdades, conclusões que não derivam logicamente das premissas estabelecidas na argumentação que as antecede e um chorrilho interminável de preconceitos e estereótipos sobre o que são os “típicos” italianos.

Que justificação existe para que a indigência intelectual de Luís Delgado continue a ter direito a espaço num dos diários nacionais de referência, ou que mereça assento em painéis de convidados de programas de rádio e televisão?

Monday, April 10, 2006

Quatro razões para não ir

O Nuno Guerreiro tem vindo a desafiar os seus leitores a deslocarem-se ao Rossio, dia 19 de Abril, para acenderem uma vela em memória das vítimas do massacre de 1506. O Lutz, no Quase em Português, pergunta-se pelos argumentos dos que se incomodam com esta proposta. Conto-me entre esse número e acredito, tal como o Lutz, que uma discussão aberta pode ser mais benéfica do que umas centenas ou uns milhares de pessoas no Rossio.

Assim, os quatro pontos que mais me incomodam são os seguintes:

1 - A proposta do Nuno Guerreiro surge desprovida de outra contextualização que não seja a evocação do acontecimento e, quando assim é, existem certamente outras contextualizações implícitas que não estão a ser divulgadas. Falta, como o Lutz muito bem notou, saber "em nome de quem, dirigido a quem e para quê".
2 - De forma concomitante, evocar a história sem procurar compreendê-la é uma acção de pouca utilidade. Em 1506 foram mortos milhares de judeus em Lisboa, o que é um facto iniludível. Mas esse facto deve ser enquadrado no contexto social da época. As mortes que se registaram em Lisboa há 500 anos não resultaram da pura maldade. Hão-de ter correspondido a quadros mentais, sociais e culturais devidamente inscritos nessa época histórica. Eventualmente, poderão ter correspondido até a interesses políticos e económicos. Na ausência de tal enquadramento, evocar a História traz poucos ou nenhuns benefícios do ponto de vista do conhecimento da mesma.
3 - Porque se trata de um "desafio". O uso do termo parece-me, de certa forma, uma manipulação. Por que é que me hei-de sentir desafiado a ir ao Rossio dia 19 de Abril? O Nuno Guerreiro não nos "convoca" nem nos "pede" para irmos ao Rossio. "Desafia-nos", e a utilização deste termo não me parece neutra. Um desafio pede que estejamos à sua altura. Eventualmente, que nos superemos. Nesta forma de pôr as coisas não se solicita uma aquiescência. Mais do que isso, solicita-se uma elevação moral. De "desafio" passamos facilmente a "dever" ou, no seu incumprimento, a "culpabilização". Em última análise, o apelo do Nuno Guerreiro remete mais para o domínio dos afectos do que para o domínio dos valores e da razão.
4 - Para finalizar, porque me faz sentir arregimentado, senão mesmo instrumentalizado. É uma consequência inevitável dos métodos utilizados neste "desafio". A iniciativa carece de justificações e de uma linguagem mais transparente. Sobra, por isso, bastante espaço para interpretações menos positivas sobre o intuito, sobre as finalidades não declaradas, de congregar tanta gente ao serviço não se sabe bem do quê.


Ainda melhor que o primeiro.

Friday, April 07, 2006

Aliás

A seu pedido, na campa de Marcel Duchamp ficou gravado:
"Aliás, são sempre os outros que morrem."

Wednesday, April 05, 2006


Marcel Duchamp, Nu descendo uma escada, 1912

Ornitologia para as massas

Todas as pessoas com árvores perto das suas janelas sabem que, às seis da manhã, a passarada merece toda uma morte tão rápida quanto possível.

Tuesday, April 04, 2006

Sendo verdade o que se passou na CM de Évora, e existe já uma decisão judicial a suportar esse cenário, não desfazendo no funcionário em causa, interessaria muito mais conhecer os nomes da chefe de secção e do vereador. Por uma questão higiénica.

Monday, April 03, 2006

A sorte continua a bafejar o Benfica no seu confronto com o Barcelona. Aumentaram exponencialmente as possibilidades de marcar golos fora.

Thursday, March 30, 2006

O CPE francês é um caso curioso. A justiça de uma medida que permite despedir sem justa causa é nula. A consequência mais nefasta, e perfeitamente identificável, é uma muito maior dependência (subserviência?) do trabalhador perante o empregador. A posição dos trabalhadores ao abrigo do CPE passa a ser de uma fragilidade constrangedora.
Evidentemente, argumenta-se que o mérito desempenha um papel importante neste enquadramento e que os bons profissionais nada devem temer. Mas é impossível não reconhecer que o empregador, assim, dispõe de um instrumento poderosíssimo, o qual pode exercer quase discricionariamente. Ora, o exercício discricionário do poder encaixa muito mal numa sociedade que se quer justa e democrática.

Tuesday, March 28, 2006

- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Tenho o carro ali no parque de estacionamento, como é que faço para deixar o hospital?
- Dá a volta, passa pelo edifício principal, continua, e sai pela casa mortuária.

Friday, March 24, 2006

"Estou muito desiludido com isto", disse o contabilista.

Thursday, March 23, 2006

Bonita Primavera.

No Ma-Scamba, José Pimentel Teixeira discorre sobre o futebol e as formas de estar na vida. Para os que pensam que o primeiro não terá muito que ver com as segundas.

Wednesday, March 22, 2006

Concordo inteiramente que não se comemore o 25 de Abril na Madeira. Não faz sentido comemorar algo que ainda está por cumprir, na sua plenitude, naquela ilha.

Por algum motivo, ainda indecifrável para mim, sinto uma estranha atracção pelas historietas dos pequenos logros.

O homem que me pediu dinheiro ontem, no Cais do Sodré, para apanhar o comboio para Cascais, continuava a estar lá hoje de manhã.

Tuesday, March 21, 2006

As pequenas melancolias dão-me para a eloquência.
As grandes melancolias remetem-me ao silêncio.


Marcel Duchamp, LHOOQ, 1919

Monday, March 20, 2006

Afinal Cavaco é de direita e rege-se exactamente pelos mesmos critérios aparelhistas que todos os outros? Estou chocadíssimo.

Deu-se pouca atenção aos números divulgados sobre a tuberculose em Portugal, que chegam a ser, nalguns casos, o triplo da média europeia. Algo que nos coloca, dizem, ao nível das estatísticas do terceiro mundo. Do pouco que se falou, acusou-se de ineficácia a política de combate à tuberculose, o que coloca em causa a prevenção e a educação para a saúde. Mas não será só isso. Está em causa muito mais que as políticas de saúde.
Os números da tuberculose neste país são também uma forte acusação à ineficácia das políticas de combate à pobreza e à toxicodependência, meios de excelência para a propagação da doença. As dificuldades em erradicar esta doença são as dificuldades de construir uma sociedade com coeficientes de exclusão social mais fracos. No fundo, a tuberculose é um indicador dos danos colaterais da estratégia de desenvolvimento económico escolhida para o país.

"Santana Lopes é o homem que recusa comprar o seu próprio carro usado."

A invasão do Iraque está a ser recordada n’A Sombra, pelo Rui Semblano. A acompanhar, para se saber com quantas vitórias se fez este fracasso.

Da série frases que impõem respeito

"Frases que impõem respeito."


Um grande ano para a indústria da seda.

Ainda carregados com as compras da semana, parámos na loja de animais com o objectivo de encontrar algo que a gata pudesse arranhar sem ser os sofás. Deram-nos duas alternativas. Uma era mais cara do que tudo o que tínhamos acabado de comprar, o que nos pareceu despropositado. A outra, apesar das cores berrantes que os gatos não vêem, era suficientemente modesta e acessível para cumprir o desígnio. Optámos por essa e colocámo-la na sala. A gata continua a preferir os sofás.

- Boa tarde.
- Bom dia.
- Bom dia!
- Boa tarde!

Friday, March 17, 2006

Do texto de opinião de António Vitorino, no DN de hoje, chamo a atenção para o seguinte parágrafo:

"Este debate [sobre as quotas] vai ser retomado agora entre nós. Haveremos de voltar ao tema, claro. Por ora, contudo, cumpre assinalar que é um debate relevante que não se esgota na feitura de uma lei e que para produzir os efeitos pretendidos exige uma visão integrada, que passa também pela sua projecção no plano da organização da sociedade, da repartição de responsabilidades na família, das redes de infra-estruturas sociais de apoio à maternidade e à infância, questões que afectam a vida de todas as mulheres e não apenas a daquelas que se querem dedicar à política."

Vitorino toca um ponto importante e que tem estado arredado das discussões mais recentes, sempre mais atentas às questões do mérito e da dignidade. Trata-se da divisão do trabalho familiar e, de uma forma mais abrangente, do lugar reservado para a mulher na sociedade em geral.
Por um momento, deixemos de lado as quotas como possível medida de correcção dos desequilíbrios registados e centremo-nos nos papéis tradicionalmente atribuídos à mulher e ao homem na nossa sociedade. Gastemos algum tempo a equacionar as representações dominantes, as tarefas reservadas a cada um e o tipo de recompensas e reconhecimento que lhes destinamos. Pensemos a nossa sociedade, então, em termos da sua capacidade para gerar paridade e igualdade de oportunidades. Depois de concluído este exercício, aí sim, voltemos a falar do mérito e da dignidade, se ainda parecer o mais relevante.

Wednesday, March 15, 2006

Por hipótese, a SONAE compra a PT e junta as duas operadoras móveis. Ao mesmo tempo, o BCP compra o BPI e transforma estas duas entidades, com posições já muito importantes no mercado, num gigante absoluto da banca. A concorrência vai de vento em popa por estes lados.

- Call me an ambulance.
- Ok. You’re an ambulance.

Tuesday, March 14, 2006

Como a Finlândia

José Sócrates gosta muito da Finlândia e quer muito que Portugal seja como a Finlândia. Choque tecnológico como a Finlândia, qualificação como a Finlândia e escolas-modelo como a Finlândia. A todo o momento espera-se que o primeiro-ministro venha explicar como é que vamos ter Segurança Social como a Finlândia para suportar a subida do desemprego como a Finlândia.

Num mundo perfeito as quotas não seriam necessárias. Num mundo perfeito não existiriam efeitos de distorção, nem discriminações, nem preconceitos. Mas, como sabemos, não vivemos num mundo perfeito.
As quotas fazem sentido porque os princípios de igualdade e de mérito se encontram deturpados. Não contrariam os fundamentos democráticos, antes tentam corrigir as insuficiências destes. Defender que os lugares devem ser ocupados por profissionais competentes tem tanto de consensual como de frase feita. Se a competência e o mérito fossem os únicos critérios, ou os mais importantes, para a mobilidade profissional e social, muito teríamos para ensinar ao resto do mundo. Mas o que se verifica é um desequilíbrio muito claro a favor do sexo masculino não só ao nível dos cargos ocupados como ao nível dos salários auferidos para o mesmo desempenho. Tal desequilíbrio, não tendo como justificativo razões demográficas nem de demérito, só se pode justificar por um machismo e uma misoginia muito enraizados na cultura portuguesa.
As quotas não são a solução ideal? É verdade, não são. Mas deixar as coisas como estão não pode ser a alternativa. Será assim tão difícil reconhecer que não vivemos no melhor dos mundos?

Thursday, March 09, 2006

Depois de uma noite para recordar, um dia para esquecer.

Wednesday, March 08, 2006


Fernand Léger, Duas Mulheres com Flores, 1954


Joan Miró, Mulher e Pássaro ao Luar, 1949


Pablo Picasso, Mulher com Cabelo Amarelo, 1931


Salvador Dalí, Rapariga à Janela, 1925


Robert Delaunay, Mulher Nua a Ler, 1915


Edvard Munch, Jovem Mulher na Costa, 1896


Henri Toulouse-Lautrec, No Moulin Rouge (Duas Mulheres Dançando a Valsa), 1892


Claude Monet, Mulher Sentada num Banco, 1874

Não é muito difícil acreditar que as urgências hospitalares atendem casos que, em rigor, não deveriam por lá passar. Da mesma forma, compreende-se bem que, se se dificultar o acesso às urgências, estas, em teoria, funcionarão com maior à-vontade. Ou, em alternativa, se a barreira de acesso que se introduz através do aumento das taxas moderadoras não resultar, sempre se vai aumentado a receita, o que vem a calhar nestes tempos de complicações orçamentais.

Isto é bastante transparente, mas igualmente claro é que existem outras soluções, de natureza estrutural, que permitem obter os resultados desejados com maior equidade social. Criar barreiras que passam pelo poder de compra só atinge quem não o tem. Trata-se de uma medida que atinge os que, já de si, terão menos possibilidades de zelar pela sua saúde em casa; e muito menos de recorrer aos seguros de saúde agora tão em voga.

Uma solução socialmente mais justa seria a aposta nos cuidados primários, ou seja, nos centros de saúde. Mas os centros de saúde não dispõem de instalações adequadas, nem dos equipamentos necessários para uma grande variedade de prestação de cuidados, nem de pessoal para os levar a cabo, nem cobrem satisfatoriamente as populações em termos da sua distribuição geográfica e do seu horário de funcionamento. O Ministério da Saúde sabe-o, tal como os utentes o sabem também. E é por isso que vão enchendo as urgências hospitalares com problemas de saúde que deveriam ser resolvidos a outro nível de actuação.

Mexer no funcionamento do SNS dá muito mais trabalho do que aumentar as taxas moderadoras. Compreende-se a opção. Compreende-se mas não se recomenda. Para mais, Correia de Campos é, seguramente, um dos maiores conhecedores do sector, pelo que sancionar esta solução releva mais da sua estratégia para o SNS e da sua visão sobre a justiça social e sobre o papel do Estado na prestação de cuidados de saúde do que da mera incompetência. Concomitantemente, é elucidativo sobre a sua visão do papel dos privados nos cuidados de saúde.

Cobrar por serviços que funcionam deficientemente é, no mínimo, uma opção muito discutível. Não beneficia o utente nem beneficia as unidades de saúde e os seus profissionais. Mas é mais fácil do que trabalhar para um SNS bem articulado e mais eficiente.

Tuesday, March 07, 2006

Inevitável. Era só uma questão de tempo.

Existe a tese, existe a antítese e existe a síntese. Aprendi isto nas aulas de Filosofia do mal afamado ensino secundário. Tem-me parecido útil ao longo dos anos.

Fala-se muito, por estes dias, em partir para a guerra. Saberão o que é estar nas duas pontas da espingarda?


Edward Hopper, The Lighthouse at Two Lights, 1929

Nunca percebi por que é que dizem que o Porto é uma cidade triste e feia. Mas também nunca percebi qual é a real vantagem de ter um comboio como o Alfa Pendular, que alcança uma velocidade máxima de 220 km/h, se depois, numa distância de sensivelmente 100 km, vai parar em três estações, e isto sem contar todas as outras vezes em que fica parado no meio do percurso sem razão aparente.
Eu não percebo muitas coisas.

Monday, February 27, 2006

Erving Goffman, sociólogo canadiano radicado nos EUA, ganhou notoriedade por ter sistematizado uma teoria da dramaturgia nas relações sociais. O comportamento em sociedade rege-se pelo desempenho de papéis, ou seja, por uma adequação da acção às expectativas sociais legítimas que as situações exigem.

O carnaval é todos os dias.

O carnaval, essa festa tão tipicamente portuguesa.

Thursday, February 23, 2006

O que propus com o post anterior foi que se começasse a discutir o que está efectivamente a ser feito e os resultados reais das medidas que têm como objectivo o controlo do défice e o crescimento da economia nacional. Propus também que se começasse a equacionar seriamente os eventuais benefícios colhidos com tais medidas. A minha visão é, então, que quando, por exemplo, os bancos registam aumentos de lucros nunca antes vistos, mas ao nível do cidadão médio o desemprego dispara e os salários reais estagnam, não se pode de forma alguma defender que os resultados alcançados sejam satisfatórios. Se os sacrifícios que supostamente trarão a redução do défice e a produtividade que faz crescer o PIB só estão a alimentar os grupos financeiros, quais são as vantagens que a população realmente retira? Ou, dito de uma forma mais dura, o que interessa que a economia crie riqueza se não só não houver distribuição dessa riqueza, como ela estiver a ser alcançada à custa dos que menos tême em favor dos que mais possuem?

A questão das causas do défice, sobre as quais não me debrucei, é outra história. Uma coisa está relacionada com a outra, claro, mas não deixam de ser dois temas distintos. Tanta ineficiência de funcionamento e dos gastos do Estado tem, forçosamente, de causar alguma perplexidade. O dinheiro que se gasta não se perde, não desaparece simplesmente. Acaba a entrar na contabilidade de alguém ou de alguma entidade. Todas as más práticas que geram despesismo acabam por beneficiar alguém, independentemente de haver ilícito ou não. Como é óbvio, o volume de dinheiro que o Estado movimenta provoca muito interesse e é natural que as adjudicações sejam amplamente cobiçadas. Esse facto é iniludível e deve representar uma preocupação primordial para a sociedade no seu todo.

Não ignoro que existem regimes de excepção a mais na administração pública, muitos dos quais beneficiam apenas os altos cargos. De uma forma geral, os regimes de excepção e as regalias concedidas sem qualquer justificação e/ou sentido de bom senso, sendo injustificados, devem terminar. Mas também não é provável que sejam estas regalias a causar o maior dano financeiro ao Estado. Causarão dano moral e de credibilidade, sem dúvida, mas, ao nível financeiro, as maiores perdas concentram-se certamente nas más adjudicações, nos contratos ruinosos, na gestão danosa e na má defesa do interesse público em favor dos interesses particulares.

A meu ver, é aqui que se torna mais necessária uma acção correctiva. O problema é que vigora a concepção da redução dos custos fixos, ou da despesa corrente, como forma máxima de controlo da despesa. A qual, apresentando resultados, está longe de ser a única forma de controlar a despesa. A diferença reside em quem é mais prejudicado com cada uma delas. Ao reduzir na massa salarial e nas responsabilidades sociais do Estado saem prejudicadas as classes médias e as classes baixas. Ao erradicar as más práticas de gestão, aos diversos níveis já referidos, saem prejudicados os grupos empresariais que têm no Estado uma fonte de rendimento inesgotável. E, por que não reconhecê-lo, saem prejudicados os clientelismos e os partidos políticos que lucram directa e indirectamente com o assalto aos cargos de poder, com o tráfico de influências, com a corrupção e com os financiamentos encapotados a que assim acedem. Surge, então, uma segunda dificuldade que é a de ser necessário reformular um sistema tendo de recorrer a um dos agentes – os partidos políticos – que beneficia com o actual panorama.

Não pretendo adoptar uma postura hiper-moralizadora, para a qual não tenho convicção nem feitio, tal como não pretendo acusar toda a classe política de ser corrupta ou, no mínimo, mal formada. Mas as evidências apontam para uma realidade na qual o sector público tem vindo a beneficiar, de forma recorrente e muito pouco clara, determinados grupos em detrimento da esmagadora maioria da população. Perante a ilegalidade, é de importância fundamental adoptar medidas que limitem as oportunidades para o ilícito, ao mesmo tempo que se deve encontrar e punir adequadamente os infractores. Mas, para isso, é necessário também um sistema judicial a funcionar ao seu melhor nível, o que dificilmente se pode dizer que tenha vindo a acontecer recentemente. Assim, mais uma vez, para completar este longo périplo, voltamos a deparar-nos com a ineficiência dos serviços do Estado como principal entrave à prossecução do bem público. E, mais uma vez, as coincidências são mais que suficientes para que a desconfiança se imponha.

É seguramente difícil manter um nível de motivação com a causa pública quando esta parece não reverter a favor dos que dela mais necessitam. Torna-se difícil manter um nível elevado de interesse pela política quando os seus agentes parecem mais preocupados com os seus pequenos jogos e com os seus interesses particulares do que com o bem público. Por estas razões, talvez mais do que nunca, é necessário que os ânimos não se abatam, que o desinteresse não vença e que se exija mais e melhor. Não para a pátria, noção bacoca e abstracta, dada a interpretações numéricas dúbias, mas para as pessoas que neste país habitam. Deve ser para elas que a economia deve laborar.

(texto com origem no comentário ao post anterior)

Wednesday, February 22, 2006

O desemprego real está quase nos 11%, o que representa, em termos absolutos, mais de 600 mil pessoas sem trabalho. Começa a ser incontornável que os debates sobre a redução do défice e o crescimento do PIB se passem a centrar na hipotética eficácia das medidas implementadas e no custo social que elas apresentam. Não só se deve questionar o mais que duvidoso sucesso dos planos anunciados, como se deve perguntar onde se está a cortar e quem está realmente a crescer. Porque, se a criação de riqueza que vai alimentar o crescimento do PIB é para ir parar exclusivamente aos cofres dos bancos e dos grupos financeiros do costume, são muito fracas as razões para continuar a sacrificar o país desta forma.

Tuesday, February 21, 2006

Em 1998 ou 1999 conheci um estudante sueco, Adam de seu nome, que se encontrava a passar uns meses um Portugal. Ambos partilhávamos a curiosidade pelas realidades alheias e passámos algum tempo a discutir as idiossincrasias de cada pátria. Inevitavelmente, tínhamos de chegar à forma como se conduz neste país. Dificilmente esquecerei a sua expressão de horror, observando os carros a circular na Av. 24 de Julho, enquanto me ia dizendo em inglês: “São todos loucos, loucos!”.

Segundo ele, uma das nossas curiosidades era o hábito de chegar à mesa do café e gabar o reduzido tempo que se tinha gasto na viagem. Coisa rara na Suécia. Por princípio, conhecendo-se a distância e velocidade máxima permitida no percurso, existe um tempo mínimo abaixo do qual não é possível efectuar a viagem

Por cá, já se sabe, respeitar os limites de velocidade é para mulheres (ainda assim, nem todas) e para velhinhos de boné. As façanhas do volante são tópico de conversa comum.
Praticamente toda a gente tem um episódio mirabolante do qual escapou por um triz, ou uma multa por ter circulado a 180 km/h na A1, ou por ter sido apanhado a ultrapassar em local proibido a caminho do Algarve. Histórias que são contadas com um sorriso nos lábios para entreter os convivas que rejubilam em sonoras gargalhadas. Ou dito de outra forma, a vergonha e o desconforto são sentimentos que dificilmente surgem associados a estes comportamentos. Muitos são os que desrespeitam as regras do trânsito, mas poucos – pouquíssimos – os que se envergonham disso. As regras de trânsito são uma abstracção que cada um relativiza à medida da sua conveniência. E a sociedade vai sancionando esse comportamento. De resto, nem poderia ser de outra forma, pois a relativização das regras enquadra-se com toda a perfeição no seu código cultural, na sua valorização da chico-espertice, do desenrasca, da solução de recurso e do amiguismo.

Daí que compadrios como os que agora se conhecem na Metro do Porto e na BragaParques não sejam de espantar. Os mecanismos são os mesmos. Gente que se ajuda mutuamente, que vampiriza os dinheiros do Estado, os subsídios da EU e tudo o mais a que se puder agarrar. Gente que, assim, de solução de recurso em solução de recurso, de chico-espertice em chico-espertice, se vai desenrascando. E o que é que se pode esperar do Estado e da sociedade? Nada. Rigorosamente nada. Do primeiro porque se encontra minado de testas-de-ferro, de representantes dos mais obscuros interesses, que se comprazem com o mau funcionamento da máquina fiscal e do sistema judicial. Da segunda porque, na sua maioria, no seu íntimo, até admira os que conseguem contornar o sistema, os que defraudam o Estado, essa entidade indefinida e longínqua que não sabe bem para o que serve.

Democracia é, aqui, mais que uma palavra vã. É um simulacro. Se fosse uma palavra vã, as pessoas, ainda que em surdina, queixar-se-iam da sua ausência. Sendo um simulacro, convencem-se que o que têm diante de si é a realidade, quando, de facto, da realidade nunca conheceram senão meros vislumbres. O país está a saque e não há, sequer, quem se envergonhe disso.

Monday, February 20, 2006

Cada vez me dão mais trabalho. O que quer dizer que acham que eu trabalho bem; ou que acham que trabalho pouco.

Por aqui trabalha-se. In case you’re wondering.

Tuesday, February 14, 2006

Declaração de interesses: este blogue é escrito por uma pessoa apaixonada.

O dia dos namorados coincide com o dia nacional do doente cardíaco. Faz sentido.

Monday, February 06, 2006

Nunca se deve subestimar a capacidade de racionalização do Homem quando se trata de invocar razões para se aniquilar.


Joan Miró, Paisagem, 1976

Antes de cair no chão, a neve é tão branca como as páginas deste blogue, quando penso nele. Havia de ter-me lembrado disto mais cedo.

Thursday, February 02, 2006

Portanto, a Constituição rejeita liminarmente todas as formas discriminatórias, mas remete para a lei no que toca à regulação dos requisitos do casamento. Por sua vez, esta discrimina, por omissão, em função da orientação sexual. Aos meus leigos olhos nestas matérias, parece que existe um pequeno problema.

Constituição da República Portuguesa

Artigo 12º
(Princípio da universalidade)

1. Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição.
(...)

Artigo 13º
(Princípio da igualdade)

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.
(...)

Artigo 36º
(Família, casamento e filiação)

1. Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.
2. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da sua dissolução, por morte ou divórcio, independentemente da forma de celebração.
(...)


Código Civil Português

Artigo 1576º
(Fontes das relações jurídicas familiares)

São fontes das relações jurídicas familiares o casamento, o parentesco, a afinidade e a adopção.

Artigo 1577º
(Noção de casamento)

Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.

Convencido pelo Rui Branco, lá fui conhecer a opinião de Pacheco Pereira sobre o casamento de homossexuais. Saí de lá com a sensação de ter estado a ler uma argumentação falaciosa. Não seria caso para me surpreender, mas uma vez que parece que a linha de pensamento de JPP está a merecer destaques variados, não resisto a repetir o que já comentei no Adufe. O que se invoca é o direito ao casamento homossexual e não o dever. Não se trata de conservadorismo mas de liberdade de opção. O que se pede é que os homossexuais sejam livres para se decidirem por um casamento civil, caso seja essa a sua vontade. Ninguém está a defender a instituição do casamento como modelo superior de relacionamento afectivo. Trata-se, simplesmente, de a tornar acessível a casais compostos por pessoas do mesmo sexo. O mais que não seja para acederem aos estatutos fiscais específicos que JPP não sabe que se podem encontrar no casamento mas não na união de facto.

A justiça é parte integrante e fundamental da democracia, mas não se pode confundir com esta. O sentido de justiça não é definido pelas maiorias. Por isso, quando o constitucionalista Rui Medeiros, citado pelo DN, afirma que «"a Constituição deve albergar aquilo que a comunidade no seu todo considera valores partilhados", ou seja, "a sensibilidade social" de um povo.», torna-se necessário precisar que as leis de uma sociedade, efectivamente, tendem a estruturar a "sensibilidade social de um povo", mas que isso não implica que o devam fazer.
A justiça não é pessoal nem particular. Toma a forma de lei para melhor garantir o seu postulado abstracto e impessoal. O sentido de justiça, sendo produto inquestionável da actividade social do ser humano, ultrapassa essa dimensão para se colocar acima das conveniências individuais ou de grupo, mesmo que traduzam a maioria das sensibilidades.

Wednesday, February 01, 2006

A propósito, 2006 é o Ano Europeu da Mobilidade dos Trabalhadores, iniciativa que pretende abranger tanto os aspectos relacionados com a mobilidade geográfica como com a mobilidade profissional.

Os empregos já não são para a vida. É como querem que nos habituemos a pensar e todos nos vamos habituando a pensar assim. O futuro dos trabalhadores e o futuro das empresas já não são coincidentes. Consequências da globalização, da incessante busca de vantagens competitivas e de redução dos custos fixos.
O que me escapa é, dando por garantido, então, que o futuro dos trabalhadores não faz parte das preocupações das empresas, como é que se quer que o futuro das empresas faça parte das preocupações dos trabalhadores? Ou seja, se o contributo destes últimos facilmente perde em influência perante as conjunturas económicas, se o emprego não apresenta qualquer factor de segurança, são poucas as razões que vinculam o trabalhador à propalada produtividade.
Fala-se muito no caso dos vínculos laborais praticamente indissolúveis, utilizando como exemplo maior a função pública, querendo com isso demonstrar como são prejudiciais para o desempenho dos serviços. Mas têm-se esquecido de equacionar a outra face do problema. Fazer perguntas ainda é a melhor forma de encontrar soluções. Pelo menos, sempre que não se tem as soluções definidas à partida.

Em termos de provincianismo não há como o que é promovido todos os dias, a partir das oito da noite, em qualquer canal de televisão. Consequentemente, os blogues não podem fugir muito aos traços do país em que se inscrevem.

Tuesday, January 31, 2006

Tanta agitação com a chegada dos mediáticos à blogosfera. E eu que pensava que a principal vantagem desta era, precisamente, ecoar a voz dos que não engrossam as colunas dos meios de comunicação social. Discute-se muito se o país está 15 anos atrasado, 25 anos atrasado, 50 anos atrasado... Por vezes parece que nunca deixámos verdadeiramente o feudalismo.

Durante o dia de hoje as temperaturas máximas vão subir, enquanto as mínimas permanecerão baixas. Isso quer dizer que o dia vai parecer menos desagradável, mas a noite vai manter o mesmo frio.

Monday, January 30, 2006

As conversas do dia rodaram todas à volta da neve ou do jogo. Se as segundas-feiras já não tinham fama de dias agradáveis, esta ganhou um lugar especial entre os dias tormentosos.

Há alguns anos, o Porto foi trucidado pelo Barcelona num jogo a contar para as competições europeias. Desse jogo recordo Ronald Koeman a avançar pelo meio campo do Porto sem encontrar oposição, a rematar na passada, ainda a uma distância muito considerável da baliza, e, depois, a trajectória da bola, cheia de força e colocação, até se aninhar no canto superior da baliza, fora do alcance de Baía. Se não fosse por mais nada, estaria eternamente grato a Koeman por esse golo magnífico.

Mas há mais para lhe agradecer. Para um adepto como eu, os últimos anos do Benfica têm sido penosos. Más direcções, maus jogadores e más exibições seguidos de más exibições, maus jogadores e más direcções. Os resultados eram sempre incertos, mesmo em casa ou contra equipas do fundo da tabela. O distanciamento emocional era o refúgio de sanidade para tanta desgraça reunida num clube só.

Mesmo o campeonato dos penalties ganho por Trappatoni teve um sabor amargo. Saber que a história há-de registar que o fim do jejum se deu quando aos comandos do clube se encontrava a dupla Vieira/Veiga é algo que só pode custar a quem gosta do clube e acha que este merecia mais nessa sua hora de glória.

Mas, esta época, Koeman, com todas as limitações que já demonstrou como treinador, conseguiu acrescentar algo ao Benfica. O ex-jogador do Barcelona pôs a equipa a praticar um futebol muitas vezes agradável e deu rendimento a jogadores que se tinham eclipsado. Não desbaratou o capital de fé dos adeptos herdado de Trappatoni, mantém a equipa a lutar pelo título e alcançou mesmo alguns resultados vistosos.

Com essa mistura de resultados e exibições, Koeman devolveu-me o prazer de acreditar que o jogo em casa contra o Sporting seria um passeio no parque. A vitória era certa e a goleada não estava fora de questão. A verdade foi outra. O Benfica jogou muito mal, levou três em casa e perdeu justamente o jogo, o que me fez sofrer amargamente durante os noventa minutos do desafio e mais alguns após. Por esse sofrimento típico de quem esperava precisamente o oposto, estou-lhe muito grato. Sim, tenho que lhe agradecer a alegria do renascer da ilusão.

Ontem, pela primeira vez em meio século, nevou em Lisboa. Nevou bastante, como se pode confirmar pelas imagens na televisão. Aliás, as imagens televisivas foram o único meio através do qual eu pude ver a neve em Lisboa, uma vez que tinha saído da cidade. Ainda não sei muito bem como, mas este desencontro vai repercutir-se na minha vida de alguma forma.

Correio dos leitores:

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Monday, January 23, 2006

"Habituem-se", lá disse o outro.

"Eu lembro-me bem", disse o eleitor derrotado para justificar não votar em Cavaco.

Primeiro-ministrozinho.

Tuesday, January 17, 2006

Os que sempre foram contra a intervenção militar no Iraque foram muitas vezes apelidados de anti-americanos primários e acusados de comprometerem, com o seu pacifismo, como então se dizia, os nossos valores civilizacionais. Não faltou, nesses dias e daí para diante, quem tenha continuado a defender a política externa dos EUA, nomeadamente as vantagens do militarismo. Entre os que apadrinham esta linha de acção contam-se bons ideólogos, pelo que não é de estranhar que a tarefa de ordenar o discurso oficial tenha sido levada a cabo com cuidado. Palavras como terrorismo, guerra e liberdade têm sido incansavelmente repetidas. O objectivo é óbvio e as conotações são claras. Por um lado, numa guerra existem sempre os nossos e os deles, o que foi enfatizado praticamente desde o 11 de Setembro. Existiu e continua a existir uma tentativa de redução da realidade a dois campos perfeitamente distintos e antagónicos. Por outro lado, ao bramir palavras como terrorismo e liberdade colocam-se em cima da mesa opções perante valores morais amplamente consensuais nas nossas sociedades. Quem gostaria de ver-se automaticamente identificado com organizações terroristas ou como inimigo da liberdade? Estas concepções reforçam-se mutuamente e tendem a criar uma bipolarização que não tem outra finalidade que não seja a de obter apoio, quer seja popular quer seja político, para a prossecução do intervencionismo militar.

Entretanto, têm-se sucedido revelações sobre episódios que são tudo menos dignos na actuação militar no Iraque, assim como uma regressão nas liberdades, direitos e garantias dos cidadãos soba alçada do governo dos EUA. Ilustram estes casos os abusos perpetrados em Abu Grahib, a situação dos prisioneiros em Guantanamo, a existência de prisões secretas em solo europeu e, mais recentemente, a revelação de escutas telefónicas conduzidas sem autorização judicial. Qualquer uma destas situações prefigura um abuso cometido em nome da luta contra os abusos. O paradoxo é evidente.

Fazendo vista grossa a este paradoxo, mesmo perante as claríssimas faltas à verdade que serviram de justificação à guerra e os conhecidos abusos subsequentes, existe ainda quem se mantenha fiel a tal linha de actuação. Argumentam, até, que as críticas ajudam os interesses do terrorismo e associam a compreensão do fenómeno com a sua justificação. Ora, compreender não é justificar. Criticar um dos lados não implica necessariamente uma identificação com o outro. Censurar Hiroshima, Nagasaki e Dresden não pode ser considerado como uma defesa do que a Alemanha ou o Japão fizeram durante a Segunda Grande Guerra. Pelo contrário, é porque se criticam os bombardeamentos que tinham como único alvo a população alemã e japonesa que se pode igualmente criticar os sofrimentos infligidos pelos seus respectivos regimes aos povos ocupados nesse período. A moralidade não se pode reduzir aos lados de uma contenda mas sim aos actos por eles praticados. Evidentemente, o mesmo raciocínio aplica-se ao que se passa agora no Iraque, em Guantanamo ou nos EUA. É precisamente porque criticamos todas as mentiras e todos os abusos que têm sido cometidos que podemos indignar-nos com os atentados em Nova Iorque, Madrid e Londres, mas também com os que ocorreram e ocorrem em Israel, na Indonésia, no Iraque ou em qualquer outro lugar. A rejeição da violência, dos fundamentalismos e dos totalitarismos, para ser peremptória e inequívoca, tem de começar dentro das nossas fronteiras. Se optamos por abdicar das liberdades que alcançámos, afinal o que estamos a defender?

Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
...

Tuesday, January 10, 2006

Corram aos PPRs!

Um dia, não há muito tempo, perguntaram-me se eu praticava uma auto-censura no blogue. Não me recordo se enfatizei suficientemente a resposta afirmativa.


Vincent van Gogh, Campo de Trigo com Ciprestes, 1889

Monday, January 09, 2006

Num daqueles programas idiotas sobre celebridades, a locutora, num tom jovial mas convicto, afirma que Kate Hudson tem uma personalidade e uma presença tão intensas que quase nos esquecemos de como é bonita.

Estes programas, perfeitamente idiotas – nunca é demais repeti-lo –, têm, no entanto, uma vantagem. Neles, os valores dominantes que o cinema e a televisão veiculam incessantemente encontram-se hipertrofiados, sendo, por isso, mais fáceis de detectar.
Um quadrilátero que tem como vértices o aspecto físico, o dinheiro, a moda e a conformação/correspondência com o sistema vigente.

Não há lugar para excepções à regra. Mas como todas as regras admitem excepções, o sistema encarrega-se de as proporcionar, para que o todo mantenha a sua aparência. Todas as excepções são meros simulacros fabricados pelo sistema, que aproveita para definir também o que é admissível como excepção. Os que se situam objectivamente à margem deste sistema não participam nele. Nunca os chegamos a conhecer. Mais do que esquecidos, foram sentenciados à inexistência.

Saturday, January 07, 2006

Se se passar tempo suficiente a observar a marcha dos segundos num qualquer relógio, é praticamente inevitável que não sobrevenha, pelo menos, uma profunda melancolia.

Thursday, January 05, 2006

"A vida do passado no presente conhece, para além das modalidades da testemunha e do historiador, a do comemorador. Tal como a testemunha, o comemorador é movido sobretudo pelo interesse; mas, como o historiador, produz o seu discurso no espaço público e apresenta-o como estando dotado de uma verdade irrefutável, longe da fragilidade do testemunho pessoal. No seu caso, fala-se por vezes de 'memória colectiva', embora essa designação, como observou por diversas vezes Alfred Grosser, seja embaraçante: a memória, no sentido dos vestígios mnésicos, é sempre e exclusivamente individual; a memória colectiva não é uma memória mas um discurso que evolui no espaço público. Esse discurso reflecte a imagem que uma sociedade ou um grupo no seio de uma sociedade pretende dar de si mesmo."

Tzvetan Todorov, Memória do Mal, Tentação do Bem

Wednesday, January 04, 2006

Um dia, no futuro, Manuela Ferreira Leite vai voltar a candidatar-se a um cargo político qualquer. Toda a gente há-de encher a boca para louvar o rigor das suas medidas para suster o défice e poupar às gerações vindouras o pagamento das facturas do presente. Funciona assim a memória colectiva.

Katharine Clifton: My darling, I'm waiting for you — how long is a day in the dark, or a week? The fire is gone now, and I'm horribly cold. I really ought to drag myself outside but then there would be the sun. I'm afraid I waste the light on the paintings and on writing these words...
We die, we die rich with lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies we have entered and swum up like rivers, fears we have hidden in, like this wretched cave...
I want all this marked on my body. We are the real countries, not the boundaries drawn on maps with the names of powerful men. I know you will come and carry me out into the palace of winds. That's all I've wanted — to walk in such a place with you, with friends, on an earth without maps. The lamp has gone now and I’m writing in the darkness.

Não tenho nada para dizer que não possa esperar.

Friday, December 30, 2005

Nas cartas à mulher, Lobo Antunes vai repetindo (pelo menos nas primeiras cartas, mas acredito que o tom seja igual no livro todo) uma expressão curiosa. "Gosto tudo de ti", escreve ele, às vezes no término das missivas, às vezes pelo meio, como quem não quer perder nenhuma oportunidade de confessar o seu amor.
Lobo Antunes não escreveu "Gosto de tudo em ti" e, portanto, não é assim que eu o leio. O que ele escreve é um absoluto, uma plenitude. Gosta tudo o que se pode gostar de uma pessoa. Mero recurso de estilo ou algo mais? Está Lobo Antunes realmente convencido que atingiu o estado máximo do amor, e, portanto, também a sua finitude?

Thursday, December 29, 2005

O casal discute à porta do prédio. Ele, notoriamente preocupado, explica-se; ela vai ripostando enquanto a desilusão lhe cresce nos olhos. Falam uma língua estranha e é impossível decifrar uma única palavra do que dizem. O que, de resto, é perfeitamente desnecessário para compreender o que se passa.

Wednesday, December 28, 2005

Na sequência da comparação estatística entre Portugal e Espanha, gostaria que ficasse claro que, apesar de ter mudado de blogue, mantenho a mesma opinião.

Tuesday, December 27, 2005

Um dos noticiários de fim-de-semana revelou que este Natal se venderam muito bem televisores que custam milhares de euros. Ou é a retoma que aí vem, ou o país cansou-se de esperar e decidiu abrir os braços, e os bolsos, à alienação.