Wednesday, April 26, 2006

"Eu até gosto muito da rapariga. É asseadinha e boa dona de casa.", disse o tipo a quem o namoro não está a correr bem.

Monday, April 24, 2006

Desde pouco depois das nove da manhã, tenho estado, sem sucesso, a tentar publicar. Passo tanto tempo longe do blogue que ele decidiu começar a fazer-se difícil.


Marc Chagall, O Casamento Russo, 1909

O problema de escrever sozinho num blogue é que, quando se dedica a maior parte do tempo que se tem ao que está para além do blogue – aquilo que se costuma chamar vida privada –, os textos ficam para aqui a envelhecer. Geralmente envelhecem mal, como o texto anterior, demasiado amargo para ocupar o prime spot bloguista durante tanto tempo.
Mais do que isso, fica-se condenado, na melhor das hipóteses, a falar dos acontecimentos da semana passada, senão mesmo a perdê-los de todo. Assim seja. Já uma vez dei demasiada importância à blogosfera e o resultado não foi muito bom. Afinal, como alguém disse, isto é só um blogue.

Monday, April 17, 2006

"Quando pedi aos meus leitores que fossem ao Rossio para lembrar simbolicamente as quatro mil vítimas do massacre de 19, 20 e 21 de Abril de 1506, nos dias em que passam 500 anos sobre o acontecimento – de forma absolutamente voluntária e desprovida de uma qualquer estrutura ou 'organização' (...).

(...)

A iniciativa que propus aos meus leitores, pelo menos para mim, sempre foi simples e translúcida: um gesto simbólico e individual, desprovido de qualquer carácter oficial ou de estrutura (religiosa ou política), propositadamente sem uma organização definida. Ninguém é obrigado a acender uma vela, tal como ninguém é obrigado a ler o blog. O desafio, para mim, era um desafio à memória."


Os primeiros dois parágrafos pertencem ao Nuno Guerreiro, que vem assim responder à discussão suscitada pelo Lutz. Meia dúzia de linhas como estas, ou ainda menos, a enquadrar o desafio que foi lançado na Rua da Judiaria e não só o post do Lutz não teria, com toda a certeza, sido sequer cogitado, como muito menos se teria dado a discussão que entretanto viu a luz do dia.

O Nuno Guerreiro, para concluir o seu texto, cita ainda o Francisco José Viegas:

"Não estou na disposição de discutir com ninguém a ideia de eu acender uma vela em homenagem às vítimas do Pogrom de 1506 e da Inquisição portuguesa. Eu vou. Não obrigo ninguém a ir. Não exijo que ninguém vá. Pedi a alguns amigos que me acompanhassem. A minha decisão é puramente individual, e quando escrevo «nós vamos» refiro-me aos que vão e querem ir. Portanto, não estou disposto a discutir aquilo que a minha liberdade individual e as minhas opções e crenças me levam a fazer.
Aliás, não entendo nem a natureza da discussão nem o seu objectivo."


A isto eu contraporia que quando alguém diz "eu vou", não obriga ninguém a ir. É a sua liberdade individual, a sua opção, a sua crença, nada a dizer. Mas quando alguém diz "vem comigo", eu sinto-me autorizado a perguntar "porquê". Sinto-me autorizado a pensar sobre isso, a exercer, também, a minha liberdade individual, a minha opção, a minha crença. Isto parece-me tão cristalino quanto me surgem agora as intenções do Nuno Guerreiro. Que ele se sinta triste, até ofendido, com o muito que se escreveu entretanto, é inteiramente compreensível. Que ele coloque o debate que se tem verificado entre aspas, muito sinceramente, é outra conversa diferente, e uma enorme injustiça para muitas pessoas que intervieram com toda a propriedade e sentiram a troca de pontos de vista, o mais que não seja, como um exercício de esclarecimento individual.

Este assunto, para mim, está encerrado.

Novos desafios da imprensa de referência

Na sexta-feira santa, o Público chamava à capa as recentes traduções de evangelhos gnósticos. Interrogava-se o diário se a traição de Judas faria parte do plano de Deus. Assim, de repente, pareceu-me uma pergunta bastante ambiciosa para ser colocada por um jornal.

Thursday, April 13, 2006

Eu percebo que, vamos lá, de vez em quando, a vontade de trabalhar abrande e se arranje uma desculpa para disfarçar o absentismo. Eu também percebo que exista quem tenha realmente o que fazer e, num ou noutro dia, não possa estar presente. O que eu definitivamente não percebo é que, nas máquinas densas que são os partidos políticos, não exista ninguém com a responsabilidade de exercer um pequeno controlo sobre os grupos parlamentares e toque a rebate quando a vergonha se anuncia; ou, existindo, que cumpra tão mal a sua função.

Conclusão lógica

1 - Quem tem um blogue passa muito tempo na internet.
2 - Passar muito tempo na internet passou a ser pecado.
3 - ____________________________________

Tuesday, April 11, 2006

Ainda na sequência da discussão em torno da iniciativa do Nuno Guerreiro, a Helena, no Dedos de Conversa, e a Ana Cláudia Vicente, n’O Amigo do Povo, levantam um tópico paralelo e bastante relevante: perante o receio da instrumentalização, a desconfiança facilmente se converte em paralisia ou em alienação das formas de associação.

Com efeito, existe um certo receio, da parte de quem reconhece os processos de manipulação como fenómeno indiscutível das sociedades actuais, de se ver por eles usado. Esse facto tende a gerar o cultivo da desconfiança como forma dominante de observação do real. Por exemplo, o afastamento entre a população e a política não é alheio a este fenómeno e qualquer análise decente deverá tê-lo em conta. No fundo, estamos perante um instrumento de defesa do indivíduo, mas cujas implicações devem igualmente ser consideradas.

Se um radicalismo dos que se escudam de tais processos manipulatórios é pouco recomendável do ponto de vista da sociabilidade e da solidez dos laços, não deixa de ser também evidente que o problema principal é menos a estratégia de defesa do que a ameaça que a faz surgir. Isto é, as críticas que se possam lançar ao imobilismo que esvazia os movimentos sociais têm necessariamente de ser compensadas, por uma questão de rigor, com a denúncia dos processos de manipulação que grassam nas sociedades contemporâneas. Denunciando estes últimos e criando mecanismos de defesa adequados contribuímos, desde logo, para a diminuição do individualismo exacerbado que deles deriva. Mais do que isso, como é óbvio, fortalecemos os princípios democráticos de liberdade de informação e de liberdade de escolha.

A manipulação afecta negativamente os fundamentos democráticos da liberdade e autonomia do indivíduo, assim como afecta, mais a jusante, através das reacções de defesa que pode gerar, a forma de relacionamento em sociedade. Os mecanismos de defesa terão de ser muito bem (re)equacionados, de forma a garantir que não estamos a corrigir um mal com outro. Mas que, nesse desígnio, não se esqueça que não é somente um problema que está em questão, mas sim dois, e que existe uma relação causal entre eles à qual não podemos ficar indiferentes.

Meias-verdades, conclusões que não derivam logicamente das premissas estabelecidas na argumentação que as antecede e um chorrilho interminável de preconceitos e estereótipos sobre o que são os “típicos” italianos.

Que justificação existe para que a indigência intelectual de Luís Delgado continue a ter direito a espaço num dos diários nacionais de referência, ou que mereça assento em painéis de convidados de programas de rádio e televisão?

Monday, April 10, 2006

Quatro razões para não ir

O Nuno Guerreiro tem vindo a desafiar os seus leitores a deslocarem-se ao Rossio, dia 19 de Abril, para acenderem uma vela em memória das vítimas do massacre de 1506. O Lutz, no Quase em Português, pergunta-se pelos argumentos dos que se incomodam com esta proposta. Conto-me entre esse número e acredito, tal como o Lutz, que uma discussão aberta pode ser mais benéfica do que umas centenas ou uns milhares de pessoas no Rossio.

Assim, os quatro pontos que mais me incomodam são os seguintes:

1 - A proposta do Nuno Guerreiro surge desprovida de outra contextualização que não seja a evocação do acontecimento e, quando assim é, existem certamente outras contextualizações implícitas que não estão a ser divulgadas. Falta, como o Lutz muito bem notou, saber "em nome de quem, dirigido a quem e para quê".
2 - De forma concomitante, evocar a história sem procurar compreendê-la é uma acção de pouca utilidade. Em 1506 foram mortos milhares de judeus em Lisboa, o que é um facto iniludível. Mas esse facto deve ser enquadrado no contexto social da época. As mortes que se registaram em Lisboa há 500 anos não resultaram da pura maldade. Hão-de ter correspondido a quadros mentais, sociais e culturais devidamente inscritos nessa época histórica. Eventualmente, poderão ter correspondido até a interesses políticos e económicos. Na ausência de tal enquadramento, evocar a História traz poucos ou nenhuns benefícios do ponto de vista do conhecimento da mesma.
3 - Porque se trata de um "desafio". O uso do termo parece-me, de certa forma, uma manipulação. Por que é que me hei-de sentir desafiado a ir ao Rossio dia 19 de Abril? O Nuno Guerreiro não nos "convoca" nem nos "pede" para irmos ao Rossio. "Desafia-nos", e a utilização deste termo não me parece neutra. Um desafio pede que estejamos à sua altura. Eventualmente, que nos superemos. Nesta forma de pôr as coisas não se solicita uma aquiescência. Mais do que isso, solicita-se uma elevação moral. De "desafio" passamos facilmente a "dever" ou, no seu incumprimento, a "culpabilização". Em última análise, o apelo do Nuno Guerreiro remete mais para o domínio dos afectos do que para o domínio dos valores e da razão.
4 - Para finalizar, porque me faz sentir arregimentado, senão mesmo instrumentalizado. É uma consequência inevitável dos métodos utilizados neste "desafio". A iniciativa carece de justificações e de uma linguagem mais transparente. Sobra, por isso, bastante espaço para interpretações menos positivas sobre o intuito, sobre as finalidades não declaradas, de congregar tanta gente ao serviço não se sabe bem do quê.


Ainda melhor que o primeiro.

Friday, April 07, 2006

Aliás

A seu pedido, na campa de Marcel Duchamp ficou gravado:
"Aliás, são sempre os outros que morrem."

Wednesday, April 05, 2006


Marcel Duchamp, Nu descendo uma escada, 1912

Ornitologia para as massas

Todas as pessoas com árvores perto das suas janelas sabem que, às seis da manhã, a passarada merece toda uma morte tão rápida quanto possível.

Tuesday, April 04, 2006

Sendo verdade o que se passou na CM de Évora, e existe já uma decisão judicial a suportar esse cenário, não desfazendo no funcionário em causa, interessaria muito mais conhecer os nomes da chefe de secção e do vereador. Por uma questão higiénica.

Monday, April 03, 2006

A sorte continua a bafejar o Benfica no seu confronto com o Barcelona. Aumentaram exponencialmente as possibilidades de marcar golos fora.

Thursday, March 30, 2006

O CPE francês é um caso curioso. A justiça de uma medida que permite despedir sem justa causa é nula. A consequência mais nefasta, e perfeitamente identificável, é uma muito maior dependência (subserviência?) do trabalhador perante o empregador. A posição dos trabalhadores ao abrigo do CPE passa a ser de uma fragilidade constrangedora.
Evidentemente, argumenta-se que o mérito desempenha um papel importante neste enquadramento e que os bons profissionais nada devem temer. Mas é impossível não reconhecer que o empregador, assim, dispõe de um instrumento poderosíssimo, o qual pode exercer quase discricionariamente. Ora, o exercício discricionário do poder encaixa muito mal numa sociedade que se quer justa e democrática.

Tuesday, March 28, 2006

- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Tenho o carro ali no parque de estacionamento, como é que faço para deixar o hospital?
- Dá a volta, passa pelo edifício principal, continua, e sai pela casa mortuária.