É extremamente difícil traçar a linha da liberdade de acção do indivíduo. As nossas acções sofrem constrangimentos sociais que as condicionam, mas, em última análise, dependem em boa medida da nossa vontade de as concretizar. Todos crescemos num qualquer meio social onde interiorizamos normas pelas quais passamos a pautar a nossa vida. Mais ainda, o que interiorizamos neste processo não são somente normas, são "as normas". Obviamente, num ou noutro momento da nossa vida acabamos por perceber que as normas que interiorizámos são apenas um dos conjuntos de um leque bastante mais alargado. Nessa altura podemos reequacionar o nosso posicionamento em relação às normas pelas quais nos regemos, podemos tomar opções, alterar o nosso sistema de referência ou aprofundar as nossas convicções. Estamos sempre a tempo de o fazer. O social é uma construção e, como tal, está permanentemente aberto a mudanças.
Mas uma das insuficiências em que as ciências sociais caem frequentemente é esquecerem-se que a realidade do ser humano não se esgota no social. De alguma forma que, verdade seja dita, não cabe às ciências sociais explicar, o meio social interage com a biologia do ser humano. Em Portugal, ao contrário do que acontece, por exemplo, na China, não se comem cães. Acredito que a maior parte da população não esteja disposta a quebrar esta regra de ânimo leve. E que, levada a fazê-lo, sentiria uma genuína repugnância pelo acto. Por outro lado, uma lesma de aspecto repelente como o caracol consta do cardápio de inúmeros cafés. Com bastante sucesso, acrescente-se.
A capacidade racional e o livre arbítrio do ser humano são, por vezes, sobrestimados. Existem, é um facto, mas condicionados por vários factores, dos quais as ciências sociais só conseguem compreender uma parte. Além disso, apesar do conhecimento efectivo que as ciências sociais trazem sobre o mundo em que vivemos, é preciso ter em conta que as generalizações são sempre abusivas. Nem se pode dizer que determinada situação é passível de gerar o mesmo tipo de reacções em todas as pessoas, nem se pode dizer que uma pessoa reage de forma semelhante a diferentes situações. O determinismo é uma doutrina que as próprias ciências sociais já renegaram há muito tempo.
Vem isto a propósito dos posts no Quase em Português sobre a duplicidade da moral burguesa. Não nego que seja possível estabelecer os contornos da moral burguesa, por muito difusos que sejam, tal como não nego que não faltarão exemplos de hipocrisia social nesta moral como noutras. Mas uma coisa é a hipocrisia e outra será a cegueira. A hipocrisia pressupõe um grau mínimo de consciência sobre os factos e uma conduta orientada para as soluções mais convenientes do ponto de vista do indivíduo em causa. Por seu lado, a cegueira, a qual não se pode igualmente recusar, é constituída por uma imersão profunda num qualquer referencial normativo. Se se quiser, um nunca deixar de considerar as normas interiorizadas como "as normas" tout court. Recusar esta realidade é o mesmo que admitir que amanhã o bife de cão será tão popular como o bife de vaca apenas porque os talhos passam a explicar aos clientes que, no fundo, é tudo carne comestível.
Wednesday, November 23, 2005
Tuesday, November 22, 2005
"Chegamos assim a uma terceira imagem da sociedade, depois das imagens da prisão e do teatro de fantoches – um palco povoado de actores vivos. Essa terceira imagem não oblitera as duas anteriores, mas é mais adequada em termos dos novos fenómenos sociais que levamos em consideração. Isto é, o modelo teatral da sociedade a que agora chegamos não nega que os actores que estão no palco sejam coagidos por todos os controles externos estabelecidos pelo empresário e pelos controles internos do próprio papel. Ainda assim, porém, os actores têm opções – representar seus papéis com entusiasmo ou com má vontade, representar com convicção interior ou com "distanciamento" e, às vezes, recusar absolutamente a representar. O exame da sociedade segundo este modelo teatral altera profundamente nossa perspectiva sociológica geral. A realidade social parece estar agora precariamente pousada na cooperação de muitos actores individuais – ou talvez uma metáfora melhor seria a de acrobatas executando perigosos números de equilibrismo e sustentando juntos a oscilante estrutura do mundo social."
Peter Berger, Perspectivas Sociológicas
Publicado por Miguel Silva às 23:36 |
Monday, November 21, 2005
Ainda vamos a tempo de assinalar os 107 anos sobre o nascimento de René Magritte, o mestre do surrealismo que pedia aos seus amigos para baptizarem os seus quadros sem lhes terem sequer posto os olhos em cima.
René Magritte, Time Transfixed, 1938
Publicado por Miguel Silva às 23:44 |
Está na ordem do dia criticar as funções de protecção social do Estado e anunciar a falência do modelo social europeu. Entretanto, vivemos mergulhados num sistema económico que, para subsistir, prescinde de milhares de milhões de pessoas, remetendo-as a uma existência absolutamente miserável. Se o chamado modelo social europeu está em risco de falência económica, o modelo económico mundial está, desde o início, em processo de falência moral.
Publicado por Miguel Silva às 12:11 |
Os distúrbios em França aos olhos de Ulrich Beck, no Office Lounging (via Ma-Schamba). Uma perspectiva incisiva que poucos têm coragem de admitir.
Publicado por Miguel Silva às 00:34 |
Friday, November 18, 2005
Por falar nisso, diz-se que o conde Almásy, que inspira a personagem retratada no Paciente Inglês, muito provavelmente, ter-se-ia sentido muito mais atraído por Mr. Clifton do que por Mrs. Clifton.
Publicado por Miguel Silva às 17:16 |
É muito interessante quando as pessoas dizem que não têm nada contra a homossexualidade, mas que os homossexuais deviam ser mais reservados nas suas demonstrações de afecto mútuo. Quer dizer, a andarem assim aos beijos mesmo no meio da rua, à frente de toda a gente, qualquer dia as pessoas começavam a encarar isso com naturalidade, o que seria estranho e desaconselhável.
Publicado por Miguel Silva às 17:10 |
Almásy: I just wanted you to know: I'm not missing you yet.
Katharine Clifton: You will.
Não é difícil adivinhar qual deles sabe o que está a dizer.
Publicado por Miguel Silva às 16:59 |
Thursday, November 17, 2005
De certa forma, pode dizer-se que o meu estado natural é não ser natural.
Publicado por Miguel Silva às 19:57 |
O facto de ser uma pessoa que, efectivamente, se preocupa em não dar passos em falso em público tem os seus prós e os seus contras. É de uma grande utilidade em tudo o que seja compromisso social e conversa de circunstância. Evidentemente, quando se chega ao campo dos relacionamentos próximos começam a surgir os problemas.
Publicado por Miguel Silva às 19:54 |
Prisões secretas. Prisioneiros sem direito a defesa ou a julgamento e sujeitos a movimentações clandestinas. Utilização consentida de práticas de tortura. Se este é nosso lado, está na altura de assumir que já não há nada para defender. Somos nós que precisamos que alguém nos venha salvar.
Publicado por Miguel Silva às 15:15 |
Hoje, quando me levantei, pensei que seria um bom dia para me deitar cedo. É meia-noite e meia e ainda nem cheguei a casa.
Publicado por Miguel Silva às 00:34 |
Wednesday, November 16, 2005
Tuesday, November 15, 2005
Algumas vezes, demasiadas vezes, a blogosfera traz-me recordações da adolescência.
Publicado por Miguel Silva às 14:10 |
Nos meus tempos de adolescência ia ver com frequência os jogos mais importantes que o Benfica disputava na Luz. Alguns jogos europeus, também algumas equipas do meio da tabela, mas, sobretudo, os derbys contra o Sporting e contra o Porto. No final do jogo, já fora do estádio, acabávamos por passar quase sempre pelos membros das claques do Benfica, reunidos nas portas de saída dos apoiantes da equipa adversária, aguardando já devidamente munidos de pedras e garrafas prontas a voar mal se vislumbrasse o primeiro vulto. O resultado do jogo, a equipa adversária ou quem passava por aquelas portas não importava. Nunca importou. As pedras e as garrafas voaram sempre indiscriminadamente.
Também por essa altura era comum dar uma vista de olhos ocasional pelo Blitz. O Blitz tinha (talvez ainda tenha) uma secção alimentada pelas mensagens dos leitores. Havia colunas do jornal recheadas de insultos trocados entre fervorosos apreciadores de estilos musicais distintos. Gerava-se uma significativa interacção entre as pessoas que para lá escreviam, as quais demonstravam paciência suficiente para tolerar os intervalos de publicação entre provocação e contra-provocação, que podiam ser de várias semanas, mas sem a menor tolerância perante quem não partilhasse os mesmos gostos.
Publicado por Miguel Silva às 14:08 |
O que se escreve num blogue, mesmo que em registo pessoal, nem sempre é autobiográfico. Por exemplo, quando escrevi que um blogue é um bom sítio para perder amigos não estava a dizer que realmente tenha perdido algum amigo por conta deste passatempo elaborado. Por outro lado, já quando escrevi que uma pessoa, de manhã, não faz ideia das asneiras que fará até ao final do dia...
Publicado por Miguel Silva às 14:06 |
No Esplanar um questionário dos anos 80 para apurar a vocação para a escrita. A quarta pergunta:
4 – Com os seus últimos quinhentos escudos
a) vai ao cinema
b) compra uma garrafa de bom vinho de marca
c) dá-os a alguém
d) compra um livro
e) vai jantar fora
f) apanha um táxi
Duas décadas mais tarde, os quinhentos escudos, transformados em euros, não chegam para ir ao cinema, nem para comprar um bom vinho, nem para comprar um livro, nem para jantar fora, nem para andar mais de 100 metros de táxi. Ainda assim, parecem fazer demasiada falta para serem dados a alguém.
Publicado por Miguel Silva às 00:28 |
Monday, November 14, 2005
Para quem não sabe, este tipo de spam segue exactamente a mesma fórmula dos horóscopos. Suficientemente generalista para não deixar ninguém de fora à partida, uns elogios que toda a gente gosta de ouvir e uns defeitos que toda a gente sabe ter e está pronto a servir. Evidentemente, os horóscopos, pelo menos, têm o mérito de ser escritos na língua falada pelo público que pretendem cativar.
Publicado por Miguel Silva às 11:39 |

