Monday, January 30, 2006

Ontem, pela primeira vez em meio século, nevou em Lisboa. Nevou bastante, como se pode confirmar pelas imagens na televisão. Aliás, as imagens televisivas foram o único meio através do qual eu pude ver a neve em Lisboa, uma vez que tinha saído da cidade. Ainda não sei muito bem como, mas este desencontro vai repercutir-se na minha vida de alguma forma.

Correio dos leitores:

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Monday, January 23, 2006

"Habituem-se", lá disse o outro.

"Eu lembro-me bem", disse o eleitor derrotado para justificar não votar em Cavaco.

Primeiro-ministrozinho.

Tuesday, January 17, 2006

Os que sempre foram contra a intervenção militar no Iraque foram muitas vezes apelidados de anti-americanos primários e acusados de comprometerem, com o seu pacifismo, como então se dizia, os nossos valores civilizacionais. Não faltou, nesses dias e daí para diante, quem tenha continuado a defender a política externa dos EUA, nomeadamente as vantagens do militarismo. Entre os que apadrinham esta linha de acção contam-se bons ideólogos, pelo que não é de estranhar que a tarefa de ordenar o discurso oficial tenha sido levada a cabo com cuidado. Palavras como terrorismo, guerra e liberdade têm sido incansavelmente repetidas. O objectivo é óbvio e as conotações são claras. Por um lado, numa guerra existem sempre os nossos e os deles, o que foi enfatizado praticamente desde o 11 de Setembro. Existiu e continua a existir uma tentativa de redução da realidade a dois campos perfeitamente distintos e antagónicos. Por outro lado, ao bramir palavras como terrorismo e liberdade colocam-se em cima da mesa opções perante valores morais amplamente consensuais nas nossas sociedades. Quem gostaria de ver-se automaticamente identificado com organizações terroristas ou como inimigo da liberdade? Estas concepções reforçam-se mutuamente e tendem a criar uma bipolarização que não tem outra finalidade que não seja a de obter apoio, quer seja popular quer seja político, para a prossecução do intervencionismo militar.

Entretanto, têm-se sucedido revelações sobre episódios que são tudo menos dignos na actuação militar no Iraque, assim como uma regressão nas liberdades, direitos e garantias dos cidadãos soba alçada do governo dos EUA. Ilustram estes casos os abusos perpetrados em Abu Grahib, a situação dos prisioneiros em Guantanamo, a existência de prisões secretas em solo europeu e, mais recentemente, a revelação de escutas telefónicas conduzidas sem autorização judicial. Qualquer uma destas situações prefigura um abuso cometido em nome da luta contra os abusos. O paradoxo é evidente.

Fazendo vista grossa a este paradoxo, mesmo perante as claríssimas faltas à verdade que serviram de justificação à guerra e os conhecidos abusos subsequentes, existe ainda quem se mantenha fiel a tal linha de actuação. Argumentam, até, que as críticas ajudam os interesses do terrorismo e associam a compreensão do fenómeno com a sua justificação. Ora, compreender não é justificar. Criticar um dos lados não implica necessariamente uma identificação com o outro. Censurar Hiroshima, Nagasaki e Dresden não pode ser considerado como uma defesa do que a Alemanha ou o Japão fizeram durante a Segunda Grande Guerra. Pelo contrário, é porque se criticam os bombardeamentos que tinham como único alvo a população alemã e japonesa que se pode igualmente criticar os sofrimentos infligidos pelos seus respectivos regimes aos povos ocupados nesse período. A moralidade não se pode reduzir aos lados de uma contenda mas sim aos actos por eles praticados. Evidentemente, o mesmo raciocínio aplica-se ao que se passa agora no Iraque, em Guantanamo ou nos EUA. É precisamente porque criticamos todas as mentiras e todos os abusos que têm sido cometidos que podemos indignar-nos com os atentados em Nova Iorque, Madrid e Londres, mas também com os que ocorreram e ocorrem em Israel, na Indonésia, no Iraque ou em qualquer outro lugar. A rejeição da violência, dos fundamentalismos e dos totalitarismos, para ser peremptória e inequívoca, tem de começar dentro das nossas fronteiras. Se optamos por abdicar das liberdades que alcançámos, afinal o que estamos a defender?

Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
Não adormeças em frente ao computador.
...

Tuesday, January 10, 2006

Corram aos PPRs!

Um dia, não há muito tempo, perguntaram-me se eu praticava uma auto-censura no blogue. Não me recordo se enfatizei suficientemente a resposta afirmativa.


Vincent van Gogh, Campo de Trigo com Ciprestes, 1889

Monday, January 09, 2006

Num daqueles programas idiotas sobre celebridades, a locutora, num tom jovial mas convicto, afirma que Kate Hudson tem uma personalidade e uma presença tão intensas que quase nos esquecemos de como é bonita.

Estes programas, perfeitamente idiotas – nunca é demais repeti-lo –, têm, no entanto, uma vantagem. Neles, os valores dominantes que o cinema e a televisão veiculam incessantemente encontram-se hipertrofiados, sendo, por isso, mais fáceis de detectar.
Um quadrilátero que tem como vértices o aspecto físico, o dinheiro, a moda e a conformação/correspondência com o sistema vigente.

Não há lugar para excepções à regra. Mas como todas as regras admitem excepções, o sistema encarrega-se de as proporcionar, para que o todo mantenha a sua aparência. Todas as excepções são meros simulacros fabricados pelo sistema, que aproveita para definir também o que é admissível como excepção. Os que se situam objectivamente à margem deste sistema não participam nele. Nunca os chegamos a conhecer. Mais do que esquecidos, foram sentenciados à inexistência.

Saturday, January 07, 2006

Se se passar tempo suficiente a observar a marcha dos segundos num qualquer relógio, é praticamente inevitável que não sobrevenha, pelo menos, uma profunda melancolia.

Thursday, January 05, 2006

"A vida do passado no presente conhece, para além das modalidades da testemunha e do historiador, a do comemorador. Tal como a testemunha, o comemorador é movido sobretudo pelo interesse; mas, como o historiador, produz o seu discurso no espaço público e apresenta-o como estando dotado de uma verdade irrefutável, longe da fragilidade do testemunho pessoal. No seu caso, fala-se por vezes de 'memória colectiva', embora essa designação, como observou por diversas vezes Alfred Grosser, seja embaraçante: a memória, no sentido dos vestígios mnésicos, é sempre e exclusivamente individual; a memória colectiva não é uma memória mas um discurso que evolui no espaço público. Esse discurso reflecte a imagem que uma sociedade ou um grupo no seio de uma sociedade pretende dar de si mesmo."

Tzvetan Todorov, Memória do Mal, Tentação do Bem

Wednesday, January 04, 2006

Um dia, no futuro, Manuela Ferreira Leite vai voltar a candidatar-se a um cargo político qualquer. Toda a gente há-de encher a boca para louvar o rigor das suas medidas para suster o défice e poupar às gerações vindouras o pagamento das facturas do presente. Funciona assim a memória colectiva.

Katharine Clifton: My darling, I'm waiting for you — how long is a day in the dark, or a week? The fire is gone now, and I'm horribly cold. I really ought to drag myself outside but then there would be the sun. I'm afraid I waste the light on the paintings and on writing these words...
We die, we die rich with lovers and tribes, tastes we have swallowed, bodies we have entered and swum up like rivers, fears we have hidden in, like this wretched cave...
I want all this marked on my body. We are the real countries, not the boundaries drawn on maps with the names of powerful men. I know you will come and carry me out into the palace of winds. That's all I've wanted — to walk in such a place with you, with friends, on an earth without maps. The lamp has gone now and I’m writing in the darkness.

Não tenho nada para dizer que não possa esperar.

Friday, December 30, 2005

Nas cartas à mulher, Lobo Antunes vai repetindo (pelo menos nas primeiras cartas, mas acredito que o tom seja igual no livro todo) uma expressão curiosa. "Gosto tudo de ti", escreve ele, às vezes no término das missivas, às vezes pelo meio, como quem não quer perder nenhuma oportunidade de confessar o seu amor.
Lobo Antunes não escreveu "Gosto de tudo em ti" e, portanto, não é assim que eu o leio. O que ele escreve é um absoluto, uma plenitude. Gosta tudo o que se pode gostar de uma pessoa. Mero recurso de estilo ou algo mais? Está Lobo Antunes realmente convencido que atingiu o estado máximo do amor, e, portanto, também a sua finitude?

Thursday, December 29, 2005

O casal discute à porta do prédio. Ele, notoriamente preocupado, explica-se; ela vai ripostando enquanto a desilusão lhe cresce nos olhos. Falam uma língua estranha e é impossível decifrar uma única palavra do que dizem. O que, de resto, é perfeitamente desnecessário para compreender o que se passa.

Wednesday, December 28, 2005

Na sequência da comparação estatística entre Portugal e Espanha, gostaria que ficasse claro que, apesar de ter mudado de blogue, mantenho a mesma opinião.

Tuesday, December 27, 2005

Um dos noticiários de fim-de-semana revelou que este Natal se venderam muito bem televisores que custam milhares de euros. Ou é a retoma que aí vem, ou o país cansou-se de esperar e decidiu abrir os braços, e os bolsos, à alienação.