Saturday, November 05, 2005

Ao princípio da noite passei ao lado do estádio de Alvalade no exacto momento em que o Sporting marcou o primeiro golo. Não pude deixar de me interrogar se o Besugo se entusiasma tanto com os golos do Beto como com os de outro jogador qualquer do seu clube. Eu, por exemplo, só comemoro os golos do Geovanni quando não me apercebo a tempo de quem foi o autor da proeza.

Portugal precisa de si, diz o cartaz. E eu acredito que sim, que precisa. Afinal, se não for eu e mais uns quantos idealistas na mesma condição, que não só pagam os seus impostos como acreditam na valia de os pagar, o que sempre vai ajudando a equilibrar o défice e a protelar a falência do Estado Providência por mais uma década, que vão pagando os serviços com a pior relação qualidade-preço da Europa, que vão suportando um mercado fictício de monopólios e cartéis, para que meia dúzia de acomodados possa continuar a lucrar obscenamente e o país continue a fingir que tem empresas de grande dimensão que são casos de sucesso, Portugal estaria, realmente, muito pior.

Portugal precisa de si, diz o cartaz. E eu acredito que sim, que precisa. Mas não me conseguem convencer de que precise de Cavaco Silva.

Existem dias em que me sinto a envelhecer ao minuto.

Friday, November 04, 2005

As palavras do ministro Nicolas Sarkozy são, sobretudo, retórica punitiva populista. Pior do que isso, revelam alguém mais preocupado em encontrar uma forma contundente de espalhar as suas ideias feitas do que em aproximar-se do fundamento dos problemas.

Se a punição fosse o melhor caminho, ou até o único caminho, para meter as pessoas na ordem - numa qualquer ordem -, os totalitarismos seriam a forma mais comum de regime político.

Thursday, November 03, 2005

Hans-Peter Martin e Harald Schuman descreveram, há uns anos, um cenário pessimista de evolução do fenómeno da globalização. Nele previram um mundo profundamente dividido pelas desigualdades sócio-económicas, no qual a crispação social um dia deixaria de ser apenas latente.
Neste momento há qualquer coisa a acontecer em Paris, tal como tem estado a acontecer qualquer coisa em Melilla nas últimas semanas. Os mais optimistas, chamemos-lhes assim, verão simples episódios desconexos. Os mais pessimistas tendem a ver o prenúncio de algo mais. Com toda a certeza, algo de muito errado e que já não se encontra somente do lado de fora das nossas fronteiras. Entretanto, os noticiários abrem com os prémios de um canal televisivo especializado em não afrontar o establishment ou com mais um pássaro encontrado morto algures, num desfasamento do que realmente interessa no mínimo curioso e no máximo suspeito. Nada que Martin e Schuman, na sua versão alarmista, não tenham também previsto.

Tuesday, November 01, 2005

Tanta recordação do dia em que o chão nos fugiu por debaixo dos pés. Como se não continuasse ainda a fugir.



Marc Chagall, Portões do Cemitério, 1917

Monday, October 31, 2005

Um blogue cresce. Cresce tanto que chega a fugir à vontade de quem o criou. E a certa altura queremos dizer-lhe que seja menos pesado e coloquial e ele já não obedece. Adquiriu, legitimamente, uma personalidade própria, alheia à vontade do criador, e mantém-se-lhe fiel. Nesse momento, como a despersonalização não é algo que se possa impor de ânimo leve, a melhor solução é separarem-se os caminhos. Para que se mantenham as liberdades.

Friday, October 28, 2005

Acima de tudo, todos os dias uma página em branco à espera.